Deco confirma aumento de queixas sobre fraudes com origem em desinformação

    Defesa do consumidor reconhece que tem dificuldades na intervenção, uma vez que não se consegue recuperar os montantes perdidos, e aconselha a que não sejam partilhados conteúdos quando há dúvidas sobre a veracidade.

    A Deco tem recebido cada vez mais queixas de consumidores decorrentes de fraudes e burlas que tiveram na sua origem informação falsa, apresentada de forma a parecer verdadeira, afirmou esta quinta-feira à Lusa o jurista da associação Luís Pisco.

    “A Deco recebe cada vez mais queixas de consumidores decorrentes de fraudes e burlas que tiveram na sua origem informação falsa, mas que da forma como era apresentada parecia ser verdadeira”, disse o jurista.

    Luís Pisco refere que nestes casos a intervenção da Deco é limitada, pois não se consegue recuperar os montantes perdidos.

    Neste sentido, a Deco tem apostado na formação e informação ao consumidor de qual deve ser a sua postura perante a proliferação de desinformação em ambiente digital, designadamente fornecendo conselhos úteis de como identificar notícias falsas, verificar conteúdo ou confirmar fontes.

    Ouça a entrevista com Luís Pisco

    Na dúvida, não partilhe

    Se encontrar online algum conteúdo que lhe levante dúvidas, o conselho base da Deco é claro: "Em caso de dúvida, nunca partilhe como se fosse verdadeiro. E deve denunciar."

    Luís Pisco nota em entrevista a esta rádio que, neste momento, as plataformas online devem permitir aos consumidores "denunciar conteúdos que considerem suspeitos, que violem direitos ou sejam ilegais, e o próprio consumidor deve exercer esses direitos".

    Outra estratégia é "tentar confirmar as fontes junto dos outros órgãos de comunicação social, por exemplo, saber se aquela notícia é só partilhada naquele site ou se existem outros sites com a mesma notícia, com teor igual". No caso de imagens ou vídeos, procurar "confirmar através, por exemplo, da utilização de algum tipo de ferramentas que existem online e que permitem identificar se aquelas imagens ou vídeos foram manipulados, foram alterados com recurso a AI".

    Leis e consequências

    Além disso, “é preciso garantir que quem gera a desinformação é verdadeiramente sancionado e que as entidades competentes têm os meios e os instrumentos necessários para supervisionar e fiscalizar o ecossistema digital. Portugal tem de fazer mais neste aspeto”, disse.

    Sobre a matéria legislativa, o jurista refere que “ainda é demasiado cedo para se poder avaliar a real eficácia do DSA (Digital Service Act ou Regulamento dos Serviços Digitais, em português)”, mas “é urgente aprovar em Portugal o diploma de execução deste regulamento, em particular quanto à fixação de regras em matéria de reforço efetivo dos poderes de supervisão e de aplicação de sanções pelas autoridades”.

    A associação considera ainda que a IA veio tornar mais difícil aos consumidores saber se estão, ou não, perante conteúdos falsos e enganosos, pelo que “a atual moldura normativa continua a ser insuficiente, no entender da Deco, para responder de forma eficaz aos desafios crescentes da desinformação amplificada por sistemas de IA”.

    “A regulação concentra-se, em grande parte, na classificação e mitigação dos riscos associados ao desenvolvimento e uso da tecnologia, mas ainda carece de mecanismos específicos para enfrentar o impacto real da IA na formação da opinião pública, especialmente quando utilizada para gerar, promover ou filtrar conteúdos ilegais”, explicou o jurista.