Xutos: X atos exatos na MEO Arena
45 anos passados em 145 minutos. Rezou-se a 'Avé Maria' e tocou-se no céu várias vezes.
O leal público dos Xutos, de várias gerações X (da X à alfa), acorreu em massa e preencheu a MEO Arena na sua máxima lotação, para o espetáculo “Olá, Vida Malvada” que celebra os 45 anos da banda rock mais popular de Portugal.
Tim e João Cabeleira vestiam coletes de couro, como se fossem as suas fardas dos Xutos. Há neles um toque paradoxal de western urbano: Tim não larga o lenço ao pescoço; João Cabeleira não prescinde do seu chapéu de cowboy.
A cor preta domina, sobretudo na indumentária de Gui, com o rosto de Zé Pedro estampado na sua t-shirt. Um emblema azul do FC Porto sinaliza o kit de bateria do Douro Boy, Kalú, com uma camisa sem alças e sempre bem-disposto. Ao seu lado naqueles palanques, está o quinto membro, o guitarrista de apoio Tiago Ferreira.
O símbolo do X luminoso em grande escala suspende-se alguns metros acima da banda. Os Xutos abrem com o tema que dá título ao espetáculo, ‘Vida Malvada’. Tim era só um dos milhares de cantores na MEO Arena, subitamente pequeno perante a dimensão do que o rodeia.
Os Xutos entram depois numa longa sucessão de temas das fases mais recentes. ‘Quem É Quem’, por exemplo, tem a pertinência que aconselha o público a ouvir mais do que a participar. O lume está brando, mas a chama está lá, jamais apagada, com o público bem desperto.
Mas em ‘Jogo do Empurra’, alguns espectadores aquecem as vozes, as filas da frente agitam-se e os Xutos voltam a ter um coro do outro lado do fosso, que não querem que cesse porque o tema seguinte é o ‘Fim do Mês’, um composto de expressões populares sobre o trabalhador enrascado, enquanto que Kalu estica a sua voz rouca o mais que pode, e não só a carteira. ‘Negras como a Noite’ abana com o alto mar agreste, nas imagens que são projetadas nas telas verticais atrás da banda.
Naquele que é o tema mais popular dos Xutos dos anos 90, ‘Chuva Dissolvente’, João Cabeleira faz mais um jogo de dedilhados engenhoso na guitarra elétrica, enquanto Gui se mantém discreto nos teclados.
“Vamos tocar até doer, vamos ver se vocês aguentam”, avisa Tim, que apresenta ‘Mar de Outono’ como o último tema gravado por Zé Pedro. Claro que ao falar de Zé Pedro, irrompe uma ovação longa e comovida ao fundador dos Xutos.
Já com quase uma hora de espetáculo, os Xutos & Pontapés começam a tirar da arca o seu material mais precioso, como ‘Conta-me Histórias’. No clímax da canção, João Cabeleira encosta a cabeça no ar e fecha os olhos enquanto os seus dedos não param de laborar. Vira-se mais uma página dourada, e ouvem-se os ‘Gritos Mudos’, antes do ciclo de alegria mais exuberante, como ‘Mergulho’ e os ai ais como ‘Ai Se Ele Cai’ e o “aí a minha vida” vociferado por Kalú do popular ‘Dia de S. Receber’, a merecer uma chuva de papelinhos e um pequeno show pirotécnico
Entramos na fase do álbum “88”, com ‘Para Ti Maria’ e ‘À Minha Maneira’ a exaltarem o mais expansivo e o melhor de cada um dos presentes na MEO Arena. A participação é de tal forma eufórica que Tim faz uma vénia àquele júbilo coletivo de milhares de vozes: “é sempre memorável o que vocês nos oferecem”. Gui tem uma relação intermitente com a discrição. Mas quando sai dela, é para dar a sua assinatura bem demarcada no sax, como acontece em ‘Circo de Feras’.
De repente, no momento das apresentações, surge Zé Pedro nas telas a discursar de forma sentida e a cantar ‘Submissão’, o tema mais punk dos Xutos & Pontapés. Depois deste toque celeste, os Xutos terráqueos é lá que voltam quando tocam ‘Não Sou o Único’. ‘Contentores’ é um tema tão especial e sagrado que exige a João Cabeleira algum tempo na afinação da guitarra, para ficar com aquele som artilhado.
O solene solo de bateria de Kalú prenuncia ‘Remar Remar’, uma canção que é um mundo. Gui pega no microfone com vigor, Tim vê algo mais ao fundo que vai para lá da MEO Arena, com tantas lutas para trás. A melancolia bate forte, mas Remar Remar é uma ode à vida. ‘Sémen’ tem praticamente a idade dos Xutos e é a canção que fecha o set antes dos encores
No primeiro encore, a MEO Arena parece um parque mariano, ou malvado, com a reza da ‘Avé Maria’, com o público a recitar o terço com os Xutos com uma entoação que falta às missas. A reza de tributo aos Xutos é como se a cruz entortasse na diagonal, formando o X. A cruz fica em chamas no tema ‘Pra Sempre’, antes de Tim fazer as dedadas no baixo da 'Minha Casinha' na intro. Chamas irrompem, fãs esbracejam como se quisessem tocar no céu e casais abraçam-se no “primeiro andar a contar do céu”.
Antes do encore final, Kalú atira prendas ao público, ele é o homem do alento, antes do ‘Homem do Leme’, tocado no formato mais acústico Kalú perfila-se de pé ao lado de Gui, a baquetear com as escovas um único tambor. Tim, de guitarra acústica, canta embalado pelo coro dos milhares de vozes, e Cabeleira tem um assomo de qualquer coisa de Carlos Paredes mas na guitarra elétrica. Ao fim de duas horas e vinte e cinco, está cantada a história dos Xutos.
























