"O Chega é fruto das contradições da sociedade portuguesa"

    Em 15 dias, e com milhares de exemplares vendidos, “Por Dentro do Chega, a face oculta da extrema-direita em Portugal”, do jornalista Miguel Carvalho, vai para a terceira edição. “Irreal”, solta o autor surpreendido com o êxito do livro. Depois de mais de cinco anos no terreno, num trabalho de investigação sobre os primeiros anos do Chega na política nacional, os últimos dias de Miguel Carvalho têm-se dividido entre Lisboa e o Porto para responder a entrevistas e apresentar o livro.

    São 750 páginas, cinco anos de investigação, mais de cem entrevistas… Ao fim de todo este trabalho, como é que descreverias o Chega?

    O Chega é fruto de todas as contradições existentes hoje na sociedade portuguesa e isso explica muito do seu sucesso. Um partido que consegue chegar com grande facilidade às profundezas do ressentimento e da revolta a vários níveis contra uma certa classe política. Em muitos casos, com alguma razão, porque o que tu ouves em zonas suburbanas e em zonas de interior - e muitas vezes eu ouvi esse testemunho -, é as pessoas sentirem que a palavra dada não foi cumprida em relação às expectativas que foram criadas. Em relação à escola, ao hospital, ao centro de saúde, ao posto dos correios, etc... O Chega vai buscar gente de todos os partidos e todas as áreas políticas, ou seja, desde gente que nunca votou - há relatos de pessoas que foram a uma assembleia de voto pela primeira vez com o Chega, portanto, nem sequer sabiam como é que funcionava -, mas há gente que votou ao longo da vida em vários partidos. Eu encontrei gente muito fanatizada no Chega que, quatro anos antes, tinha votado Marisa Matias, por exemplo, porque o foco delas é a ideia da personagem política que vai partir isto tudo. Mas é um partido íman dessas coisas todas, do ressentimento, do seu desgosto em relação aos políticos, em relação aos aparelhos políticos em que alguns também andaram. André Ventura fez um trabalho muito inteligente no início, porque foi a zonas do país aonde não ia um político há muito tempo, não foi oferecer grande coisa, mas foi servir de saco de boxe daquela gente…

    Mas foi.

    Mas foi.

    No livro fazes questão de esclarecer e passo a citar: "Importa não confundir o eleitorado com quem manda, com quem dirige [o Chega] ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta". Quem são estes eleitores, quem é este exército a quem chamas, “uma espécie de Liga dos Esquecidos”?

    Sim, eu acho que esse é o maior universo eleitoral do Chega, ou seja, há pessoas e setores que estariam sempre num partido como o Chega, não é? Umas certas elites económico-financeiras, grandes proprietários agrícolas, etc. Ou a direita das margens que andava aí em várias margens do sistema político e que, mesmo não concordando com tudo o que o Chega defende, acha que este é o seu braço político, digamos assim. Mas a maioria eu acho que não é assim. Quer dizer, falo com algum conhecimento do terreno ao longo destes anos, e esse eleitorado é um eleitorado que nós temos de fazer um esforço - e quando digo nós, é também nós os jornalistas, porque uma das queixas que eles fazem é o facto de nós só aparecermos quando há uma grande tragédia nacional. Portanto, deixamos, inclusive, de querer saber como é que estão as suas vidas e como é que é o seu quotidiano, sofrido muitas vezes, e trágico, para nos concentrarmos nas grandes tragédias nacionais e só lá aparecemos, como eles dizem, como abutres… E esse eleitorado tem muitas razões para ter ido parar ali. E é um eleitorado que, às vezes, tem razões válidas para sentir o que sente. Se vai ou não bem para ali já são outros quinhentos, como se costuma dizer, mas é um eleitorado que, quando eu conversei com muitos deles, aquelas questões que são habitualmente a pauta da André Ventura, o discurso contra a comunidade cigana, o discurso anti-imigração, etc, nunca é o tema que aflora nas conversas. E eu tenho entrevistas com apoiantes do Chega, militantes, ex-dirigentes, etc, de cinco e seis horas, em alguns casos.

