Três anos depois da invasão da Ucrânia "estamos mais perto de dividir o mundo em esferas de influência"
Diana Soller, especialista em relações internacionais, não acredita que a terceira Guerra Mundial esteja iminente, mas admite que, três anos depois da invasão da Ucrânia, "vivemos um momento crítico que pode levar a uma paz perigosa".
A 24 de fevereiro de 2022, a Rússia pôs em marca a invasão da Ucrânia, uma das maiores operações militares desde a segunda Grande Guerra Mundial. Três anos depois, e com as mais recentes movimentações norte-americanas e europeias dos últimos dia, estamos mais perto da terceira Guerra Mundial?
Não me parece que estejamos perto de uma guerra mundial, que é uma coisa que já não me parece há bastante tempo. Há um bocadinho esta ideia de que cada vez que o mundo se desequilibra, vamos a caminho de uma guerra mundial. Não me parece que seja esse o cenário que temos à nossa frente. Em relação à Ucrânia, o que me parece é que estamos num momento crítico, que pode levar a uma paz perigosa para a Ucrânia e para a Europa. Mas pelo menos neste momento os Estados Unidos parecem estar a fazer um conjunto de cedências à Rússia, mas tendo a certeza, porém de que este processo de negociações de paz vai levar ainda muito tempo. O que me parece que está a acontecer, e que não deixa de ser preocupante também, ainda que de outra maneira, é que os Estados Unidos, que têm sido a potência, que é o garante da estabilidade liberal, o garante das democracias, o garante de uma série de bens comuns internacionais que nós estamos habituados a usufruir. Com esta nova presidência está cada vez mais longe desse papel de criador da ordem e cada vez mais perto de uma tentação de dividir o mundo em esferas de influência no sentido precisamente de, talvez, evitar-se uma guerra mundial. No entanto, as más notícias é que isso, de alguma maneira, deixa a Europa e a Ucrânia isolada internacionalmente, do ponto de vista quer militar, quer ideológico e sem grandes capacidades para se defender num mundo em que há um conjunto de grandes potências que, por um lado competem entre si, mas por outro lado, tendencialmente, quererão ter esferas de influência. E não se percebe muito bem onde é que a Europa cabe em todo esse jogo estratégico que está agora a começar a emergir. Portanto, acho que o ónus da não guerra neste momento não se encontra nem na Europa, nem na Ucrânia. O que pode acontecer é que a Europa e a Ucrânia podem ser no futuro, enfim, muito mais frágeis e muito mais ameaçadas relativamente a intrusões internacionais do que eram antes.
Os Estados Unidos estão aqui a ter um papel muito ativo e a liderar várias reuniões em que a Ucrânia e a Europa são afastadas do processo de paz . É algo que nos pode preocupar?
No fundo, esta transformação pelo menos aparente, porque quer dizer o Donald Trump, há dois fatores que podem mudar isto. É no fundo uma certa imprevisibilidade do Donald Trump, por um lado, e por outro, sabermos que este é um processo de paz que vai levar meses, e em meses muita coisa pode mudar na política internacional. Se a tendência se mantiver, a Europa e a Ucrânia ficam isoladas ideologicamente enquanto democracias, enfim, mais ou menos liberais, mas ficam isoladas no mundo de grandes potências, em competição e, ao mesmo tempo, em convergência no sentido de limitação de esfera de influência. E o que pode acontecer precisamente, de meu ponto de vista, é que a Europa pode passar a ser objeto de esfera de influência em vez de sujeito de política internacional.
As críticas que Donald Trump fez a Zelensky e estas declarações e que fizeram com que a Ucrânia ficasse ainda mais ao lado do presidente Zelensky, poderá também influenciar o fulgor da guerra?
A guerra da Ucrânia vai voltar às manchetes dos jornais, porque voltámos a um processo de paz, ou começámos um processo que vai ter muitos altos e baixos, vai ter muitos avanços e recuo e, portanto, sim, evidentemente a Ucrânia vai voltar de alguma maneira ao nosso dia a dia, Não sei se vai reavivar alguma coisa, no sentido da manutenção da guerra e da abertura da hipótese da Ucrânia poder ter um papel de reconquista nesta guerra. Estamos é noutra fase em que a fragilização da Ucrânia e da Europa vão ser muito evidentes e muito dolorosos para todos nós.
