O "Monstro Precisa de Amigos" e o palco precisa dos Ornatos Violeta

    Regresso triunfal da banda portuense ao CA Vilar de Mouros no terceiro dia da edição de 2024 do festival minhoto.

    Se uma vida não chegou, os Ornatos Violeta hão-de ter "cem vidas mais". Talvez enquanto "ditar o coração" ou enquanto ditar a vontade indomável de subir aos palcos. 

    Há mais um concerto na soma de estrada do grupo portuense e os fãs agradecem. Os novos e os da velha guarda. A ver Ornatos não há fossos de gerações, embora num dos cartazes, que vimos na linha da frente do recinto, estivesse escrito algo como: "Manel, casa-te com a minha mãe". É também por este saudável cruzamento de gerações que queremos sempre voltar a vê-los. Que voltem para celebrar o que quiserem, importa é que continuem agarrados ao amor visceral de tocar ao vivo para fazer gente feliz. O combustível de paixão pelos palcos que os move é inesgotável. Tal como é a entrega de quem os vê.  

    O motivo do regresso a Vilar de Mouros (onde estiveram em 2023) foi a celebração dos 25 anos do álbum O Monstro Precisa de Amigos, disco esse que foi "instituído" em 1999 como Álbum do Ano nos prémios Blitz. É o segundo da banda que no mundo físico junta agora Manel Cruz, Nuno Prata, Peixe e Kinörm, estando, claro, Elísio Donas (o teclista falecido no ano passado) no espaço que separa os quatro e no coração de cada um. Na posição de Elísio está Miguel Ferreira, reforço pedido emprestado aos Clã. Ainda no palco esteve o quarteto de cordas solistas da Casa da Música, que interpretou os arranjos mais orquestrais do álbum que na altura ficaram nas mãos dos Corvos.

    O álbum de 1999 foi totalmente desembrulhado, mas não por ordem. Coisas foi a primeira a soltar-se do alinhamento, mas antes a triunfal entrada em palco. Manel Cruz, com um sorriso luminoso, entrou a correr para logo depois gritar "boa noite" e meter a guitarra nos braços. "Tá tudo fixe ou quê"?, perguntou, só para saber se lá em baixo estava tudo bem, como se não fosse evidente que sim. 

    A íntima Para Nunca Mais Mentir, a fantasmagórica Tanque a agitada Pára de Olhar Para Mim vieram depois. Manel Cruz ajoelha-se, cruza olhares com o resto da banda e inevitavelmente tira a t-shirt. Mais livre, sempre irrequieto, entrega-se, de corpo suado e alma espevitada, a Dia Mau. Tudo ferve por esta altura. Manel Cruz, que durante o concerto ergueu várias vezes os braços para expressar a sensação de vitória, concluiu: "hoje não é um dia mau, é um dia bom". 

    Deixa Morrer e Nuvem vieram a seguir, mas, logo depois, um breve pulo para fora do álbum. "Hoje temos aqui um aniversariante", disse Manel Cruz, referindo-se a Mateusz Stasto, um dos elementos do quarteto de cordas. Vilar de Mouros cantou-lhe os parabéns para depois cantar, com os corações cheios e ao alto, a popular balada Ouvi Dizer. Fomos todos Manel Cruz e Vítor Espadinha (o dono da voz que declama o final poético na faixa original). Poesia ontem coletivamente declamada em toda a parte, até nas colinas de Vilar de Mouros. 

    Serenidade introspetiva em Notícias do Fundo e mais um ato de pura libertação em O. M. E. M., com as ameaças da guitarra de Peixe a entrelaçarem-se nas confissões de Manel Cruz. Depois, um brinde coletivo, a pedido do músico que nessa altura ergueu o braço com uma cerveja na mão. Gargantas menos secas para o que veio a seguir. 'Chaga' chegou com um autêntico motim instrumental a abrir caminho para as dores lancinantes de amor, que todos os que ali estavam cantaram e exorcizaram de peito aberto.

    A intensidade foi tanta que "atirou" Manel Cruz para o chão. "Man down" durante alguns segundos, para que toda a gente conseguisse respirar, incluindo Manel. Já com o fôlego recuperado, o músico aproveitou a acalmia súbita para dirigir algumas palavras ao público. "Estamos aqui a festejar o aniversário do álbum O Monstro Precisa de Amigos. Por isso, decidimos trazer um quarteto de cordas da Casa da Música. Palmas para eles", disse o frontman da banda portuense. "Muito obrigado à nossa equipa", sublinhando que para o concerto acontecer há um batalhão de gente que trabalha fora do palco. "Obrigado não só à nossa equipa mas também à organização do festival. Obrigado pelo convite e obrigado a vocês. Até sempre", disse ainda Manel Cruz antes de se atirar para o Fim da Canção e para junto do público, cumprimentando toda a gente por onde passou. Se ao final da tarde houve Capitão Fausto, à noite navegámos com Capitão Romance ao leme. Foi o tema que ficou para o final antes do encore. 

    Os portuenses regressaram depois ao palco para nos oferecerem o diamante acústico Devagar e mais três preciosidades do disco Inéditos/Raridades: Como Afundar, Há-de Encarnar e a última. A frenética Pára-me Agora foi celebrada com toda a equipa dos Ornatos Violeta no palco. "Obrigado por nos deixarem tocar mais uma vez. Obrigado do fundo do coração. Até sempre", disse Manel Cruz, claramente feliz e ainda com a adrenalina a viajar pelo corpo.


    O terceiro dia de festival ficou marcado pela estreia em Portugal da dupla sul-africana Die Antwoord. Veja a galeria de imagens:


    A edição 2024 do festival minhoto acaba hoje, 24 de agosto, nas colinas de Vilar de Mouros. No cartaz do último dia, estão nomes como os de Vapors of Morphine, David Fonseca, Waterboys, Libertines e The Darkness.