    E o que é o essencial que retiras dessas conversas?

    Primeiro, a questão da falta da palavra dada! O centro de saúde que foi prometido e não foi construído ou que foi fechado. Aquele hospital que também era uma luta antiga e que também não foi construído. A escola que fechou e agora está a trinta quilómetros… As conversas começam sempre por aí.

    E eles também falam disso?

    Sim, há um grande desgosto antes de haver o ressentimento, que às vezes os estudos de opinião nem sequer alcançam, porque é tão profundo, tão profundo que pela rama não se consegue alcançar. Há um grande desgosto em relação ao papel que o Estado foi deixando de ter no território nacional, ou seja, um bocado a ideia de que tudo isto obedece a interesses de Lisboa e Porto, que isso se concretiza através da perda de influência eleitoral dessas regiões, daí a redução de deputados, etc, que tem, obviamente, outros fenómenos que explicam, mas esse é o sentimento que as pessoas têm. A ideia de que, por muito que protestem, nunca serão ouvidos em Lisboa, sempre Lisboa. A ideia de que não há políticos que na Assembleia, nos sítios onde estão, nos cargos que ocupam, berrem por eles. E isto é muito um elogio para o André Ventura, porque as pessoas sentem, há muitas que sabem perfeitamente que ele mente, que usa determinados temas para espalhar narrativas falsas, mas depois acabam com esta frase: "Mas ele berra por nós. Ele berra por mim. Ele fala de coisas que ninguém falou."

    E essas pessoas são pessoas que estão desiludidas também com a sua própria vida, com o seu próprio percurso?

    Eu vou dar um exemplo que encontrei aos magotes e falei com algumas destas pessoas. A esmagadora maioria delas não quis dar a cara, até pela situação frágil em que está, e eu fiz pequenos perfis delas. Tenho trezentas, quatrocentas páginas de pequenos perfis. São pessoas que andam há doze, quinze anos, vamos pôr assim, a candidatar-se a tudo o que é concurso público, mas na escala mais baixa do funcionalismo público e da administração pública. Jardineiros em câmaras, o funcionário de escala mais baixa de uma escola, de um instituto, etc. Consultando fontes abertas, sabendo os nomes deles e se é militante aqui ou se é militante acolá, consegue-se facilmente cruzar várias informações. Muitos deles têm perfis de Facebook, outros têm LinkedIn, tudo isso. E consegues fazer um perfil que mostra que andam desesperados há anos em busca de um emprego público, mas até muitas vezes pelas dificuldades das suas próprias vidas, vidas às vezes muito frágeis do ponto de vista familiar, profissional, etc, não têm tempo para olhar para dentro de si e perceber naquilo que eles próprios falharam, ou seja: "Então e se eu tivesse um currículo melhor? Eu falhei esta prova de aptidão cultural, porque é que eu não entrei ali?"

    Ou seja, olhar, fazer uma autorreflexão no sentido de perceber o que é que eu tenho de melhorar para poder alcançar este emprego que tanto desejo e não acabar como acabei, com todo o respeito e com toda a dignidade, mas...

    A fazer o que não queria?

    A fazer o que não queria. Agora imagina que, não fazendo essa reflexão, aparece alguém que lhes diz: "Não, a culpa não é tua. A culpa é do sistema que te tramou. Tu não consegues aquele lugar na escola e aquele lugar na câmara, não por ti, que és um talento, mas porque o sistema está montado para que tu nunca tenhas acesso, porque isto funciona tudo por cunhas e é o esquema do PSD e do PS." Qual é a narrativa que esta pessoa vai escolher?

    Dizes aqui que entre os eleitores do Chega há um défice considerável nos setores culturais, um deserto de intelectuais. Como é que explicas que o Chega chegue a todo o lado? “Forças policiais”, “advogados”, pessoas de vários credos, católicos maçons, protestantes...

    Tudo. Sim.

    E, no entanto, como é que se explica a ausência de pessoas do setor cultural?

