Carolina de Deus sobre o novo single: "fala de um tema sensível mas é uma canção de esperança"
Entrevista à cantora e compositora que se juntou a Ricardo Liz Almeida (Os Quatro e Meia) para ajudar quem sofre com questões relacionadas com a saúde mental.
Carolina de Deus já partilhou mais uma canção do segundo álbum da discografia que assina e o sucessor de "Dores de Crescimento", o disco de estreia que editou em 2023.
'Três e Meia' - assim se chama o novo single - conta com a participação de Ricardo Liz Almeida (Os Quatro e Meia) e já está disponível nas plataformas digitais.
A canção, produzida por João André, aborda questões relacionadas com a saúde mental e chega para ajudar quem precisa de a escutar. A realização do videoclipe ficou nas mãos de André Tentúgal.
A 3 de fevereiro, Carolina de Deus atua no Teatro Armando Cortez (Casa do Artista), em Lisboa, e a 7 de março a cantora e compositora leva as suas canções ao Fórum Municipal Luísa Todi, em Setúbal.
O que é que te levou a compor esta canção?
Eu própria, por vezes, também vou-me abaixo. E lembro-me que no início sentia um grande desespero nesses momentos. Sentia desespero e culpa por não estar bem. Às vezes, até sentia que podia estar a dramatizar mas não conseguia sair daquele estado. Acho que compus a canção para que as pessoas não se sintam sozinhas nem culpadas quando passam por esses momentos. É algo que pode acontecer a qualquer um.
É um assunto muito importante. Esta canção é um desabafo muito honesto. Quando estavas a compor tinhas noção de como poderias ajudar os outros? Era esse o meu grande objetivo. Acho que a letra ajuda nesse sentido. Fala da sensação de estarmos sozinhos e retrata essa experiência. Mas também acaba por ser uma validação do desequilíbrio que sentimos entre a necessidade de querermos ter tudo organizado ou a funcionar e a incapacidade de conseguirmos fazer com que isso aconteça. A canção parte desse princípio. Podemos não conseguir sair da cama, mas está tudo bem. Vamos conseguir sair desse ciclo. E quando conseguimos saímos mais fortes.
Costumas falar de questões relacionadas com a saúde mental com quem te rodeia, com os teus amigos?
Sim. E sei que há muita gente que passa por isto em silêncio. Só me contam porque sabem que já passei por isso. E, atenção, há dias em que ainda sinto que estou a passar por essa situação mas, na verdade, não estou. São apenas dias em que não me sinto capaz. Agora sei que aquilo que sinto nesses dias vai passar. Tenho mais paciência. Essa consciência ajuda-me a ultrapassar esses momentos e a voltar a sentir-me bem. Acho que as pessoas sentem que podem falar comigo sobre esses assuntos porque sabem que as percebo. Mas muitas escondem. Há uma máscara social porque ainda existe vergonha. As pessoas sentem vergonha por não estarem bem. Temos de falar mais sobre estas questões.
É um desabafo muito honesto que para mim também é um sinal de força e coragem. Quando estavas a compor o tema não sentiste a “vertigem” de estares a partilhar um desabafo tão pessoal com tanta gente?
Eu costumo pensar muito nas coisas que escrevo. Penso, aponto as ideias e depois construo as músicas. Mas neste caso a canção saiu de forma imediata, o que acabou por ser interessante. Quando a terminei até achei que não ia ficar muito boa. Mas quando a toquei pela primeira vez até me emocionei. Afinal de contas, estava a escrever sobre um lugar onde já tinha estado. Estava a escrever já fora da situação mas com a consciência que há muita gente que se pode identificar.
E sentiste esse feedback?
Sim, sim. Tenho recebido muitas mensagens com partilhas muito pessoais. Há pessoas que me agradecem por não se sentirem tão sozinhas e por terem mais coragem para falar sobre o que estão a sentir. Nos concertos é uma das músicas que provoca mais reações no público, seja através de mensagens ou quando estou a dar autógrafos. As pessoas acabam por partilhar as suas experiências e até relatam experiências de pessoas que lhes são próximas. Algumas até citam partes da letra e encontram paralelismos com aquilo que sentiram.
Quão gratificante é ouvir isso?
É mil por cento gratificante.
Há uma parte na letra em que cantas, "fazer e ler todas as lições de quem é feliz". Isto tem a ver com a avalancha de positividade (por vezes tóxica) que nos é oferecida todos os dias nas redes sociais, por exemplo?
Sem dúvida. Eu acho que esses métodos funcionam, mas funcionam de forma diferente para cada pessoa. Muitas vezes caímos na armadilha de achar que é a solução mas, quando não resulta, acabamos por ficar ainda mais frustrados. Isso aumenta a sensação de culpa. É importante termos noção disso. Não há soluções milagrosas. Sei também que a solução parte sempre de nós. Há métodos que ajudam, claro, mas a resposta está em nós. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Acho importante termos noção disso. Somos todos diferentes.
