Gisela João: o grito contra a dormência
Entrevista à fadista minhota a propósito do seu álbum abrilista "Inquieta".
Gisela João quer levar o público a passear com ela pelo nosso jardim cancioneiro que tanto colora na Primavera da Liberdade, através do seu álbum de versões “Inquieta”.
A fadista minhota quis aproveitar o seu trabalho no espetáculo ao vivo “Gisela Canta Abril” que levou aos palcos do país para celebrar os 50 anos do 25 Abril, em que cantou músicas de José Afonso, Fausto, Vitorino, José Mário Branco, Paulo de Carvalho, Sérgio Godinho, Fernando Lopes-Graça e o ‘Abandono’ (‘Fado de Peniche’) abrasado bravamente por Amália Rodrigues.
Gisela João não se limitou a transpor as canções do espetáculo para o novo álbum. Reformulou-as e condensou-as em dez faixas. Mudou-lhes a vestimenta instrumental, revirou-as e deu-se tanto a elas, dando-nos muito.
Gisela João revê-se tanto na canção de José Mário Branco, ‘Inquietação’, que a elevou para o título “Inquieta”. Tal como nessa versão, fez do seu “peito campo de batalha” e espalhou “flores aos milhões entre ruínas”. Como uma mulher que distribui aos outros os cravos que tem nas celebrações do 25 de Abril, Gisela João pega no “testemunho” das mensagens de José Afonso e companhia, tal como afirma nesta entrevista feita por Zoom, e reaviva-as, para que o ar continue respirável para todos.
Seis das dez canções são de José Afonso. O Zeca Afonso ganha mais peso no teu novo álbum do que propriamente no teu espetáculo do 25 de Abril que apresentaste no ano passado. Porquê?
É quase como se fosse uma homenagem a ele também. Eu estou colada ao trabalho dele. O Zeca Afonso, para mim, é genial: a voz, a escrita, a composição, a mensagem. A simplicidade acima de tudo que é tocante. O que me apaixona definitivamente no Zeca Afonso é a ideia e a sensação de uma simplicidade, de uma quase fragilidade até na voz quando se ouve e se percebe a força que aquilo tem. É muito emocionante para mim.
Tu adotas neste disco mais uma postura de cantora do que de fadista?
Tudo o que faço é sempre fado. O fado é muito mais do que os trejeitos a cantar ou o abanar dos ombros, ou sei lá o que se possa imaginar. Acho que o fado é muito mais um modo de vida, um modo de sentir, um modo de deixar que a vida do outro nos toque. Acho que o fado é muito mais isso do que o cantar à fadista. Na verdade, aquilo que acho que normalmente é o cantar à fadista, detesto.
É necessário cantar de alma aberta o que só se podia dizer em surdina: “o pintor morreu”, em ‘A Morte Saiu à Rua’?