    Eu encontrei, de fato, esse défice. Ou seja, tens de andar com uma lupa para encontrar pessoas que tenham alguma relevância, algum peso na área intelectual e na área cultural. Mas, outro mito que tem de cair - acho que agora já não tem sido muito explorado, mas foi explorado bastante no início para criticar o Chega -, que era dar a ideia de que aquilo que era um partido de gente desesperada, que não tinha grande formação, inculta... Isso é uma tremenda injustiça. Primeiro, não é verdade. Eu encontrei, por exemplo, um dos setores profissionais que está melhor representado no Chega, a seguir a forças de segurança, militares, etc, são professores. Professores espalhados por todo o território nacional, desde o ensino básico à academia, inclusivamente gente no estrangeiro com um currículo científico fantástico que está no Chega com grande convicção porque considera que ali - lá está, tal como a pessoa, como o cidadão mais simples e mais comum - estão defendidos alguns dos seus interesses, sejam eles defendidos aos berros ou de uma forma mais consentânea.

    E da tua observação, dirias que esse eleitorado de pessoas tão díspares e tão diferentes, é um eleitorado que questiona, que é crítico perante o partido e o líder André Ventura, ou funciona numa lógica quase de fã?

    Sim, ele criou as condições para que tudo no partido seja personalizado nele, ou seja, basta ver as campanhas eleitorais, mesmo nas autárquicas, em que a cara dele aparece na mais recôndita aldeia deste país. Mas o Chega foi um bocadinho camaleónico ao longo destes anos. Ou seja, houve uma fase em que havia alguma margem para pensamento crítico, que às vezes resvalava para coisas completamente fora deste mundo. Quer dizer, a dissidência não pode ser olhada só apenas como uma virtude. Houve gente que saiu do Chega com coragem e porque reivindica um pensamento próprio sobre aquilo que estava a acontecer. Mas há gente que saiu do Chega porque acha que o Chega virou à esquerda, ou porque a sua direção fazia rituais satânicos em Sintra com crianças. Portanto, há de tudo. A dissidência no Chega tem de tudo. E eu acho que mesmo o eleitorado que tenha algum conhecimento da vida interna do partido, não a conhece na sua profundidade. Eu acho, até pelas muitas conversas que tive, que se esse eleitorado conhecesse a fundo o que é que o Chega faz ou alguns protagonistas do Chega fazem em nome desse eleitorado, jamais estariam no Chega.

    O Chega utiliza muitas vezes a ideia de que são todos iguais. Dirias que o Chega é igual aos outros partidos?

    Não, eu acho que o Chega tem os vícios todos… Bem, primeiro tem os vícios todos que diz que supostamente combate. E acho que até os agravou, em certo sentido. Ou seja, é um partido disruptivo no pior sentido. Atraiu, dada a sua falta de filtro, dada a dificuldade que tem em atrair pessoas que têm respeito por si próprias, até do ponto de vista intelectual e do ponto de vista político, o Chega atraiu - e falo da sua direção, falo dos parlamentares, ou seja, de quem decide, de quem está lá em cima, do seu topo - gente que não tinham onde cair morta há muito pouco tempo, nem profissionalmente, nem pessoalmente, nem politicamente. Há gente subsídio-dependente na direção do Chega. Isto é preciso dizê-lo com toda a clareza, tinham as suas vidas viradas do avesso até aparecer o Chega. Portanto, o Chega permitiu-lhes um emprego e um sustento e estarão lá, serão sempre os mais fanatizados até ao dia em que lhes toque a eles. E, portanto, agora é um partido até, se quisermos, menos livre do que era no início, porque as vozes críticas foram sendo afastadas, é um partido com traços até quase norte-coreanos em algum sentido. Os sucessivos acórdãos do Tribunal Constitucional têm alertado para a falta de democraticidade interna do Chega e apanham uma parte dos problemas que esse partido tem, um partido com uma duração tão curta, com tão poucos anos, que já consegue quotidianamente alimentar noticiários sobre casos e polémicas de todo o tipo e feitio dentro do seu próprio partido não tem muitas razões para ter um discurso moralista em relação ao próprio regime e à República.

