Sérgio Godinho e o seu livro de "Histórias Suicidas": "estes contos estão cheios de vida"

    Entrevista ao escritor e cantor, que está a preparar um livro de memórias e um novo álbum.

    "Como Se Não Houvesse Amanhã – Histórias Suicidas" é o novo livro de Sérgio Godinho, que tem expandido consideravelmente a sua atividade literária ao longo dos últimos anos. O artista eclético celebra a 31 de agosto 80 anos de vida, efeméride que motivará uma grande homenagem da Feira do Livro do Porto, floreada por tílias, contos (com a apresentação de “Como Se Não Houvesse Amanhã – Histórias Suicidas”) e cantos (com o concerto de Sérgio Godinho).

    O espírito exploratório de Sérgio Godinho é como o ar que respira. O que lhe falta fazer, tarde ou cedo será feito, como a área de não-ficção, através de um livro de memórias que está a começar a escrever. No meio desta atividade literária toda, sobra ainda vontade para continuar a dar concertos e até, proximamente, a enfiar-se num estúdio, para que o extenso reportório fique ainda extenso. É o que nos promete o músico e escritor em entrevista. 

    O que é te impeliu para escrever um livro de contos sobre o suicídio? 
    No fim de contas, os meus livros falam sempre da vida e morte. Posso dizer que a atividade de ficção literária tem-se vindo a desenvolver há uns anos, desde que comecei com um livro de contos chamado “Vidadupla”. Depois, fiz três romances seguidos, e agora [lanço] este livro de contos que se chama “Como Se Não Houvesse Amanhã” e cujo subtítulo é, de facto, “Histórias Suicidas”. Eu acho que o tema dos suicídios é um tema ficcional como qualquer outro. Eu não tenho nenhum impulso suicida. Mas a ficção é precisamente inventar vidas para outras pessoas. Inventar vidas para outras pessoas que nós próprios criamos. E acho que é um tema que é interessante porque é uma decisão, em última análise, individual e que no final é muitas vezes mal entendida. Eu acho que todos estes contos são cheios de vida, além da morte. Diga-se que, aliás, há dois suicídios que não chegam a ser consumados, mas não é isso que é o mais importante. O mais importante é falar do que são as circunstâncias da vida. Há até um conto em que, tecnicamente, não há um suicídio. É um caso de Alzheimer e é um caso bastante triste e trágico, é um suicídio do corpo no seu todo, porque a cabeça e o corpo começam a descontrolar-se de uma maneira que já não dão acordo de si. Portanto, agreguei esse tema geral dos suicídios. Mas o mais importante é essa inevitabilidade. Por isso é que o livro se chama “Como Se Não Houvesse Amanhã”. É naquele dia que tudo se vai precipitar, naquele dia que tudo se vai decidir.  E, no fim de contas, o que me interessa é criar personagens que tenham vida, que vivam, que tenham também anseios, que tenham desilusões.  Não é um livro em que os acontecimentos sejam muito do foro psicológico. Não são coisas facilmente explicáveis. 

    Sérgio Godinho

    Neste livro, procuras desafiar-te para situações muito diferentes, todas elas? 
    É o desafio da criação da ficção, não é? É isso que me apaixona nesta nova atividade, e que é paralela à atividade musical. Tenho composto pouco, de facto. Penso que para o ano haverá um disco novo.  Mas tenho feito muitos espetáculos e tenho um reportório, como é evidente, muito grande.  E portanto, são duas paixões que andam lado a lado e que são bastante diferentes, embora nas minhas canções também haja muita matéria ficcional.  

    Será que estes contos poderiam dar canções, ou inspirar canções?  
    Eu acho que não são transmissíveis esses saberes. Acho que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Já há muitos anos antes de fazer sequer o primeiro livro de contos, houve um editor, que não o meu, que disse: “olha, tenho uma ideia muito boa: porque é que não fazemos contos a partir das tuas canções?” E eu respondi: “já está feito”. Aquilo tem aquele tempo, aquele tipo de conteúdo, aquela forma, e não faz sentido estar a aproveitar só porque há personagens para outro tipo de ficção. E portanto, da mesma maneira, os contos não podiam dar canções. 

