Ganso estreiam-se no Ageas Cooljazz a 26 de julho

    E levam o novo álbum, "Vice Versa", ao festival de Cascais. Entrevista com João Sala, Gonçalo Bicudo e Diogo Rodrigues.

    Os Ganso são João Sala, Gonçalo Bicudo, Diogo Rodrigues, Miguel Barreira e Luís Ricciardi.   

    Em atividade desde 2015, a banda de Lisboa anda por estes dias a promover "Vice Versa" - o terceiro álbum da discografia que assina.

    O novo álbum, editado em 2024 com o selo da editora de música independente Cuca Monga, sucede a "Não Tarda" (2019), a "Pá Pá Pá" (2017) e ao EP "Costela Ofendida" (2016).  

    Os Ganso estreiam-se no Ageas Cooljazz a 26 de julho - dia em que o Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, recebe os ingleses Tindersticks

    No cartaz do festival - que já está fechado - estão ainda nomes como Benjamin Clementine e Rita Vian (4 de julho) Seal e Margarida Campelo (12 de julho), Ezra Collective e Jordan Rakei (15 de julho), Gilsons e Jota.Pê (17 de julho), Slow J e Silly (23 de julho) e Masego e Amaura (31 de julho)

    O Ageas Cooljazz decorre de 4 a 31 de julho no Hipódromo Manuel Possolo e no Parque Marechal Carmona. Ao todo, o evento oferece quatro concertos em cada uma das sete noites de espetáculos. 

    Apanhando uma conversa em off sobre a distopia e o alcance da inteligência artificial, começámos a entrevista com o foco na aplicação das novas tecnologias na música e na criatividade. A conversa fluiu depois para o novo álbum (gravado num estúdio parisiense) e para o concerto que o grupo vai dar no festival de Cascais.  

    Entrevista aos Ganso


    Acham que o recurso à inteligência artificial pode chegar ao ponto de ameaçar a criatividade?

    Diogo Rodrigues: Honestamente, acho que não. Acho que todas essas novas tecnologias só servem para nos ajudar. Claro que há sempre um tempo de mudança que pode ser de difícil digestão. A possibilidade de poder tirar trabalho a muita gente pode ser preocupante. Essa é a parte complicada. Mas antigamente também havia pessoas que eram contratadas para serem alarmes. E hoje em dia isso é algo impensável. 

    Como assim?

    DR: Havia quem batesse nas janelas para acordar as pessoas a uma determinada hora. 

    Despertadores humanos?

    DR: Sim. Despertadores. Ou seja, eu acho que a inteligência artificial tem coisas menos boas, como obrigar-nos a redefinir alguns papéis na sociedade, mas na música é algo que nos ajuda. 

    Mas já há ferramentas que simulam a criatividade de artistas. Já brinquei com uma em que dava para simular a criação de uma letra de Nick Cave, por exemplo. João, como é que olhas para este tipo de utilização, uma vez que és o autor das letras?

    João Sala: Já usei a inteligência artificial para uma música mas não foi para imitar nenhum artista. Nem sabia que dava para fazer isso com o Nick Cave. Sabia que dava com o John Lennon. Acho que, para já, ainda se nota bastante a diferença entre uma letra escrita por inteligência artificial e uma escrita com a mão humana. Tendo em conta que é a inteligência artificial que nos imita, vamos estar sempre um passo à frente.  

    Gonçalo Bicudo: Por enquanto.       

    JS: Se calhar até vai chegar o dia em que vamos ser nós a imitar a inteligência artificial e com isso vai haver um novo estilo de escrita, uma nova tendência. Mas para já não me sinto ameaçado. É apenas uma ferramenta divertida ou efetivamente útil. 


    Decidiram gravar o "Vice Versa" em Paris, mais precisamente nos estúdios La Frette...

    JS: Sim. E estamos satisfeitos com o resultado. 

    Porquê Paris?