    Falavas aí da dissidência e no livro dizes que alguns dos dirigentes com quem falaste nem precisaram de romper relações com o Chega para falarem contigo. Alguns ainda lá estão, mas, entretanto, alguns saíram. É o caso de Gabriel Mithá Ribeiro. Acreditas que a participação neste livro pode ter estado na origem da sua renúncia recente ao mandato de Deputado?

    Toda a imprensa fez referência a isso como o principal motivo dessa saída. E as minhas fontes lá dentro também é isso que me dizem, mas de facto toda a imprensa sustenta a sua saída nessa ideia, ou seja, de que aquela entrevista caiu muito mal lá dentro.

    É preciso dizer que a relação da generalidade da direção do Chega e até de alguns deputados com Gabriel Mithá Ribeiro já não era uma boa relação. O Gabriel Mithá era um homem mais tolerado do que propriamente respeitado. Era alguém a quem, em determinada altura, André Ventura achou que era necessário entregar um brinquedo, que era o substrato ideológico do Chega, porque ele não tem paciência para isso e à generalidade das pessoas que está à volta dele isso não lhes interessa. E, portanto, estava ali alguém entretido com o brinquedo, alguém até muito próximo de Jaime Nogueira Pinto, são pessoas que se respeitam mutuamente. E enquanto ele estivesse entretido com isso, de vez em quando algumas coisas podiam ser úteis para dar algum substrato ideológico ao Chega. Mas de facto ele nunca foi levado muito a sério lá dentro. Eu estive em eventos do Chega, e no próprio evento em que o entrevistei, quando ele começou a falar, metade da sala saiu ou bocejou. Portanto, o Chega é, como ele diz no livro do líder, intuitivo, joga com a espuma dos dias e depois faz, como ele também próprio diz, muitas vezes o discurso “à taberneiro”, não é? Sendo que ele é das pessoas do Chega que mais densidade ideológica tem - é aquela área política, podemos concordar ou não, mas é de facto das pessoas com maior densidade ideológica - num partido que não dá grande valor à ideologia, é um catch-all party, como se costuma dizer. Portanto, a entrevista obviamente que não iria cair bem e que iria causar alguma celeuma... Não imaginava eu que fosse tão rápido. Esta saída dele dá a ideia de que ele foi forçado a sair e que se instalou, a propósito do livro, uma espécie de caça às bruxas dentro do Chega.

    Concluíste que não há muito espaço para mais pessoas dentro do Chega além de André Ventura, mas, por exemplo, Rita Matias tem crescido muito no partido. Achas que isso está a mudar?

