Alojamento Local dispara na última década em Lisboa e no Porto

    O retrato do AL é feito no site desalojamento.pt, lançado recentemente plo investigador João Bernardo Narciso.

    O Alojamento Local (AL)  disparou na última década em Lisboa e Porto, cidades que vivem uma grande crise de habitação. Na capital, são quase 19 mil os alojamentos locais registados e no Porto já ultrapassam os 10 mil. Os dados são avançados no site desalojamento.pt, lançado recentemente pelo investigador do ISCTE, João Bernardo Narciso.

    "Toda a regulação que foi feita, entretanto, a de suspensão de novos registos é, no fundo, fechar a torneira quando a casa já está inundada, porque este crescimento já devia ter sido parado há muito mais tempo. Chegámos a um momento em que não podemos ter mais alojamentos locais, mas os que temos já são demasiados, já são mesmo muitos. Em Lisboa, neste momento, temos cerca de quase dezanove mil registos e no Porto temos mais de dez mil", sublinha.

    O investigador diz que está a perder-se a habitação permanente e, consequentemente, habitantes no coração das duas maiores cidades do país: "para dar o exemplo da Vitória, no Porto, perdeu-se 33% de casas de habitação permanente e 37% de população. Em Lisboa, em Santa Maria Maior, perdeu-se 28% das casas e 21% dos habitantes. Na Misericórdia, perderam-se 18% das casas e 26% de habitantes. Esta correlação existe e é muito visível."

    Perante a acentuada crise de habitação em Lisboa e no Porto, João Bernardo Narciso diz são muitas as soluções para limitar o Alojamento Local e dá exemplos vindos de fora: "em Nova Iorque só se podem alugar quartos em apartamentos onde os residentes lá vivam e, portanto, o alojamento local praticamente acabou em Nova Iorque. Em Barcelona nenhuma das dez mil licenças que existe vai ser renovada, ou seja, na prática, o alojamento local vai acabar até 2028. Em Singapura, por exemplo, o alojamento local está proibido porque só podem ser feitos arrendamentos que tenham um prazo mínimo três meses. Portanto, o alojamento local obviamente não entra neste critério."

    Por isso, há uma "série de possíveis soluções, mas não se pode mesmo ter medo de perceber que as casas têm que servir, em primeiro lugar, para as pessoas viverem. E depois, obviamente que em algumas cidades que não têm tanta pressão fará sentido manter este modelo de alojamento local, talvez em zonas rurais, com certeza. Mas nas grandes cidades onde a crise se vive na pele, não é. Todos os dias vemos que há gente a sair da cidade, gente que não consegue viver na cidade. É preciso colocar o foco na questão: é que as casas são para viver", reforça.