É muito necessário. Não vou dizer “mais do que nunca”, porque cada época, seus tormentos, não é? Este momento é de facto, sem dúvida alguma, o mais complicado e mais estranho que eu já vi do mundo à minha volta. Gosto de escrever o poema e depois gosto de escrever aquilo que eu imagino para o arranjo, que é para depois dizer aos músicos o que é que eu ouço ali, o que é que eu imagino ali, quais são as imagens que eu vejo. E essa música, por exemplo, fez-me pensar que naquela altura havia a ditadura, havia a PIDE, as pessoas não podiam falar livremente e eu imaginei quase como se fosse aquele puto ardina a vender jornais e a passar mensagens. "O pintor morreu" [dito em murmúrio]. De facto, era assim que as pessoas comunicavam. A morte sai à rua todos os dias, todos os dias morre alguém, todos os dias nasce alguém. Naquela altura, a informação de que alguém tinha morrido era passada em surdina, até que muita gente começasse a ouvir e se começasse a falar alto. Hoje em dia, já não se dá a notícia em surdina. Está em todo o lado. Ligas a televisão e está em todo o lado. Está nos jornais, nas revistas, em todo o lado. No entanto, a sensação que eu tenho é que se tornou tão banal esse tipo de notícias que é quase como se fosse em surdina na mesma. À época não havia esse tipo de imagens. Tens imagens hoje em dia de um monte de pessoas mortas, caídas, no meio de guerras absurdas. As pessoas, de certa forma, parece que ficaram dormentes. Quando eu estava a fazer o alinhamento para os concertos de comemoração dos 50 anos [do 25 de Abril], eu estava a fazer um intervalo para almoçar e a ver as notícias e depois quando voltava para este poema para o trabalhar, é quase como se aquelas pessoas e aquelas notícias estivessem também em desespero à espera que alguém as ouvisse, que nós as ouvíssemos. Só que passou tudo a ser tão natural. A notícia de um assassinato, ou alguém que entrou numa escola e matou não sei quantas pessoas, não tem o mesmo impacto que tinha há uns anos atrás. Não é igual. E essa dormência com que nós ficamos... não quero dizer insensíveis, mas dormentes, porque é isso que às vezes dá inércia. ‘A Morte Saiu à Rua’ tem essa força, o grito está lá contido. Mas de repente, não dá para conter mais. O povo “é quem mais ordena”, de facto. Mas o povo também se esquece muito rapidamente disso, porque é muito fácil assustá-los, é muito fácil. E ‘A Morte Saiu à Rua’ tem essa força de mostrar que vamos todos gritar juntos e que isto vai mudar. Eu gosto de acreditar que é possível.
Procuras neste disco ser a estrela que rende a estrela d’alva pequenina, como em ‘Canção de Embalar’? Sinto que és essa estrela em todo o disco.
Ah, isso é muito bonito, a imagem é muito bonita. Gosto muito dessa comparação e vou-me deixar ficar aí porque vou aceitar esse lugar que acho que é muito lisonjeiro.
Já há muito tempo que cantas Que o Amor Não Me Engana. O que é que te faz cantar tanto este tema? E o que é que achas que o Zeca quereria dizer com esta letra?
Eu não tenho uma explicação para te dar porque é que eu gosto tanto desta música. Não sei dizer se é pelo poema, se é pela melodia, sei que eu amo esta música de paixão desde muito pequenina. E é isso que me dá também muito gozo na arte e tenho a sorte de ter esta profissão, que é este mistério que a arte tem. Gosta-se só porque sim.
O que é que eu acho que ele queria dizer? Honestamente, acho que um artista não está interessado em que lhe perguntem o que é que ele acha, o que é que ele queria dizer? Quando leio muitas vezes o poema, não posso dizer o que acho o que ele queria dizer. Aquilo que eu encontro aqui no poema é um amor que acabou, a que se entregou, que está numa passagem de memórias, mas de repente fala das rosas ou da flor que nasce de novo e isso leva-me a uma analogia que é esta pessoa que estava a sofrer, estava a lembrar uma história, mas vinha aí uma história de amor maior, que é uma história de amor de todos, que é: vai cair a ditadura e vêm aí as flores, que me faz pensar que são os cravos. É uma passagem de testemunho de amor. Onde é que eu vou colocar o meu amor? É uma questão que eu tenho muitas vezes na minha vida. Para onde é que vai o amor quando acaba uma relação, ou quando acaba uma relação de amizade? O que é que se faz com aquele amor? E acho que esta música é um amor que é transferido para o amor com o país, com a liberdade, com o amor pelos outros.
Tal como a Capicua, também adotaste o género feminino na versão do Sérgio Godinho, ‘Que Força É Essa, Amiga’. Tu pensas em figuras da tua família quando cantas esta música?