    Não, quer dizer, foi-lhe permitido… Foi a única pessoa a quem ele permitiu sombra, não é? E porque a partir de determinada altura, a Rita Matias foi buscar ou vai buscar um eleitorado de futuro, inclusive crianças que ainda não votam. Vai buscar um eleitorado com aqueles vídeos muito cómicos com narrativas muito simples, de quinze segundos, vinte segundos em que se dizem também muitas mentiras. A Rita Matias tem um lastro considerável de falsidades e de mentiras no seu discurso político, à frente de muitos outros do Chega, mas vai buscar o universo juvenil, estudantil, tanto nas escolas como nas faculdades, que é absolutamente essencial para o crescimento do Chega. Um eleitorado obviamente com baixa literacia mediática, que - eu ia dizer informa, mas não - que se desinforma nas redes sociais. Ou seja, entendendo-se que a dupla funciona bem enquanto dupla, André e Rita Matias, não é? Eles nunca acharam que poderiam funcionar bem sozinhos. A estratégia foi montada nesse sentido. Ela hoje, além de ter lastro junto desse universo, tem também já algum lastro internacional. É uma pessoa com excelentes contactos junto das camadas bolsonaristas brasileiras. Também naquelas que ensinam algumas técnicas ao Chega para crescer no universo digital. Também com laços de grande proximidade à Hungria e também com o Vox, em Espanha. E agora temos de ser razoáveis neste ponto, quer dizer, ver Rita Matias como sucessora de André Ventura num futuro próximo, isso é completamente inviável. Eu acho que ele próprio nunca se colocou essa questão. Enquanto a sociedade portuguesa, o Estado, a política portuguesa não resolver problemas que estão identificados há muito no território nacional, o Chega vai ter motivos para crescer, porque tal como nos Estados Unidos, não adiantou ter Trump durante quatro anos fora da Casa Branca para acabar com o Trump Country, aqui é exatamente a mesma coisa. André Ventura pode decidir amanhã ir para outras bandas ou ir fazer outra coisa e, obviamente, nessa linha, Rita Matias é a pessoa que tem a possibilidade de ser a sucessora, ou a que está mais bem colocada para isso. Mas continuamos, do ponto de vista de resolver o problema Chega e o quão disruptivo é com as suas posturas, com as suas narrativas, com as suas propostas, com o que fragiliza a democracia, continuamos sem resolver o problema do Ventura Country, porque esse, se não resolvermos esses problemas, ele vai cá estar com ou sem o Ventura. E, portanto, também aí a estratégia política de alguns adversários do Chega se calhar não terá sido a mais correta, porque personalizaram esse combate muito naquela figura, quando se calhar deviam estar mais preocupados, e com respeito, e com compreensão, com o eleitorado que deu este lastro eleitoral ao Chega.

    Atribuis o êxito do Chega e de André Ventura também a um falhanço dos outros partidos?

    Claro, à forma como o Chega e mais até o próprio André Ventura foi combatido nos primeiros anos, também com muita ingenuidade e cumplicidade dos órgãos de informação. Não foi o melhor caminho, ou seja, há quem diga que não se deve, inclusive colunistas neste país, opinadores que acham que aquela gente que votou no Chega tem de ser tratada abaixo de cão e que não se lhes deve dar mimo nem compreensão… Eu acho exatamente o contrário, ou seja, eu acho que há um meio termo. Não é desresponsabilizar a opção eleitoral que foi feita, é tentar compreendê-la. Quer dizer, se quisermos tentar perceber o fenómeno, porque, se calhar, as razões que ali estão podem ser combatidas de uma forma mais eficaz, sobretudo com a palavra dada, com o cumprimento da palavra dada, que foi a coisa que eu mais ouvi no terreno, foi a falha ao compromisso. No atual estado das coisas, o André Ventura nem sequer precisa de prometer muita coisa, porque o que eu ouvia também com muita, muita frequência é: "Eu não sei se ele vai conseguir, mas ao menos ele berra por nós, ele grita por nós." É ele que diz aos outros, sejam eles quais forem os outros, o que eu gostava de dizer e não posso.

    No que toca ao jornalismo, a forma como o Chega lida com os jornalistas e com o jornalismo é diferente dos outros partidos? Ou seja, os ataques, as tentativas de obstrução, acusações por parte do Ministério Público, por ameaças agravadas a jornalistas, atentado à liberdade de imprensa, isso é uma coisa ímpar em Portugal?

    Sim, sim. Quer dizer, ao que se assistiu com o Chega não há nada comparável para trás. Isto teve várias fases. Primeiro, tu hoje estás a combater, do ponto de vista jornalístico, a combater as constantes falsidades, a narrativa que visa propagar desinformação pura e simples, no atual estado do jornalismo que, a meu ver, e eu tenho insistido nisto, é o pior período do ponto de vista jornalístico que nós estamos a viver, o pior período em democracia. As nossas fragilidades, do ponto de vista dos recursos humanos, dos recursos técnicos, do recurso do financiamento, a nossa relação de proximidade com o país não é possível como era há uns anos. Portanto, neste caldo, neste cenário, o Chega nem sequer precisa de nós. Ou seja, o Chega já descartou completamente o nosso papel de mediador.

    É um discurso direto já sem mediação?

