Blind Zero: "é bom celebrar 30 anos de carreira com uma projeção de futuro no dia seguinte"

    A banda portuense atua esta quinta-feira, 30 de maio, na Casa da Música, no Porto. Dia 31, sai o álbum novo.

    Esta quinta-feira, 30 de maio, os Blind Zero vão subir ao palco da Casa da Música, no Porto. O início do concerto na emblemática sala portuense está marcado para as 21h30.

    No dia seguinte, a 31 de maio, Miguel Guedes, Nuxo Espinheira, Vasco Espinheira e Pedro Guedes editam "Courage and Doom", o novo álbum que sucede a "Often Trees", de 2017. 

    "O novo disco atesta a boa forma da banda e, ao vivo, o quarteto surpreende num espetáculo químico e intemporal, revelador de enorme criatividade e vitalidade", conta o comunicado sobre o álbum que chegou à redação. 

    No concerto na Casa da Música, além de percorrer 30 anos de músicas, as diferentes fases da carreira, a banda vai dar a conhecer algumas canções do novo registo.


    O álbum chama-se "Courage and Doom". Porquê este título? 

    O disco nasceu em tempos muito conturbados, de muita mudança. E de uma mudança muito rápida. O álbum começou a ser escrito quando estávamos fechados em casa [na altura da pandemia]. Isso obrigou-nos a trabalhar de uma forma diferente. Levou-nos a explorar outras sonoridades, a experimentar instrumentos novos. Tivemos, sobretudo, de encontrar formas diferentes de compor em conjunto. Não deixámos de compor juntos mas estávamos fisicamente afastados. Esse novo método, digamos assim, encaminhou-nos para diversos sítios. A dada altura, entrou-nos uma guerra pela porta. Lembro-me perfeitamente de estar a escrever letras no dia em que a Ucrânia foi invadida, por exemplo. Foram tempos sob pressão, de enorme dificuldade mas também de reencontro. E depois houve aquela fase em que alimentámos muito a ideia de esperança mas parece que ficámos ainda mais duros, mais cínicos e mais extremados. Foi tudo muito rápido. Aconteceu tudo de uma forma muito vertiginosa. O álbum fala da coragem que todos nós tivemos mas também deste ambiente quase assombrado que estamos a viver e onde já estamos há algum tempo. Acabamos por sintetizar tudo isto numa espécie de interrogação. O álbum junta muita coisa porque também vivemos muita coisa juntos.


    Qual era o ponto de partida do álbum e de que forma a conjuntura condicionou o processo criativo?

    Foi algo que nunca tínhamos experienciado antes. O processo criativo foi completamente tomado pelas circunstâncias. Houve muita gente a escrever discos durante os confinamentos, mas esses álbuns acabaram por sair logo após a pandemia. O nosso álbum prolongou-se no tempo. É um disco que já olha para trás com alguma distância desses tempos. É como se sobrevoasse o momento em que começou a ser feito. É um produto de um momento muito difícil, em que experienciámos coisas que nunca tínhamos vivido antes. Mas, à medida que nós nos fomos reencontrando, as canções que tínhamos feito em separado e que íamos partilhando à distância, ganharam outra abordagem. A verdade é que depois desses reencontros ainda passou algum tempo, o que fez com que voltássemos a trabalhar nas canções para que não ficassem datadas.          

    Como é que olhas para o que está a acontecer no mundo?

    O tempo não parou mas parece que ficou suspenso durante um determinado período. Acho que, depois disso, o reencontro das pessoas não foi o mais feliz. Parece que já passou muito tempo desde a altura em que "ficámos suspensos", mas a verdade é que não foi assim há tanto tempo. Havia a ideia de nos reerguermos através de esforço coletivo, mas acho que apenas retomámos os nossos hábitos e rotinas. Julgo, contudo, que estamos muito mais extremados nas nossas posições. Olhamos para as coisas de uma forma mais entrincheirada e estamos a assistir a um grande crescimento do ódio.


    Ainda assim, há um lado luminoso neste álbum, certo?

