Simple Minds: o Campo Pequeno tornado estádio

    Jim Kerr é um cavalheiro do rock que, com o seu batalhão, volta a embalar o público para uma noite grandiosa.

    Já se perdeu o número de vezes que os Simple Minds vieram a Portugal. Essa contagem, quando era ainda possível de a fazer, começou com as primeiras partes dos espetáculos de Peter Gabriel no Dramático de Cascais e no Pavilhão Infante de Sagres, no Porto, no distante ano de 1980, tão distante quanto a viagem que tiveram que fazer de carro, de volta a Glasgow, pelas estradas que havia na Europa Ocidental. Quando voltaram ao nosso país em 1991, foi já para um concerto em nome próprio no antigo Estádio de Alvalade diante de 40 mil pessoas e com estatuto para ter Joe Cocker na primeira parte. 

    Nada disto se repetiu em Portugal, nem a maratona pela estrada de regresso a Glasgow, nem um megaconcerto num grande recinto desportivo por sua conta. Mas cada vinda a Portugal dos Simple Minds, continua a ser especial, como se fosse a primeira ou a última. O concerto desta noite no Campo Pequeno foi também especial.  

    Passava muito pouco das 20h30 quando os Simple Minds, em septeto, subiram a palco. Os sete músicos eram os únicos na sala que não tinham tempo para abanar os leques que dominavam as bancadas, para tentar atenuar o ar muito abafado. Jim Kerr surge de casaco jeans branco e de bem com o seu cabelo grisalho - coisa rara nos contemporâneos da sua classe de rockers. Kerr é um cavalheiro que não se cansa de apresentar os outros músicos da banda ou de saudar cada secção do público. 

    O concerto abre na emblemática ‘Waterfront’, com um baixo volumoso com andamento de batalhão militar, que é o oxigénio para a canção, sem a qual não vive. O tema atesta logo a pujança de uma grande máquina rock que já encheu estádios e que tem capacidade para os encher outra vez. Jim Kerr, com os seus incentivos, faz logo levantar a plateia sentada num ápice. Acena para o público das pontas e bate palmas ao longo de uma canção que tem no berço a decadência da indústria naval em Glasgow. Jim Kerr, qual Bruce Springsteen, dá uma luz heróica às suas gentes, num modo bem escocês, à Simple Minds.

    'Once Upon A Time' é a segunda canção do concerto, novamente, com o olhar esperançoso de Kerr - “I see that you smile through weariness/But there is not much else enlightened/Well, that's a question down to time”. A cantora Sarah Brown assume os coros femininos e o pulmão soul, numa canção em que  público já está desalinhado e concentrado junto ao palco, como Jim Kerr gosta.

    Segue-se uma das grandes bandeiras ativistas dos Simple Minds, ‘Mandela Day’, em que volta o otimismo de Jim Kerr que acreditou ser possível libertar Nelson Mandela, quando ainda estava encarcerado. Um ano depois de publicada a canção, Mandela era um homem livre. Jim Kerr faz nesta música a sua primeira apresentação de muitas de Charlie Burchill, antes do seu solo de guitarra elétrica. Charlie Burchill é a parede-mestra de todo o edifício sonoro dos Simple Minds. Ele é o fiel escudeiro de Jim Kerr, com quem forma a dupla fundadora e resistente do grupo, que sobreviveu às várias alterações de formação em mais de 45 anos de existência.

    Como um anfitrião simpático, Jim Kerr pergunta ao público se está bem em todas as áreas da sala, antes de cantar o tema mais antigo da noite, ‘I Travel’, dos anos underground dos Simple Minds, quando tiveram ginástica afoita para levar o rock para a pista de dança e, sem terem noção, lançarem sementes para bandas de referência de hoje como os Future Islands. A canção é uma espécie de revista das atualidades politico-sociais do mundo em 1980, mas de forma mais abstrata que os tempos politizados do álbum de 1989, “Street Fighting Years”. A noite continua, mas em ‘Big Sleep’ é já madrugada alucinatória na letra - “Going out in the Big Sleep/Could have been years/you know it could have been years/Or only seconds ago” - noutra viagem pelo submundo indie dos anos 80, tão cintilada por sintetizadores, quanto a noite pelas luzes. A canção é completada por mais um fôlego vocal de Sarah Brown, que se estava a afirmar cada vez mais como a outra estrela da noite. 

    Em 'Sanctify Yourself', o urro icónico de Jim Kerr é passado para Sarah, como uma entrada noutra discoteca. ‘Sanctify Yourself’ é mais reconhecida, num rock com ginga. Os Simple Minds sabem muito bem como nos pôr a dançar. A adrenalina passa para o público que começa a cantar mais efusivamente, enquanto Jim Jerr continua a ter elasticidade para se dobrar horizontalmente no palco. Um fã expõe a bandeira escocesa na quarta fila da plateia e os Simple Minds respondem com outra bandeira escocesa, mas hasteada no som da simbólica gaita-de-foles recriado pelos teclados, em ‘Let There Be Love’, num rock mais clássico, com as várias ondulações vocais de Kerr já como maneirismos. A entoação vocal final lembra partes da melodia de ‘You´re the Voice’, de John Farnham. 

    Jim Kerr estica-se um pouco para dar as mãos aos espectadores da fila da frente, nas pausas vocais de 'Come a Long Way', que conta com um refrão épico, ao modo glorioso do álbum de 1985, “Once Upon a Time”. No capítulo seguinte, o público é premiado com 'Glittering Prize', uma pop mais intrincada e aventureira mas pertinente e até viciante quando entranhada, dos tempos da vanguarda, quando Jim Kerr tinha olhos pintados e um ar mais alienígena. O ecrã mal se dá por ele, a salpicar pequenos efeitos, porque as vistas estão concentradas a olho nu na banda, como à antiga. Já 'Promised You a Miracle' é canção mais direta aos ouvidos e à empatia imediata, em novo ato de fé otimista de Jim Kerr que canta “Everything is possible in the game of life/A burning dream/You can be Queen”. É em 'Promised You a Miracle' que Jim Kerr dirige pela primeira vez o suporte de microfone para o público, não parando de passear pelo palco e até dando umas festas nas orelhas do velho companheiro de estrada Charlie.