Aceitar o caos e depois dar um passo de cada vez...
Exatamente. E ter paciência. Porque nós somos os nossos maiores inimigos. Somos muito impacientes connosco próprios. Isso deita-nos ainda mais abaixo.
E achas que a forma como funcionamos enquanto sociedade pode contribuir ainda mais para agravar este tipo de problemas?
Acho que as pessoas estão mais propícias a sentirem-se inseguras e desmotivadas. Estamos na era das redes sociais e da tecnologia. Estamos sempre em contacto com a vida dos outros e constantemente a compararmo-nos. Eu revejo-me nisso e sei o efeito que tem em mim. Se me sentir mais insegura só por estar a comparar-me com alguém, é meio caminho andado para que o resto também não corra bem. Temos de confiar em nós. Temos de descobrir quem somos sem os outros. As redes sociais interferem nessa descoberta. As pessoas caem na tentação de achar que são menos que os outros, quando não são.
E como é que fazes isso? Além da autodescoberta, há o processo de construção ou reconstrução da autoestima. Pode ser um processo difícil...
E é. É muito difícil. Eu sinto e penso muito. E pensar muito nem sempre é bom. Quando me vou abaixo tento perceber o que é que não está bem. Tento perceber se é um fator externo, se é falta de confiança em mim ou se é um problema familiar, por exemplo. E depois junto as peças do puzzle e tento aplicar as minhas conclusões à prática. Mas isso é muito difícil. A prática é completamente diferente da teoria.
Pode soar a cliché, mas se calhar é mesmo dar um passo de cada vez e valorizar as pequenas conquistas diárias...
É isso. É valorizar cada vitória. Mesmo que sejam pequenas vitórias. Cada vitória dá-nos a sensação de organização e de confiança. Quando não estou bem tenho tendência a isolar-me. Mas tento arranjar coisas para fazer. Falo de coisas que não sejam muito difíceis, e que eu consiga levar até ao fim, como limpar a casa. É uma vitória "pequenina" mas ajuda-me. Nessas alturas penso, "ao menos, consegui fazer isto. Está tudo bem. Amanhã é um novo dia". São conquistas que me dão mais estabilidade. É um passo de cada vez. Temos de perceber o que é que nos faz bem e quem é que nos faz bem. Temos de procurar pessoas com as quais podemos ser nós próprios sem um "mas". E temos de estar em ambientes seguros e que nos fazem sentir bem.
E dás voz a esta canção com o Ricardo Liz Almeida (Os Quatro e Meia). Quiseste partilhar esta canção com outra voz? Porquê?
Estive quase dois anos a trabalhar esta canção. E queria que a canção entrasse no meu segundo álbum. Mas, no início, eu e o João André, que é o meu produtor, sentíamos que o tema ainda estava muito "para baixo". É certo que a canção fala de um tema sensível, mas nós queríamos que as pessoas sentissem esperança quando a ouvem. Não queríamos que ficassem pior. Queríamos que ficassem com a sensação que vai correr tudo bem. Foi por isso que quisemos dar mais força ao tema. E depois, para universalizar ainda mais a mensagem, pensámos que seria bom escolher um homem para o dueto. Pensámos no Ricardo Liz praticamente ao mesmo tempo.
E é simbólico. Apesar de falares de solidão, não estás sozinha no que sentes...
Exatamente.
E como foi transportar a mensagem da canção para o videoclipe [realizado por André Tentugal]?
O vídeo é um pouco abstrato. Pode ter muitas interpretações, mas a que faz mais sentido para mim é a interpretação de que o encarnado significa o “intruso”. Significa tristeza, ansiedade, desmotivação. E depois criámos vários cenários que simbolizassem a sensação de estarmos encurralados por algo que não faz parte de nós. Afeta-nos mas não nos pertence. O fio simboliza a nossa tentativa de sair desse lugar. Há uma parte em que o Ricardo está numa zona branca, a pintar o chão com tinta encarnada. Isso significa que o encarnado está a invadir o espaço do Ricardo. O que queremos dizer é que o “intruso” existe mas não é nosso. Pode ir embora. Por isso, é que respiro no final. Sentimo-nos encurralados, mas há uma forma de sair.
E o que é que podes contar sobre o teu segundo álbum?
É muito diferente do primeiro mas acho que é melhor. Digo isto porque acho que representa melhor quem eu sou hoje em dia. Estamos sempre a evoluir. Tenho três músicas que falam sobre saúde mental. Duas já estão cá fora, o Três e Meia e o Modo Auto-Piloto, e depois há uma outra que vai sair juntamente com o disco. Acho que o álbum também acaba por ser uma representação da mulher empoderada. É um disco que mostra várias facetas. Vai das questões de saúde mental ao heartbreak (coração partido).
