Pinto da Costa, nascido para vencer

    A intuição foi um dos seus pontos fortes, dom que não se ficou pelo futebol.

    Jorge Nuno Pinto da Costa não foi só o Presidente do Futebol Clube do Porto durante 42 anos (entre 1982 e 2024). Antes, o seu trabalho de dirigente do emblema azul-e-branco era já visível, sobretudo quando chefiou o departamento de futebol no final dos anos 70.

    Selecionamos dez decisões de Pinto da Costa que fizeram dele um dos mais decisivos dirigentes desportivos de todo o mundo. Com o seu cunho, o FC Porto passou de um clube de dimensão regional a uma instituição respeitada internacionalmente, com os maiores troféus que um clube pode sonhar. 

    José Maria Pedroto
    Ainda antes da impactante presidência, Pinto da Costa foi obstinado em trazer de volta um dos maiores treinadores de sempre do país, o carismático “Zé da Boina”, ou melhor dizendo, José Maria Pedroto. Com a intervenção de Pinto da Costa, terminou um período de incompatibilização entre o clube e José Maria Pedroto, que sempre fora um confesso portista. Depois de trabalhos notáveis a treinar o Vitória de Setúbal e o Boavista, Pedroto voltou ao clube do seu coração, para fazer dele bicampeão, em 1977-78 e 1978—79, depois de um jejum histórico de 19 anos. Um goleador como Fernando Gomes, um desequilibrador como António Oliveira ou um médio com a garra de Rudolfo Reis devolveram o FCP aos dias de glória, sob o comando sábio de Pedroto. Sentado ao seu lado no banco estava Pinto da Costa.


    Hóquei em Patins
    Já na condição de Presidente, Pinto da Costa transformou por completo a modalidade em Portugal, pela qual sempre esteve ligado. Antes da sua presidência, o FC Porto não tinha qualquer qualquer título de campeão nacional, em contraste gritante com os seus dois maiores rivais de Lisboa, que dominavam. Hoje, ao fim de 42 anos de presidência, o FC Porto é o clube com o maior número de campeonatos nacionais ganhos, 25, mais um que o maior rival Benfica. Houve um decampeonato neste século (dez campeonatos seguidos). Mas marca especialmente a equipa dos anos 80 que fez do FC Porto um clube hegemónico no ringue dos patins e que Pinto da Costa ajudou a desenvolver. Vítor Hugo e Vítor Bruno viram juntar-se-lhes jogadores que se tornaram lendários como o defesa ex-leonino Realista, o guardião Franklin ou, ainda, um “miúdo” chamado Tó Neves. Entre 1982-83 e 1986-87, o FC Porto fez o pentacampeonato em Portugal e venceu várias competições europeias, incluindo a mais desejada de todas, a Taça dos Campeões Europeus, em 1986, frente ao fortíssimo Novara, de Itália.


    Artur Jorge
    Por recomendação de José Maria Pedroto (já muito doente), Pinto da Costa apostou para treinador do FC Porto, a partir de 1984-85, em Artur Jorge, que tinha grande passado de jogador, mas não ainda enquanto técnico principal. A crença de Pedroto e de Pinto da Costa tinha razão de ser. Com Artur Jorge no banco, o FC Porto vive um período de afirmação nacional e internacional entre 1984 e 1987. Faz um campeonato nacional quase imaculado em 1984-85 (55 pontos em 60 possíveis), garante o bicampeonato em 1986 de forma milagrosa (aproveitando uma queda inesperada do anterior líder Benfica) e em maio de 1987 tem a sua mais bela noite de glória em Viena, na final da Taça dos Campões Europeus, ao derrotar o fortíssimo Bayern de Munique, onde jogavam o centro-campista Lothar Matthaus, os defesas Andreas Brehme e Klaus Augenthaler e o guardião carismático Jean-Marie Pfaff. 
    Com uma base sólida onde militavam com garra portista o lateral-direito João Pinto, os médios Jaime Magalhães e Semedo ou o bi-bota de ouro Fernando Gomes, juntaram-se-lhes peças como o trinco André, o central brasileiro Celso ou o muro polaco das redes Mlynarczyk. Mas falta falar de duas pérolas que fizeram toda a diferença: o veloz e ágil Futre, que Pinto da Costa foi buscar ao Sporting (num período de tensão com o Presidente do Sporting, João Rocha), e o argelino Madjer, o génio do calcanhar de Viena.