Ah, penso. Penso em todas as mulheres da minha família e não só. Penso em amigas minhas. Penso em vizinhas de quem eu me lembro quando era criança, vizinhas de casa dos meus pais. Lembro-me de vizinhas minhas, já da minha idade adulta, de amigas que andaram comigo na escola, de senhoras que eu nem conheço, mas conheço de vista da rua, que vivem no meu bairro. E é impressionante que são tantos os exemplos na minha vida e à minha volta de mulheres que quando eu canto a música, vêm-me à cabeça mulheres diferentes.
A igualdade é um dos valores de Abril.
Parece que estamos a ir para trás, confesso. É aquilo que eu sinto mesmo. Há muitos países no mundo de onde estas notícias surgem, sobre aquelas mulheres que não podem cantar, não podem falar umas com as outras. Qualquer dia, não podem cortar as unhas dos pés.
Tu tens sempre a perspetiva de revirar completamente os temas, dar ali uma grande volta às músicas e um desses exemplos é o ‘Depois do Adeus’. Para ti, para ser uma versão, tem que ser especial, não é?
É pá, sim. Não consigo aceitar de outra forma. Ou é ou não é. São feitas à medida. E são novas, é a primeira vez. Portanto, aquele corpo que lhe foi dado é aquele corpo que aquela peça tem. Se eu vou cantar uma música que já existe, que não me foi oferecida, que não é minha, é para eu ter de fazer alguma coisa que valha a pena, se não não me interessa.
‘Depois do Adeus’ é um ótimo exemplo, porque eu sabia o que eu queria ouvir das outras, eu sabia o espaço que eu tinha nas outras. E embora eu ache que as músicas do Zeca Afonso já estavam perfeitas, eu conseguia encontrar-lhes outras histórias dentro delas. ‘Depois do Adeus’ para mim, era aquela história de amor que o Paulo Carvalho cantava. Uma história de amor, que foi épica. E estava ótimo. Mas, de repente, eu percebi que essa música falava-me de outra forma agora. Falava-me da relação de amor que eu tenho comigo própria. Comigo. Que que nós temos connosco. Da necessidade que eu tinha, mas eu não percebia que tinha. Até ali, eu não percebia que tinha uma necessidade muito urgente de fazer um ponto de situação de quem é que eu sou, onde é que eu estou, para onde é que eu vou. Este tema é um cantar da minha liberdade também.
Outra música que tem uma abordagem bastante diferente é o ‘Acordai’ do Fernando Lopes Graça. Habituámos àquele crescendo polifónico. Mas tu optas por uma contenção. Porquê?
Olha, porque eu acho que nós andamos todos a dormir. Pus-me a pensar naquela questão do REM [ciclos de movimentos oculares rápidos durante o sono] e dos diferentes modos de acordar, diferentes zonas de sono mais profundas. E estava a pensar também na relação com essa dormência de que falava há pouco. Sinto que tudo é tão rápido que vamos para a cama dormentes, acordarmos dormentes, vivemos dormentes. Acontecem a toda a gente aqueles dias em que acordas sobressaltado e não consegues ter um discernimento certo, não é? Sais de casa a correr e esqueces-te de alguma coisa. É transversal, acho que isto acontece a toda a gente. Então pus-me a pensar que me apetecia acordar aqueles versos devagarinho. É como se estivesse a falar com o subconsciente da pessoa que ainda está meio a dormir, no sono leve. Mas também me disseram que às vezes as informações que se dão ao cérebro, enquanto se está nesse estado, ficam mais bem guardadas. Então eu estava a pensar nisso de estar a passar a mensagem devagarinho. Usamos uns efeitos nas vozes para remeter para aquele lugar do sonho. Mas quando acordas, já estás preparada para estar consciente.
A ‘Balada do Outono’ provocou um estremecimento no Coliseu dos Recreios, quando o Zeca cantou com a voz embargada o verso ‘Que eu não volto a cantar’. Vês a ‘Balada do Outono’ como uma canção de despedida? O que vês na Balada de Outono?