    'New Gold Dream (81-82-83-84)' é uma aventura tão grandiosa quanto a letra - “Sun is set in front of me, worldwide on the widest screen” - em que Jim Kerr tem os modos vocais da época da new wave, a um estilo similar ao do contemporâneo de Liverpool, Ian McCulloch dos Echo & The Bunnymen. 'New Gold Dream (81-82-83-84)' é vivido sobretudo no Campo Pequeno pelos fãs mais acérrimos de longa data, perante a apatia e até distração de grande parte do público.

    Durante um solo valente da baterista credenciada Cherisse Osei, a restante banda retira-se. Quando voltam da pequena pausa, Kerr elogia a prestação musculada de Osei - “É o que chamo de Girl Power” - antes da atmosfera da sala mudar drasticamente com 'Belfast Child', que começa em tom lúgubre, quase a requerer um minuto de silêncio, pela grande tragédia provocada por uma ataque desastrado do IRA na Irlanda do Norte, em 1987. Jim Kerr diz a meio “obrigado”, talvez a agradecer o respeito do público por aquela primeira metade compenetrada da canção. Mas 'Belfast Child' tem sete vidas, como uma longa epopeia folk, com levantamento rocker, que passa de cabisbaixa e trágica a esperançosa. O conforto sussurrado “life goes on” de Jim Kerr no final da canção é como um abraço solidário escocês num velório irlandês. De cócoras, Kerr diz em bom volume e outra vez: “obrigado, Lisboa”. Simple Minds e público compreenderam-se naqueles quase dez minutos de peso e fraternidade.

    Prosseguem os hinos à esperança para dias mais sombrios como o mais luminoso.'Someone Somewhere in Summertime', uma canção que os Simples Minds recusam tirar dos alinhamentos dos seus concertos há muitas décadas.Jim Kerr acena para as partes da bancada que ainda resistem sentadas, com aquela fé de que se hão de se levantar, embora já houvesse pessoas de pé e muito desinibidas no meio da bancada, a tentar contaminar os restantes.

    O ano da lotaria para os Simple Minds, 1985, continua a render os seus louros, incluindo nesta noite, 'Don't You (Forget About Me)', numa canção nascida para o sucesso, e que foi um êxito sem fronteiras, sem oceanos, como se o mundo fosse um só supercontinente. Já nesta fase, o Campo Pequeno parece um estádio concentrado num espaço menor. Muito do público guardou-se para este momento, para cantar a plenos pulmões, até à rouquidão. Jim Kerr vira o suporte de microfone para o público que aguenta os “lalala’s” durante longos minutos. Jim Kerr elogia-os e brinca: “cantam tão bem! Estiveram a ensaiar de manhã, a cantarolar no chuveiro?”. Jim Kerr, no calor irracional de Don't You (Forget About Me), deixa o seu lado de adulto de lado e transforma-se numa criança traquina a cantarolar e a imitar os movimentos debaixo de um chuveiro. Kerr está a viver o estado de felicidade, talvez com o pensamento interno naqueles segundos de ter o melhor emprego do mundo.

    É ousadia levar um tema mais obscuro para encore, como 'Book of Brilliant Things', mas os Simple Minds não o deixam tornar-se um anti-clímax, na voz poderosa de Sarah Brown, que volta a palco com um vestido todo brilhante, como se estivesse na era do disco-sound. Jim Kerr está discreto e de óculos escuros. a assistir deliciado àquele show da sua cantora. A meio da interpretação de ‘See The Lights’, o vocalista dos Simple Minds pergunta ao público se está tudo bem, enquanto a sua personagem pergunta à sua amada o mesmo, numa canção de reconciliação amorosa. Os braços do público estão no ar, acontecem todas as coreografias possíveis com a assistência num concerto de Simple Minds. 

    Falta só um tema. Todos esperam pelo mesmo: 'Alive And Kicking', do tal ano dourado de 1985. A canção é outra subida gloriosa aos Highlands da pop-rock mainstream, embora as montanhas do videoclipe não sejam na Escócia. Jim Kerr está no pico, mas a voz dos coros faz-lhes perguntas quando fizerem a descida inclinada: “quem lhe irá salvar?”; “quem irá salvar o amor”. Mas Kerr só quer viver o presente glorioso,. No tema todos brilham, um solo de guitarra, outro das teclas, a voz dos coros a emergir e uma voz toda avivada como a de Jim Kerr. O destino é a apoteose com todos a cantar: os Simple Minds e, claro, o público. Jim Kerr sobe ao pico outra vez, como se estivesse em Alvalade em 1991, ou no Estádio do Wembley em 1988.

    No Campo Pequeno, passa-se o tema quebra-muros ‘Heroes’ de David Bowie. “We can be heroes just for one day” é a frase-chave e é o que Jim Kerr tenta ser em todos os concertos. Só por uma noite, o circular Campo Pequeno cresceu para um espaço oval de dimensão de estádio de futebol. Os Simple Minds acreditaram nisso e os seus fãs também.   

    No final, Jim Kerr agradece a todos por “terem ido a um concerto de Simple Minds”, com uma humildade que o estrelato não conseguiu roubar, E vale a pena repetir a frase: Jim Kerr é um cavalheiro.