    GB: Falamos todos francês, à exceção do Diogo. E por isso o nosso produtor sugeriu irmos gravar a França. Achámos que podia ser uma experiência gira e começámos a procurar estúdios. Percebemos que havia por lá estúdios muito bons, com pessoas muito competentes a trabalhar. E decidimos mandar o barro à parede. Acabámos por ir parar ao La Frette, um estúdio onde já gravou o Nick Cave, por exemplo. Arranjámos forma de fazer com que a coisa funcionasse financeira e logisticamente.  


    E trabalharam com o produtor e engenheiro de som Anthony Cazade que também trabalhou, lá está, com o Nick Cave ou com os Arctic Monkeys. Como é que foi a experiência?


    GB: Foi incrível. 

    DR: Ele é um exemplo perfeito daquilo que deve ser um engenheiro de som. Esteve sempre "de mão dada" connosco. Sempre que lhe pedíamos alguma coisa, entregava o que lhe pedíamos em menos de um segundo. E tinha muitas ideias. Mais no que dizia respeito ao som não tanto em relação à composição.   

    GB: Sim. Até porque também chegámos ao estúdio com tudo muito alinhado. 

    JS: Como ele conhecia muito bem o estúdio e o equipamento sabia quais eram as melhores máquinas e instrumentos para aplicar às nossas ideias. 

    GB: Sim. Coisas que nem tínhamos pensado. 

    JS: Exato. Nós tínhamos uma ideia e ele dizia-nos o que podíamos usar para materializá-la. E acertava muitas vezes. Era este o trabalho dele. 

    E o álbum também tem o dedo do Domingos Coimbra (dos Capitão Fausto). Qual é que foi o contributo do Domingos? Sei que vocês funcionam como uma família... 

    GB: Sim, somos todos amigos. O Domingos foi uma peça muito importante para situações de desempate. Apesar de termos um processo de composição bastante oleado, precisamos sempre que alguém de fora nos diga: 'olha, isto está péssimo'. (risos) Precisamos de alguém que nos desafie. 

    JS: Eu acho que o Gonçalo não queria dizer a palavra péssimo. (risos)   

    GB: Sim, estou a exagerar…

    JS: Mas pensou. (risos)

    GB: Sim. O Domingos diz as coisas de uma forma muito politicamente correta. Faz sugestões. Prefere perguntar-nos: 'e se tocassem isto de determinada maneira?'.

    Sei que, por norma, vocês criam primeiro a música e só depois é que o João escreve as letras. Ainda é assim que trabalham?

    JS: Sim. É quase sempre assim. Deve haver uma ou duas exceções. Quando fazemos os instrumentais pensamos logo onde colocar o refrão, a voz. Antes de existir a voz já temos uma pré-estrutura. Por vezes, o que acontece é que quando já temos a letra podemos voltar atrás na estrutura. 

    Como é que é o teu processo de composição, João?

    JS: Solitário. (risos) Oiço muitas vezes a música, vou experimentando. Quando sinto que já tenho algo está bom mostro aos outros. É um processo solitário, mas passa pela aprovação de todos. Mesmo que eu goste, se eles não gostarem, eu mudo.    

    DR: A verdade é que tendemos a gostar das mesmas coisas. Mas já aconteceu. Aconteceu com uma parte da letra da 'Nem Sonhar', por exemplo.

    Inspiras-te em quê quando escreves? O que é que encontramos do teu mundo nas letras? 

    Eu diria que está quase tudo. Não sei. Talvez o que me inspira mais sejam as conversas que tenho com outras pessoas. As ideias não me surgem quando estou a comer um pão com queijo ou quando acordo a meio da noite em sobressalto, por exemplo. Muitas vezes, estou a conversar com alguém e tenho ideias para letras. Depois vou experimentando até conseguir encaixar as temáticas em letras. 

    Foi fácil encontrar um fio condutor para este disco? 