    Sim, [o Chega] preocupa-se com a televisão, onde aparentemente André Ventura parece ter casa, cama e roupa lavada, como se costuma dizer. Parece que a dado momento, nesta guerra fratricida pelas audiências, parece que há uma fase que ecoa nos bastidores dos estúdios deste país que é: "Chama o Ventura", não é? Quase em desespero porque se garante audiências com isso. A questão é que estamos, ao mesmo tempo, a afundar ainda mais a nossa credibilidade, porque muitas dessas intervenções, além de não trazerem valor notícia, são absolutamente insultuosas para nós. Ou seja, parece que há quase uma atitude masoquista de convidar alguém que a primeira coisa que faz quando chega ao estúdio ou quando está em direto é insultar a própria pessoa que lhe está a fazer perguntas, o próprio canal onde está e fazer bullying constantemente durante a entrevista. Portanto, isso só pode ser masoquismo, porque inocência já não é. Ou então, há outros interesses cuja dimensão nós não sabemos, mas nós já não somos mediadores de coisa nenhuma. Quando podíamos ser, não fomos. Quando o Chega precisou de fazer ruído, para mostrar que era mais do que um deputado nós falhámos de uma forma contundente aí, porque na ânsia de ter polémica, na ânsia de ter um debate muito polarizado e de promover as trincheiras políticas fomos atrás de uma narrativa que muitas vezes não tinha valor notícia e além de tudo fere valores constitucionais. Agora é tarde, eles vão de Ferrari e nós vamos de trotinete.

    Este livro não é o que o Miguel Carvalho acha sobre o Chega, não é o que o Miguel Carvalho acha sobre os militantes do Chega. É uma investigação que obedece a critérios…

    Sim, ou seja, aqui estão todas as regras básicas do jornalismo e há uma que nos esquecemos muitas vezes, que é ouvir as pessoas. Eu tive tempo para estar com estas pessoas, em alguns casos, mais do que uma vez, ou seja, não fui lá dar a minha opinião. Eu às vezes deixei as pessoas falarem em piloto automático, meia hora sem serem interrompidas. O que fiz foi muitas vezes levantar perguntas. Não fui levar-lhes a minha retórica, fui ouvi-las e se muitas me confiaram o seu testemunho, não tendo falado até hoje para mais sítio nenhum, é porque reconhecem que foi estabelecido entre nós, independentemente do que cada pensa como cidadão, um lugar de encontro para essa conversa, que eu acho que se perdeu muito no jornalismo. Portanto, eu mantenho contacto com muitas dessas pessoas, a última vez que olhei para o telemóvel e fiz a contabilidade de todos os contactos que tinha no Chega, entre os que saíram e os que ainda estão, eram cento e tal. A minha família fica arrepiada a ouvir isto… Alguns ainda me mandam postais de Natal. E, portanto, eu acho que eles reconheceram de uma forma geral que estava ali alguém genuinamente interessado em conhecer esse universo e sobretudo as vidas que levaram àquela escolha eleitoral. Há momentos das minhas entrevistas em que a conversa com o Chega nem sequer existe. Eu quero conhecer as pessoas antes de tudo. E ao fazer esse esforço, se calhar em alguns casos, plantei-lhes uma dúvida, sem querer ou fruto de determinadas conversas, as pessoas foram para casa pensar na opção eleitoral que fizeram. Mas esse é o meu dever como jornalista.