É impressionante pensar que ele cantava essa música quando era novo. Essa música, para além de ter o lado de despedida, tem também o lado de aceitação, de reflexão, de encontro contigo, de perceber o que é que te basta, o que é que te é suficiente. Porque sim, de facto, se eu parar de cantar, o mundo continua a acontecer, as ribeiras continuam a correr para o mar, o mundo não pára se eu parar de cantar. Ou seja, se eu parar de cantar, já que o mundo não pára, quer dizer que eu tenho milhares possibilidades de outras coisas para fazer.
Tens medo de não voltar a cantar?
Já tive mais, confesso. Eu nunca vou deixar de cantar. Eu vou cantar sempre na minha cozinha. Mas é diferente. Se eu estiver a cantar na minha cozinha, ou na minha sala, quem me vai ouvir são os meus vizinhos e as pessoas que estão comigo em casa. Agora deixar de cantar para o público dar-me-ia muita pena, porque há uma energia que se troca e qualquer coisa que acontece e também o facto de poder dar poesia às pessoas e cantar, é tudo muito mágico. Mas há outras coisas que eu gosto, que me fazem muito feliz também, que me preenchem muito.
Reveste-te na crítica à cobardia das gentes em ‘Vejam Bem’, feita pelo Zeca Afonso. Ninguém vai acudir àquela pessoa pobre de “fraca figura”. O Zeca Afonso pede “uma praça de gente madura”. Tu sentes essa cobardia também?
Sinto-a muito, mas eu acho que há uma coisa ainda mais interessante nessa música, que é logo a primeira frase: “vejam bem que não há só gaivotas em terra quando o homem se põe a pensar”. Faz-me muito pensar nesta questão de que há muito mais para lá do que o que está no teu umbigo. Há muito mais para lá do que aquilo que os teus olhos conseguem alcançar. Essa frase é mesmo muito importante porque eu consigo aplicá-la em tudo que eu faço na vida. Lá está, o lugar do outro. O outro, às vezes, tu nem o vês, mas sabes que ele existe e se pensares nele como uma pessoa, que tem sentimentos, que tem emoções, que tem dores, que tem amores, muda a tua visão do mundo, a tua postura, as tuas atitudes, as tuas escolhas. Essa noção de existência como uma migalhinha pequenina de um bolo inteiro faz muita diferença. Não ter essa noção leva a essa covardia de querer tomar conta apenas do seu quintal, enquanto vê o outro quintal do lado a pegar fogo: “não me vou meter porque tenho é que tomar conta do que é meu”.
Essa música é um empurrão não só para o altruísmo, como também para o questionamento. Aquela pessoa que está ali sozinha, se calhar está a lutar contra uma ditadura e não apenas contra a sua própria pobreza.
Exatamente! Não é só por ela, não é? Exatamente. Então porque é que te vais calar e ficar só como espectador? Exatamente.
Porque deixaste de fora o ‘Abandono’, eternizado pela Amália, e que cantavas no teu espetáculo de tributo ao 25 de Abril?
Adoro essa música. Canto-a em boa verdade desde a minha adolescência. É daqueles fados que eu canto há muitos anos e depois, em boa verdade, quando vim para Lisboa foi quando parei de o cantar, porque havia sempre alguém que o cantava onde eu estava. Acho que foi isso. Tenho a sensação que há tanta gente que canta, que eu tinha outras músicas para cantar que estavam mais silenciadas.
Tu imaginas-te um dia a cantar sobre o tapete instrumental do Carlos Paredes, criando versos que não existiam?
Quando nós estamos a apanhar seca e a fazer teste de som [com a sua outra formação], ou quando acontece algum problema técnico e temos que esperar, um dos meus passatempos favoritos é pedir aos meus músicos para tocarem “aquela”, eu às vezes nem sei os nomes delas, porque eles já sabem qual é. Aquela que eu gosto muito, a minha favorita, aquela que me faz dançar, é do Carlos Paredes. Eles tocam para mim. E muitas vezes eu improviso ali por cima. Isso é maravilhoso. Esse era outro monstro.