    GB: Sim. Foi o João que decidiu esse fio condutor. 

    JS: Estás a falar das letras?

    Sim, também...


    GB: Antes de começarmos a compor tínhamos uma lista grande de referências. E acabámos por ir buscar muitas coisas a essa lista. A instrumentação, um balanço de groove específico. E depois as letras colaram automaticamente. As letras dão a história ao álbum. Quando já tínhamos a história fomos ajustando o resto às temáticas líricas.   

    Há pouco, quando estávamos em off, estavam a falar da vibe distópica que vivemos. Puxando esse assunto para esta conversa e perante um mundo que parece estar cada vez mais estranho, qual é, para vocês, o papel da música neste enquadramento? Este tipo de assuntos inquieta-vos?

    JS: A música tem e terá sempre um papel importante nas mudanças sociais. É uma vertente da cultura, cujo impacto é diário e instantâneo. Talvez a nossa música não seja o melhor exemplo disso, mas há sempre maneiras diferentes de interpretá-la. Acho que a música que fazemos, mesmo que não seja ativamente interventiva, também pode ser interpretada de uma forma mais política, de crítica à sociedade.     

    E a música tem sempre o propósito de criar uma bolha de bem-estar nos concertos, por exemplo.

    JS: Exatamente. (risos) Somos entertainers

    GB: Uma coisa boa das letras do João é que têm emoções com as quais é muito fácil criar conexão. Embora, muitas vezes, as letras abordem assuntos mais relacionados com o nosso dia a dia, têm margem interpretativa suficiente para fazermos esse exercício.       

    DR: O tema 'Gino', por exemplo, é sobre a emancipação. 

    JS: Sim. 

    DR: É uma canção que pode ser interpretada de várias formas, por vários lados. A canção foi escrita com uma determinada perspetiva, mas não tem propriamente uma moral definida. É um tema sobre a emancipação no geral, o que dá para muitas leituras. Mas, por outro lado, também temos letras muito específicas em que já não dá para fazer isso. 

    E num mundo que parece cada vez mais desafiante, há muito caminho pela frente...

    Ganso: Sim, sim. 

    DR: A 'Papel de Jornal' não é propriamente política mas tem uma afirmação muito vincada... 

    GB: E no tema 'Nem Sonhar' questionamos se saímos ou não de Portugal...

    Não vão sair, pois não?

    GB: Em princípio, não. 

    A não ser que seja para gravar...  

    GB: É como o próprio refrão do tema diz, "mais um gig no Cais Sodré". (risos) 


    Para terminar, o que é que me podem contar sobre o concerto que vão dar no Ageas Cooljazz a 26 de julho, no dia em que atuam também os Tindersticks? 


    JS: Vai ser um belo concerto. Vamos tocar o nosso recém-editado "Vice Versa". O alinhamento será sobretudo com temas desse disco. É um álbum bastante recente e queremos mostrá-lo. Tocámos uma vez em Cascais, há quase dez anos, mas nunca tocámos no Cooljazz. Estamos ansiosos por poder ir ao festival mostrar o nosso "Vice Versa".   

    O que é que acham do festival? 

    DR: Só lá estive uma vez mas gostei muito. 

    GB: Eu também gostei. 

    JS: Eu fui em 2014 e lembro-me que vi lá a final do Campeonato do Mundo de Futebol que nesse ano foi no Brasil. A final foi entre a Alemanha e a Argentina. E ganhou a Alemanha. (risos)  

    GB: Eu fui lá ver os Morcheeba, que são um clássico da minha infância/adolescência, e a Chaka Khan. 

    DR: Eu vi no Cooljazz o David Byrne. Foi incrível. Nós já tocámos em festivais para mais pessoas, mas no Cooljazz é diferente. A plateia é imponente porque está tudo num só palco. Nos outros festivais onde tocámos, há mais palcos e coisas a acontecer ao mesmo tempo.