Três anos da invasão da Ucrânia: o país está devastado e os custos humanos são imensuráveis

    Em entrevista, o Major-General Tiago Vasconcelos, especialista em assuntos estratégicos, faz uma análise ao impacto da invasão da Ucrânia, o papel dos Estados Unidos e da Europa no processo de paz e reflecte sobre o futuro da NATO.

    Três anos depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, que impacto teve no país? 

    Temos um país, a Ucrânia, bastante devastado. Mas ao mesmo tempo com um sentimento de nacionalidade muito mais forte do que aquele que teria quando a guerra começou. A própria guerra de resistência ao invasor russo poderá ter aumentado esse sentimento de nacionalidade, mas à custa de perdas enormes. São centenas de milhares de mortos, que existem de um lado e do outro. Tambem a Rússia regista grandes perdas. A economia rússia tem sido exposta aos efeitos das sanções que muitas vezes não são imediatamente visíveis, mas a longo prazo produzem os seus resultados. Está transformada numa economia de guerra, portanto tem alguma capacidade militar, mas à custa também de um enfraquecimento geral do país. 

    Em consequência desta invasão, tivemos também o alargamento da NATO a mais dois países, a Suécia e a Finlândia, que teoricamente tornariam a NATO mais forte, mas que hoje, com a inversão da política norte-americana, poderá ser o “canto do cisne” da NATO. 

    Temos também o modelo económico alemão que ficou de algum modo bastante abalado, porque dependia muito da energia barata que comprava a Rússia. Todos sabemos como o Nord Stream 2 foi sabotado e não chegou sequer a começar a bombar gás russo para a Alemanha. E é neste contexto que uma nova administração norte-americana revela uma verdadeira inversão estratégica, que não é surpreendente.Tem vindo a indignar, justificadamente, muitos europeus e provavelmente muitos americanos também, principalmente do Partido Democrático, mas alguns republicanos. 

    Talvez devamos pensar porque é que esta mudança na política norte-americana não é completamente surpreendente. Esta mudança da política americana não é surpreendente, desde logo porque o presidente Trump já tinha dito ao que vinha. E também é evidente que existe uma falta de empatia muito grande entre os presidentes norte-americano e ucraniano. Todos nos lembramos, quando bem que em plena campanha eleitoral, o presidente Zelensky foi visitar uma fábrica de munições à Pensilvânia, tendo sido acusado de estar veladamente a fazer campanha pela candidata do Partido Democrata, Kamala Harris. Era uma fábrica onde se constroem munições para apoiar o esforço de guerra, num swing state muito importante. Esta visita foi vista como hostil para a candidatura republicana. Mas eu acho que mais do que isso que há aqui é um problema de fundo, é uma alteração muito grande da política americana e que tem a ver com o liberalismo político e económico de matriz ocidental que ganhou bastante terreno depois do fim da Guerra Fria e que está a recuar. Há aquela visão um pouco simplista, mas muito subjetiva de um mundo dividido entre democracias e umas quantas autocracias contestatárias da ordem mundial. Essa visão fica em crise quando este liberalismo é desafiado no interior das próprias sociedades ocidentais, em particular, na mais importante e na mais poderosa de todas, que é os Estados Unidos. Ou seja, a vitória de Trump, que no primeiro mandato já tinha abanado um pouco, parece ter enterrado o consenso que existia na política externa dos Estados Unidos depois do fim da Guerra Fria sobre a promoção de uma ordem internacional liberal, aquilo que nós ouvíamos, uma ordem baseada em regras, ser a estratégia que serve melhor os interesses da NATO. Ao enterrar isto está também, de algum modo, a enterrar uma história de 75 ou 80 anos do mundo ocidental depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Claro que a administração Trump, tal como a administração Biden, tem o objetivo de manter a vantagem económica e tecnológica e as forças armadas mais poderosas do mundo. Portanto, isso é um objetivo que percorre qualquer administração e nós vimos que a administração Biden também não reverteu muitas das políticas que Trump tinha posto em prática no primeiro mandato. 

    A maneira de atingir esse objetivo é que é muito diferente contra a administração Biden e a administração de Trump. A administração de Trump não acredita na vantagem para os Estados Unidos de promover aquelas instituições do globalismo, e portanto, enquanto que a administração Biden desenhava o mundo e entendia o mundo como um conflito entre as democracias liberais e os seus aliados, por um lado, e umas autocracias revisionistas, por outro. O Trump parece ter uma visão diferente, parece estar mais preocupado em não lançar a Rússia de uma forma irreversível para os braços da China.  

    Depois destes três anos e depois da tomada de posse da nova administração americana vemos acontecer várias reuniões, quer na Europa, quer na Arábia Saudita, com a Rússia de um lado, os Estados Unidos de outro e a ausência da Ucrânia. O que é que nós podemos esperar agora? 

    Isto é apenas o início de um processo de uma grande alteração do quadro das circunstâncias envolventes. Há toda aqui uma movimentação que tem topo da administração americana uma pessoa com um comportamento tão imprevisível e que cultiva essa imprevisibilidade, porque isso faz parte da sua maneira de conduzir as negociações. Torna-se extremamente difícil anteciparmos quais serão os próximos passos. Mas sem dúvida que a tendência é para uma estabilização dos ganhos territoriais da Rússia na guerra, até agora. Qualquer que venha a ser o desfecho de tudo isto, essa consolidação dos ganhos territoriais da Rússia será uma realidade com a qual nós teremos que viver durante os próximos anos. 