    Tomislav Ivic
    Pela primeira vez, Pinto da Costa chama um treinador estrangeiro para comandar o plantel principal, o croata (e então jugoslavo) Tomislav Ivic, já com longo mas irregular passado. Apesar de ser incógnita, a aposta de Pinto da Costa corre bem, na época em que Ivic esteve no banco portista. A época de 1987-88, com quatro títulos em cinco possíveis, tornou-se esplendorosa, mesmo que já sem a presença de Paulo Futre e com a perda a meio da época de Madjer, que foi jogar alguns meses para o Valencia. O FC Porto fez um passeio pelo campeonato nacional com 15 pontos mais que o grande rival Benfica no total, venceu a Taça de Portugal e ainda conquistou dois títulos internacionais que nenhum outro clube português havia ganho: a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental. Esta última finalíssima tornou-se um épico de neve em Tóquio, contra o glorioso Peñarol de Montevideo. Em 120 minutos de uma partida de suor muito enregelado, o futebol parecia um desporto feio de inverno, com um campo dividido entre um batatal e camadas densas de neve. A bola amarela não rebolava em terra e, para se mexer, tinha que voar aos chutos. Venceu a garra portista em Tóquio, mesmo que sem a arte de Viena. O golo decisivo foi de Madjer, o melhor em campo, com um golo em chapéu, que nem o solo maltratado impediu. 13 de Dezembro de 1987 é o dia portista de maior contraste de sempre entre as temperaturas negativas exteriores e as temperaturas extremamente positivas do interior azul-e-branco. A chama do dragão flamejava nas almas da nação portista.   

    Bobby Robson
    Pinto da Costa compensou rapidamente um dos seus maiores erros, o de ter decidido pelo regresso de Ivic em 1993-94, com uma das suas melhores decisões, ao aproveitar o despedimento de Bobby Robson do Sporting para o contratar de imediato para o FC Porto. A astúcia de Pinto da Costa revelou-se certeira. Bobby Robson deu início a um histórico pentacampeonato (entre 1994-95 e 1998-99), continuado por António Oliveira e concluído por Fernando Santos. Mesmo que ainda sem trunfos como Jardel ou Sérgio Conceição, Robson montou uma máquina de ganhar. Se chamam a Fernando Santos o “engenheiro do penta”, deviam aclamar Robson como o “arquiteto do penta”. Foi ele que fez a planta do penta. Ironia das ironias, Bobby Robson celebra o primeiro dos títulos de campeão no estádio do Sporting, em 1995, derrotando Carlos Queiroz, o treinador que o substituira no clube leonino.


    A obstinação no andebol
    Foi uma longa luta de Pinto da Costa a de tentar reacender a chama do dragão no andebol, onde o FC Porto tinha tido um bom histórico até aos anos 60. Após vários investimentos e tentativas falhadas, que esbarraram em rivais mais fortes como o Benfica, o Sporting e o hegemónico ABC de Braga, Pinto da Costa pôde testemunhar o fim do longo jejum de 31 anos de títulos de campeão em 1999. Foi talvez a ocasião em que o dirigente mais se emocionou no antigo Pavilhão Américo de Sá, o maior pavilhão portista do século passado. 
    Esse título de 1999 foi um prenúncio de uma hegemonia no andebol sem precedentes no século XXI, que fez do FC Porto o clube com mais campeonatos ganhos, 24, tendo suplantado o Sporting, que tem agora 22. Esse renascimento de um dragão ainda mais forte contou com o regresso de uma das lendas da modalidade e do clube, o lateral Carlos Resende, que tornar-se-ia campeão de azul-e-branco dentro do retângulo e já fora dele, enquanto treinador, tendo iniciado nessa qualidade um histórico heptacampeonato entre 2008-09 e 2014-15, continuado por outros. Apesar da forte rivalidade com o Sporting, a vitória de campeonatos tornou-se quase um hábito para o FC Porto, tendo tido no seu planteis alguns dos maiores da modalidade em Portugal como o saudoso guarda-redes Alfredo Quintana, o lateral goleador Gilberto Duarte, o ponta António Areia ou o pivot Victor Iturriza.

    Estádio do Dragão
    Os feitos de Pinto da Costa não se resumem aos títulos dentro de campo. O dirigente também desenvolveu as instalações desportivas do clube. Nos anos 80, ampliou as bancadas do Estádio das Antas, com o rebaixamento do campo, aumentando a capacidade de lotação para 90 mil pessoas, tornando-o um dos maiores recintos da Europa.
    Mas o seu maior feito foi a construção do Estádio do Dragão, já neste século, a tempo do Euro 2004. A escolha do arquiteto Manuel Salgado é bastante feliz, autor daquele que é para muitos o mais bonito dos novos estádios dos três grandes, num padrão mais original mas também mais discreto, onde domina o azul. Nasceu também de uma planta de Manuel Salgado o projeto do Dragão Arena, o recinto multi-desportivo portista, inaugurado por Pinto da Costa em 2009. O Museu do FC Porto foi outro dos grandes atos do Presidente.
    Os críticos apontam, no entanto, como uma das fragilidades das últimas décadas o facto do clube não ter desenvolvido um centro de treinos com a qualidade das dos seus rivais em Lisboa, no Seixal e em Alcochete.