    Há um lado luminoso, porque também quisemos incluir alguma esperança no álbum. A tal esperança de união para a ideia da "reconquista". E a esperança em tentar fazer algo diferente após um período de clausura. Se ouvirmos as oito faixas do disco, percebemos que há uma linguagem cinematográfica. Isto no sentido de contar histórias, criando até imagens. Os Blind Zero foram sempre fazendo esse caminho, mas acho que este álbum está mais planante. É um disco mais atmosférico, embora com algumas pontuações rock. Em relação ao "Often Trees", este novo disco adensa a paisagem planante e atmosférica. É uma paisagem mais digital e sintetizada. É um disco que recorre mais à tecnologia, embora nunca deixássemos que a tecnologia nos tomasse. Ainda há ali um coração a bater.

    Que viagens sónicas é que este álbum propõe?

    O álbum sofreu muitas mutações e passou por diferentes abordagens. Quisemos, sobretudo, que refletisse uma visão mais reflexiva sobre o que vemos e o que sentimos. Quisemos também que, ao vivo, fosse um álbum nos transportasse para um patamar diferente. Queríamos "ir" para um lugar mais cénico, mais atmosférico. Falo de ambientes que encontramos em filmes ou em séries. Talvez seja sobre a ideia de sobrevoar o mundo e não tanto sobre olhar para o mundo com os pés na terra. Isto, claro, sem nunca perdemos a visceralidade de uma banda rock. Nós divertimo-nos muito em palco e acho que isso passa para o público.      

    Como é que achas que o público vai reagir aos temas novos, sendo que o concerto de mais logo será para celebrar os 30 anos de Blind Zero?

    É sempre a sensação de um novo começo. É verdadeiramente entusiasmante. Imaginamos sempre como serão as novas canções ao vivo. Vamos celebrar 30 anos de existência neste concerto e no dia seguinte editamos um disco. Isso é vital para nós. É muito bom estar a comemorar 30 anos de carreira com uma projeção de futuro para o dia seguinte. Estamos a pensar tocar quatro temas novos e depois vamos passar pelo nosso percurso, por cada um dos discos. Desta vez, vamos conseguir tocar um pouco de tudo e satisfazer as pessoas que tantas vezes nos pedem uma canção ou outra que acabam por não entrar no alinhamento por uma razão ou outra. Vamos tocar os nossos singles e também canções que não tocamos há algum tempo. São temas que, embora tenham sido escritos num passado longínquo, fazem parte do nosso contexto atual.    


    A propósito da celebração dos 30 anos, vocês escreveram o seguinte nas redes sociais: "há 30 anos, neste dia, ensaiamos pela primeira vez na Poltergeist e a nossa vida mudou". O que é que recordam desse ensaio?

    Temos muitas memórias desse início. Foi tudo muito urgente, muito rápido e muito incisivo. Ninguém nos conhecia e de repente começámos a encher concertos. Editámos o primeiro disco quando já estávamos a atuar em festivais, com milhares de pessoas a assistir. Há muitas memórias, nomeadamente da sala de ensaios, do nosso primeiro ensaio e da Poltergeist que era onde ensaiava a maior parte das bandas do Porto. Havia bandas de diversos estilos, mas também se sentia o movimento rock dos anos noventa, havia uma série de bandas a cantar em inglês. Lembro-me das pessoas, dos corredores, do cheiro da sala de ensaios, do café que estava por cima da sala e da mercearia que estava ao lado. Tudo isso fazia parte do nosso início. Estávamos em meados dos anos noventa. Havia muita coisa a efervescer na cidade do Porto.    


    Desde esse primeiro dia de ensaios a esta quinta-feira em que celebram 30 anos de carreira na Casa da Música, que balanço é que fazes? Que sonhos é que cumpriram, que sonhos ficaram por cumprir?

    Não sou muito adepto de balanços antes que passe muito tempo. Julgo que ainda há vitalidade na banda. Estamos com um disco novo. É isso que mais importa. Claro que pensamos em tudo o que fizemos. Coisas que achávamos que nunca poderiam acontecer. Tocámos muito mais do que aquilo que imaginámos. Temos mais discos do que aqueles que sonhámos. Nunca pensámos na possibilidade de chegar aos 30 anos. Tínhamos uma ideia de percurso, sim. Queríamos fazer mais do que um disco mas não podíamos imaginar que íamos estar a dar concertos ao fim de 30 anos. É um grande privilégio. E assim será enquanto nos fizer felizes.