    É normal a Ucrânia ser afastada deste processo?  

    Não, não, claro que não é normal. Em algum momento do processo, portanto, para já isto foi um sinal, claro, realmente, de alguma, enfim, de alguma, desta animosidade que a administração de Trump, ou pelo menos o presidente de Trump, tem para com o presidente Zelensky, portanto, claro que sim, é um sinal que indigna muita gente e de forma justificada. Mas, por outro lado, em termos técnicos, antes de sentarem todos à mesma mesa, têm que se falar primeiro com uma parte e depois com outra. 

    A NATO está a perder influência? 

    Os Estados Unidos estão a desvalorizar a NATO. Um dos resultados líquidos da política da nova administração americana é uma desvalorização da NATO. E portanto, desse ponto de vista, podemos dizer que sim, que a NATO pode estar a perder influência. O interessante é pensarmos se o eventual canto do cisne da NATO será o despertar de uma Europa mais geopolítica, como defendia a presidente da Comissão Europeia há cinco anos, no início do seu primeiro mandato. A NATO evoluiu muito ao longo dos 75, 76 anos, já são quase 76 anos, da sua existência. De alguma forma, a NATO que existia na Guerra Fria acabou com a queda do muro de Berlim. Depois, nos anos 90 do século XX, a crise dos Balcãs, o alargamento da NATO à Hungaria, à República Checa, à Polónia, que mantiveram a NATO viva nos anos 90 do século XX. Mas depois, logo a seguir, ao 11 de setembro, nós lembrámos-nos bem como os americanos acabaram de dizer aos seus aliados europeus que, ou se preparavam para operar longe do território de Anato, ou seja, no Afeganistão, ou então a NATO acabava. Havia uma expressão até em inglês por isso, que era out of area or out of business. E, por essa época, em 2003, lembramos quando foi a crise do Iraque também, como a Alemanha e a França alinharam com a Rússia, contra os Estados Unidos, etc. Depois, essa crise foi ultrapassada, a NATO alargou-se a mais 7 países do antigo Centro-Leste Europeu, em 2004, quando entraram os países Bálticos e mais uma série de outros países. E pronto, foi também, digamos, na sequência desse segundo alargamento que a dissolução do colapso da União Soviética tinha sido a maior catástrofe geopolítica do século XX, que começou a empreender alguma resistência a esta expansão do que eles chamavam de infraestruturas militares ocidentais, para junto das fronteiras russas. Em 2008, o Putin foi à cimeira da NATO, em Bucareste, dizer que a entrada da Geórgia e da Ucrânia  era uma linha vermelha, inultrapassável. 

    Houve sempre uma ambivalência... 

    Os Estados Unidos acusaram a Europa de não gastar o suficiente na sua defesa, mas a verdade é que sempre que os europeus procuravam esboçar um aumento da sua autonomia estratégica ou criar estruturas europeias de comando e controlo ou capacidades estratégicas, os Estados Unidos moviam também a sua influência para que a Europa não pudesse ter as capacidades que lhes permitissem rivalizar com a NATO. Portanto, há aqui alguma ambivalência. Depois, em 2014, com a anexação da Crimeia, houve uma certa resposta da NATO e criou-se um plano de ação bastante robusto, foram feitas realmente uma série de coisas, criadas uma série de novas estruturas. 

    Mas em 2018 o presidente Trump voltou a estilhaçar a NATO. Eu integrei a delegação portuguesa que esteve nessa Cimeira. 

    Só há duas coisas a ter em conta: a primeira é que o fim da NATO não implica necessariamente que os Estados Unidos se desinteressem completamente da Europa. Donald Trump está mais interessado na China, que é realmente o principal problema, a principal prioridade da política externa dos Estados Unidos. Os Estados Unidos têm cerca de 100 mil unidades estacionados na Europa, têm bases no território europeu que são importantes para a manutenção da superioridade militar americana no mundo. Portanto, eu não vejo que o fim da NATO seja o fim da influência dos Estados Unidos na Europa. 

    Em segundo o eventual fim da NATO pode ser o tal despertar político e estratégico da Europa, que se poderá constituir como um Estado soberano, politicamente independente, uma integração política plena da União Europeia. 

    E estamos a assistir a situações como o Reino Unido a estar disponível a enviar tropas para a Ucrânia ou outros países também já a manifestarem essa disponibilidade. Estamos perante a iminência de uma guerra mundial? 

    Penso que o objectivo não é aumentar o risco de uma terceira guerra mundial que envolvesse as superpotências nucleares. Mesmo esta disponibilidade manifestada pelo Primeiro-Ministro britânico para enviar tropas britânicas , ou a Força Expedicionária Conjunta, que é uma força internacional liderada pelo Reino Unido, mas que agrupa 10 países, não me leva a crer num escalar da violência. No entanto estamos agora dependentes do curso das negociações. 

    Entrevista ao Major-General Tiago Figueiredo, especialista em assuntos estratégicos