    Nestes últimos dez anos, temos conhecido mais a tua faceta de escritor, de prosa. As palavras agora que te vêm à cabeça são palavras escritas e não musicadas? É isso que está a acontecer? 
    Não, as palavras não são musicadas na medida em que nas minhas canções eu geralmente começo pela música e não pelas palavras. Portanto, mais uma vez é o contrário. A música é que me inspira, digamos, a uma certa cadência das palavras em 90 % das minhas canções, a música vem primeiro. E até em parcerias, como é o caso, sei lá, das canções que eu fiz com os Clã ou com outros, a música vem primeiro. E depois, curiosamente, uma vez falava com o Chico Buarque e até acho que já li, que com as parcerias que tem com o Edu Lobo, ou que teve com o Tom Jobim, é precisamente o que acontece. E inclusive, tivemos uma canção juntos, no disco “Coincidências” [de 1983], onde eu lhe dei uma música e pedi para ele fazer uma canção, chamada ‘Um Tempo Que Passou’.  

    Isso é interessante. A gente tem aquela ideia de seres um homem de letras e que vem primeiro a letra. 
    É, é. Não chega a ser um equívoco, é uma convicção. 

    Escreves constantemente tudo e mais alguma coisa: canções, um livro de crónicas, livros infantis, guiões de filmes, peças de teatro, prosa, contos. O que te falta escrever?  Qual é o formato que falta experimentar? 
    Essa é uma pergunta que é quase inevitável, para a qual não tenho resposta. Não tenho resposta, não sei o que é me falta escrever. Estou neste momento a escrever coisas talvez um pouco mais próximas das minhas memórias.  

    É a área que faltava, a não ficção.  
    Talvez a não ficção, que não é fácil.  Porque curiosamente a ficção é mais solta, não é? Tu podes inventar aquilo que te apetecer, desde que haja um grau de verosimilhança. Há coisas que, provavelmente, nunca farei. Várias vezes pensei em fazer um musical, que nunca saiu direito. No fim de contas, é mais fragmentado aquilo que eu faço. Embora, repito, em muitas canções minhas, há uma componente ficcional. Há personagens, muitas vezes há situações de ficção 

    Será que as memórias estão mais comprometidas com aquela preocupação de poder ferir suscetibilidades de pessoas? 
    Ah, bom, isso seria outra questão. Não é muito o meu foco, nem estou aqui para ter processos em cima, como com a Joana Marques. Aquela história é absolutamente absurda. Eu acho que o processo da Joana Marques é absolutamente ridículo… ridículo da parte dos Anjos. Que poder é esse do humor que faz anular espetáculos, patrocínios, etc.? Muito simplesmente não é verossímil, é bacoco da parte deles. Agora podem pôr-me um processo. Porque é também um processo de opinião. Não é muito diferente daquilo que eu acabo de dizer, não é muito diferente daquilo que a Joana fez. Ela não gostou daquela versão do hino português, eu abstenho-me de dar a minha opinião. Mas querer dizer que ela tem mais poder do que os fãs dos Anjos é absurdo, porque os Anjos têm um público e vão deixar de ter esse público só porque alguém se riu deles? Não faz sentido nenhum.  

    Já passam sete anos sobre o último álbum de estúdio, “Nação Valente”. Falaste que estavas já pensando num novo disco para o ano. Em que fase é que está esse disco?  
    Tenho algumas coisas escritas, mas está numa fase um bocado embrionária. Sobretudo, não tenho pressa. Mais importante é fazer espetáculos ao vivo. É evidente que há um momento em que há que renovar o reportório, mas de facto eu já renovo o reportório per se, na medida em tenho um espólio muito grande. Os meus músicos querem muitas vezes renovar o reportório. Portanto, farei espetáculos. Fiz agora um hiato, mas vou retomar em setembro. Aliás, o primeiro espetáculo em setembro vai ser na Feira de Livro do Porto, a encerrar a feira. Vou ser homenageado na Feira de Livro do Porto, na minha cidade, embora eu já não saiba de que terra sou, porque vivo em Lisboa há o dobro do tempo que o que vivi no Porto. Mas o Porto é uma raíz importante. 