    Em 2020, a maioria dos colegas de profissão com quem eu lidava e até pessoas das minhas relações que seguem a atualidade política, deram-me muito nas orelhas porque achavam que eu estava a perder tempo com um fenómeno que ia acabar ao virar da esquina. E essas pessoas sabem que eu tinha razão. Eu sempre achei - e também por isso este livro demorou muito tempo a escrever, porque eu quis sustentar a minha relação com as fontes - que este fenómeno ia crescer, porque também me esforcei ao longo dos anos por conhecer o país e não ficar apenas no chamado Portugal sentado à frente do computador. Quero sempre fazer entrevistas olhos nos olhos, mesmo às vezes fazendo piruetas para isso, mas foi sempre o que quis. E, portanto, eu conhecia o território muito antes do Chega e conhecia a profundidade de alguns ressentimentos. Eu tinha acompanhado o CDS, por exemplo, nos anos noventa, em algumas sessões por esse país, onde já se falava muito de Deus, pátria e família e de subsidiodependência, mas não havia redes sociais e as pessoas ainda não estavam tão desiludidas com a classe política como estão hoje. Portanto, toda essa experiência me valeu aqui. Todo esse contacto com as populações me valeu aqui. Se eu chego a isto, não é porque andei à procura da espuma dos dias. Há muitos militantes do Chega e ex-militantes, é verdade, a partilhar o livro nas redes sociais reconhecendo que ele diz as verdades pelas quais as pessoas passaram lá dentro e alguns ainda não saíram, mas reconhecem que, de facto, estão aí questões levantadas que eles próprios já levantaram lá dentro e não tiveram sucesso. Claro que também há gente que partilha o livro para me insultar, faz parte, mas eu nunca hostilizei nem aqueles que me insultaram. Só mesmo para terminar, houve uma vez alguém que fazia piadas e trocadilhos com o meu nome nas redes sociais, aí por 2020. Um dirigente e que, pronto, frequentemente fazia essas brincadeiras. E num evento do Chega, nós não nos conhecíamos pessoalmente, num evento do Chega eu fui ter com ele e disse: "Olhe, eu sou o fulano de tal." Só com isto desarmas logo a pessoa! Ele não conseguiu dizer nada e eu disse: "Vamos tomar um café?" Fomos tomar um café e ao fim de cinco minutos aquela pessoa estava a pedir desculpa por se ter excedido, por fazer o que fazia nas redes sociais. E eu disse: "Assunto encerrado, ultrapassado. Vamos conversar, vamos aproveitar o café para conversarmos sobre o Chega." Agora, fazendo um exercício, um ano depois, quando esta pessoa se chatear com o Chega, em quem é que achas que ela vai confiar?

    Eu em todos os sítios onde passei, para ser franco, levei porrada de todos os partidos, todos. É sinal de que terei feito alguma coisa bem. E fiz o mesmo em relação ao Chega. Num dos primeiros momentos, eu encontrei o André Ventura em Viseu, primeiro jantar a que assisti do Chega, fui ter com ele e disse-lhe: "Eu não conheço o partido. Eu não sei se você é uma pessoa bem-intencionada ou mal-intencionada. Eu quero conhecer as pessoas que estão atrás de si, que o estão a seguir. Quero conhecer este fenómeno novo e terei toda a disponibilidade do mundo após ouvir e também, se for caso disso, de alertar para alguns problemas que o partido tenha ou se o partido não for aquilo que diz ser, também irei fazer isso." Foi assim que eu me apresentei. E eu acho que a generalidade das pessoas que foram entrevistadas, e mesmo aquelas que não quiseram aparecer, acho que de uma forma geral reconhecem isso. Muita gente me pergunta: "Tu foste ameaçado? Tratam-te mal?" Não! Tirando setores muito específicos ou pessoas muito específicas da direção do Chega. Claro que o livro agora pode mudar isso. Eu sempre fui muito bem tratado pelo eleitorado, pelos militantes e pelos delegados do Chega nas mais diversas iniciativas. Não tenho razão de queixa. As únicas razões de queixa que eu tenho, e onde eu acho que se passaram alguns limites, foi sempre por posturas assumidas pela sua direção e até pelo seu próprio líder. Nunca foram pela esmagadora maioria das pessoas que está no Chega, ou como eleitorado, ou como militante, ou como dirigente intermédio.

    Houve alguma reação desses quadros do partido ao livro?

    Que eu conheça, não. Quer dizer, tirando isto que aconteceu com o Gabriel Mithá, que é uma reação indireta, não é? E no final de um debate na televisão, já não sei em que canal, a Rita Matias terá considerado este livro lixo. Não conheço nenhuma reação oficial.