MEO Kalorama: a festa gloriosa dos Arcade Fire no final da segunda edição do festival
Final sublime o da segunda edição do festival lisboeta. O MEO Kalorama volta a 29, 30 e 31 de agosto de 2024.
O terceiro e último dia da segunda edição do MEO Kalorama acabou com um festão em absoluto estado de graça. O retorno dos Arcade Fire a Lisboa foi triunfante, humano e até revivalista, porque, embora a estreia brilhante dos canadianos em solo nacional já tenha sido há quase 20 anos, ontem foi entusiasticamente reavivada por Win Butler e talvez por muitos que ali estavam.
Milhares de pessoas cantaram, dançaram e ergueram os braços, eufóricas, com os canadianos e isto praticamente de uma ponta a outra do concerto. Mesmo depois do final, e já com os técnicos em cima do palco a querer despachar as arrumações do material, muitos foram os que, de forma inglória, ficaram à espera que o grupo voltasse ao palco para perpetuar o estado de alegria que espalhou pelo recinto e que culminou numa mini e sambada jam session na despedida.
Os Arcade Fire são bons amigos dos palcos portugueses e já proporcionaram grandes e memoráveis momentos aos seguidores que têm por cá. Assim é desde 2005, quando o coletivo de Win Butler e Régine Chassagne provocou um histórico alvoroço em Paredes de Coura - espetáculo ao final do dia que se entranhou, sem estranheza, no futuro dos hábitos musicais dos muitos que tiveram o privilégio de assistir ao concerto - o primeiro do grupo em Portugal.
A experiência com os Arcade Fire no festival minhoto, que ganhou asas e foi relatada de boca em boca e de amigo em amigo, perdura na memória, mas, desde então, (e bem vistas as coisas já lá vão quase duas décadas) os canadianos já nos visitaram uma série de vezes, tendo sido a última em setembro de 2022 no interior do Campo Pequeno, em Lisboa, e também fora da arena, uma vez que continuaram a festa na rua, ao lado dos que, por sorte ou por saberem o que é que a casa gasta, esperaram pela surpresa.
"Desde que tocámos em Portugal pela primeira vez, dizemos a todas as bandas para virem cá tocar cá. E dizemos isso por causa de vocês", disse Win Butler a meio do concerto de ontem - o espetáculo que fechou em glória o palco principal do último grande festival de verão.
Os canadianos chegaram com as mãos cheias de êxitos e algumas canções mais recentes, que foram extraídas de "WE" (2022). A ideia era celebrar a estrada e a história de amor entre eles e o público português.
A bola de espelhos gigante já rodava no teto do palco, quando o coletivo entrou em cena debaixo da lua, de aplausos e das expectativas (cremos que bem altas) da multidão que talvez tenha visto as expectativas nas alturas a serem superadas - o que é um feito épico.
Régine Chassagne, que escolheu o vermelho para Lisboa, abriu o concerto nas teclas para dar início da 'Age of Anxiety II (Rabbit Hole)', do disco mais recente. Não demorou até que Win Butler, que também escolheu o vermelho para a noite na Bela Vista, abrisse o sorriso. E sorria sempre que podia ou quando olhava para o manto de gente que orquestrava a partir do palco ou mesmo entre as pessoas. É que, logo no primeiro tema, sem demoras ou o razoável período de aquecimento, o canadiano atirou-se para os braços do público, arriscando um bem-aventurado crowd surfing, enquanto a companheira Régine teatralizava os gestos em cima do palco.
Ouviu-se depois 'Creature Comfort' e em 'Neighborhood #3 (Power Out)', que acabou com uma festa de guitarras, soltaram-se os primeiros "oh oh ohs" da massa humana que fez a festa desde o primeiro som que se soltou das colunas. Transição direta para 'Rebellion (Lies)' e para o regresso de Win Butler para o calor do público. A multidão fervilhava de êxtase, enquanto o frontman do grupo atravessava aquele mar de gente com a guitarra erguida aos céus. 'Reflektor', que meteu Régine Chassagne, agora coberta de prateado, a rodopiar e o libertador 'Afterlife' vieram a seguir.
A reflexão existencialista ou o exercício de fé de 'The Lightning I, II' continuou a alumiar o recinto de pura alegria. "O que trará a luz?", questiona, às tantas, Win Butler na letra. A pergunta, achamos nós, poderá ter a resposta na manifestação de amor e entrega que tinha aos pés.
Saudação a Lisboa e a Portugal antes de assumirem os postos para mais uma sequência gloriosa: 'No Cars Go' e 'Neighborhood #1 (Tunnels)' foram servidas no ponto e festejadas debaixo de uma carismática neblina de pó.
'The Suburbs' foi dedicada ao maior de todos, o histórico David Bowie. "Sei que ele está a olhar cá para baixo", afiançou Butler antes de se entregar às teclas e talvez às boas memórias que tem de Bowie, ele que era um fã convicto dos canadianos.
'Unconditional I (Lookout Kid)' acabou com mais amigos no palco. Bonecos gigantes e coloridos ergueram-se para também dançarem com o tema que tocou corações. Toucou, pelo menos, o coração da Susana, uma menina que estava ao nosso lado. Assim que a Susana ouviu o início da canção de "WE", desatou aos aos pulos e a dizer aos amigos que aquela tinha sido a canção que estava a dar quando o filho Tomás nasceu.
'Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)' deu a vez a Régine para a confraternização "na relva" e 'Everything Now' deu a vez ao público para um momento "la la la" em uníssono e em plena comunhão.
O glorioso 'Wake Up' ficou guardado para o grande final com os milhares que cobriram as colinas do Parque da Bela Vista a cantar novamente numa sintonia absoluta e arrepiante. O final do MEO Kalorama foi então ao som deste poderoso wake-up call, que se agiganta até explodir. 'Wake Up' meteu toda a gente a dançar e aos pulos debaixo da lua - lua essa que, tal como o herói Bowie, viu tudo lá de cima. Talvez também tenha dançado. Bowie dançou. De certeza.