    José Mourinho
    Na época de 2001-02, o União Leiria fez uma primeira volta ao nível de um grande. O responsável chamava-se José Mourinho. Pinto da Costa conhecia-o bem dos anos de Bobby Robson nas Antas (entre 1994 e 1996), quando era seu adjunto e tradutor. Falhadas as negociações para o Benfica contratá-lo de volta, Pinto da Costa desceu até Leiria para ir buscá-lo, no rescaldo do despedimento de Octávio Machado, com quem as relações tinham azedado. 
    Com José Mourinho ao leme, o FC Porto ganha tudo o que havia para ganhar na época 2002-03: Campeonato Nacional (com 11 pontos mais que o Benfica), Taça de Portugal e a Taça UEFA, a primeira ganha por um clube português. O meio-campo foi um dos melhores de sempre que o FCP já teve: Costinha, Maniche e o todo-o-poderoso Deco, tão lutador quanto mágico. 
    Pinto da Costa fez o que parecia então impossível num mercado europeu já então muito agressivo: conseguiu segurar Deco por mais um ano no Dragão. E lançou a bicada telegráfica ao orgulhoso Mourinho: “é capaz de vencer a Liga dos Campões?”. Mourinho sentiu a bicada e mudou os planos, atrasando a sonhada ida para outro campeonato mais competitivo e mantendo-se como técnico principal dos dragões na época 2003-04, a tal em que o FC Porto venceu a Liga dos Campões, numa campanha triunfal que terminou com a vitória categórica sobre o Monaco por 3-0 em Gelsenkirchen. Mourinho conseguiu vencer a final com nove portugueses do 11 inicial, dando-se ao luxo de guardar o melhor marcador do campeonato nacional no banco, o ponta-de-lança sul-africano Benny McCarthy. 


    André Villas-Boas
    A intuição de Pinto da Costa voltou a vingar, quando apostou num jovem de 33 anos para treinador principal do FC Porto. André Villas-Boas tinha algum passado enquanto observador da equipa técnica de Mourinho, mas muito reduzido enquanto técnico principal (menos de um ano na Académica). A época de 2010-11 tornar-se única por todas razões. Foi a única que teve Villas-Boas como treinador portista. E foi única porque foi a mais próxima da perfeição. Os azuis-e-brancos fazem o melhor campeonato nacional de sempre do clube – 84 pontos em 90 possíveis e nenhuma derrota. Vencem a Liga Europa tranquilamente – 12 vitórias em 15 possíveis. E ainda recheiam o museu com a Supertaça e a Taça de Portugal. Só faltou mesmo a Taça da Liga. Nunca Villas-Boas se aproximaria deste nível esmagador de glória na sua carreira, nem o próprio FC Porto depois de 2011.
    Generalizou-se nesta altura o rótulo dado ao Estádio da Luz como o “salão de festas” dos dragões. Foi no recinto benfiquista que se deu o apagão e se ligou o sistema de rega durante a comemoração de mais um título de campeões para o FC Porto.
    Mérito também para Pinto da Costa em relação ao plantel de 2010-11 com que trabalhou Villas-Boas. Basta lembrarmo-nos da dupla de avançados: Falcao e Hulk. Ou do meio-campo: Fernando, João Moutinho, Guarín ou James Rodríguez.  
    Em 2011, no meio da glória azul-e-branca, era impossível prever que André Villas-Boas iria suceder a Pinto da Costa em 2024, com uma vitória eleitoral contundente. 

    Sérgio Conceição
    Nunca na era de Pinto de Costa houve um treinador tão duradoiro como Sérgio Conceição: sete anos seguidos, entre 2017 e 2024, precisamente os últimos sete da sua presidência. Antigo símbolo do balneário portista, o treinador Sérgio Conceição passou a garra do clube para os seus jogadores. Apesar das oscilações e da instabilidade emocional, Sérgio Conceição deu mais 11 títulos ao FC Porto, entre os quais três ligas, o recorde clubístico de três Taças de Portugal seguidas e uma Taça da Liga – competição que o emblema nunca tinha vencido. A competitividade da equipa e o magnetismo de Conceição pela vitória não camuflaram totalmente a decadência do clube, com plantéis cada vez mais depauperados. Ainda assim, as equipas portistas treinadas por Sérgio Conceição mantiveram o jeito para os grandes jogos, em especial contra o Benfica. O drama das águias de sofrer golos decisivos nos minutos complementares que valeram títulos de campeão ao FCP manteve-se com Sérgio Conceição. O efeito Kelvin (ocorrido com Vítor Pereira) repetiu-se sob os comandos de Conceição, com o golo de Herrera em 2018 ou o golo do improvável Zaidu em 2022, que deixaram o Estádio da Luz a gelar, o tal “salão de festas” dos dragões, semeado pela mística de Pinto da Costa e de José Maria Pedroto.