    Mas é evidente que és também lisboeta.
    Claro que sim. Dois dos meus três filhos nasceram em Lisboa. É uma cidade que eu não conhecia, Lisboa. Sem dúvida que a minha raiz é o Porto e é com grande prazer que aí volto. Mas gosto também de conhecer cidades. Quando eu vivia no Porto, eu tinha ido uma vez com os meus pais a Lisboa, quando era adolescente e conheci pouco mais que o Rossio, lembro-me que entrámos ali pelo Areeiro. Hoje, Lisboa é uma cidade que domino, embora nunca se conheça uma cidade inteiramente. Só recentemente passei a conhecer Marvila [bairro oriental de Lisboa], que se está a desenvolver de uma maneira muito interessante. Voltando ao Porto, a Feira de Livro do Porto passa-se de 22 até 7 de setembro. Ok. Há uma avenida das tílias e o homenageado tem uma tília que lhe é atribuída e vai ter uma frase minha mais poética. Haverá essa cerimónia.  Há uma medalha que até hoje é atribuída, mas que provavelmente não será dada.  Depois, no dia 30, é a sessão sobre o meu livro, “Como Se Não Houvesse Amanhã”, no Porto. E no dia 7, que é o dia de encerramento, há um espetáculo com a minha banda, Os Assessores, nos Jardins do Palácio de Cristal. 

    Pelo meio, há o 80º aniversário do Sérgio, no dia 31. Vais celebrá-lo nesse dia na Feira Livro do Porto? 
    Não, aí não. No dia 30 à noite vai ser o lançamento do livro, de maneira que vai acabar por ter alguma repercussão… 

    Na tua cidade de berço. 
    Na minha cidade de berço e no meu Palácio de Cristal, que eu conheço desde pequeno e que refiro na canção ‘Porto, Porto’. Portanto, isto andava tudo ligado, como diz outra canção. Eu até pensei fazer no dia 31 de agosto, quando faço esta data redondíssima. Antes pensava fazer qualquer coisa em Lisboa, mas estando no Porto, farei qualquer coisa no Porto com os amigos e depois haverá outros amigos em Lisboa também.  

    Brindemos um 'Porto Sentido'.  Merece um cálice.  
    Ah, isso. Porto Sentido. O Porto Sentido é uma grande canção do Rui Veloso e do Carlos Tê.

    Na verdade, eu queria dizer ‘O Porto Aqui Tão Perto’. Disse sem querer ‘Porto Sentido’.
    E não faz mal, porque eu acho que [‘Porto Sentido’] é uma canção que realmente representa o Porto. É uma canção que eu tenho inveja de não ter composto. É uma inveja sentida. E tem aquele final [Sérgio Godinho começa a cantar]: “E é sempre a primeira vez/Em cada regresso a casa/Rever-te nessa altivez/De milhafre ferido na asa”. É curioso porque no meu espetáculo, “Caríssimas Canções”, que era só feito com canções de outros, eu interpeto uma canção de Bob Dylan [Love Minus Zero, No Limits] que acaba por dizer: “My love she's like some raven / At my window with a broken wing”. “Um corvo à minha janela com uma asa partida” não anda muito longe da letra do Tê. São as coincidências poéticas da vida.  

    Sérgio Godinho

    Também escreveste uma crónica no Expresso sobre uma canção do Neil Young, não foi? Não sei se deu em versão.
    Não, não. Não cheguei a fazer. 

    O Neil Young nasceu no mesmo ano que o Sérgio. Tem um espírito ativista muito parecido com o teu. 
    Eu sei. Eu vi-o há tantos anos - e depois já vi depois disso. Mas vi-o a primeira vez em Montreal, quando eu estava lá a viver. Ele dizia aquelas coisas tipo: “fiz esta canção quando estava em Montreal”. E, depois, há um aplauso. E, depois, ele diz: “Ou será que foi em Toronto?”.