"As pessoas só conseguem enfrentar, ganhar os desafios e ultrapassar os problemas se os encararem"

    Um prato à espera de nome e um livro que é um espelho na mala de Cotrim para Belém.

    João Cotrim de Figueiredo tem 64 anos. Lisboeta de nascença, a viagem para Belém nunca demorará muito tempo – depende mais do trânsito do que da distância e, para ajudar, escolheria ir de moto. Desta forma, levar uma mala pode não ser assim tão fácil, mas far-se-á se necessário. Até porque este candidato presidencial garante que não vai mudar-se para Belém se for eleito: o Palácio vai ser local apenas de trabalho, portanto a existir, a mala vai ser profissional e não de viagem. 

    O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal foi desafiado – como todos os adversários - a escolher cinco coisas para levar para o Palácio de Belém se se tornar o novo Presidente da República. As categorias são: uma fotografia, um prato, um objeto, um livro e um álbum. 

    O antigo líder da IL quer por na mesa de refeições uma “tachada”, levar uma fotografia que ainda nem tirou e pisca o olho a quem sabe quão difícil é gravar um álbum ao vivo. 

    Politicamente mais visível há seis anos, começou a trabalhar aos 15 anos – desafiado pelo pai - para “ter dinheiro para os alfinetes”. Estudou depois Economia em Londres, foi gestor, empresário, deputado – o primeiro da IL - e líder partidário. Divide-se atualmente entre Lisboa, Bruxelas e Estrasburgo, onde é eurodeputado. É pai de quatro filhos e avô de outros quatro netos. 

    Avançou para Belém com o lema “Imagina Portugal” porque considera “sinceramente” que “falta libertar as capacidades dos portugueses e os seus talentos”

    “Conseguimos e somos muito mais do que aquilo que temos mostrado. E quando vamos para fora - infelizmente emigrámo-nos em várias vagas de emigração - temos mostrado que conseguimos fazer bastante mais noutros ambientes, noutros contextos, noutros climas políticos”. O que o leva a questionar se o problema não estará no "nosso clima político e no nosso ambiente”. 

    Cotrim já foi até comparado, pelo próprio mandatário, a Isaac Nader, o atleta português que foi campeão mundial dos 1500 metros com um sprint final histórico que surpreendeu o mundo do atletismo. Não estranha a comparação. Aliás, acredita “piamente” nela. 

    “Para mim não será surpresa. Sei como é que me hei de posicionar em campanha, sei gerar entusiasmo nas pessoas que começam por aderir e que depois vão chamando outras e sei que tenho uma proposta que de facto é diferente dos outros candidatos”, garante. 

    E uma das coisas que, garante, o diferencia - além de esclarecer à partida que não vai viver para Belém e portanto esta mala é, na verdade, de trabalho e não de viagem - é a entrada no mercado de trabalho aos 15 anos. 

    O esclarecimento que quer fazer é o de que não deixou de estudar, mas foi sim desafiado pelo pai a juntar dinheiro próprio: “O que eu tive foi vários empregos, até antes dos 15, de verão e de oportunidade.” 

    Olhando para trás, confessa que foi uma estratégia “muito útil” porque o fez entrar numa espécie de “mercado de trabalho” que na verdade foram “vários ambientes de trabalho durante poucas semanas de cada vez”. 

    "Permitiu-me perceber desde muito cedo o que é que me agradava, o que é que não me agradava. Se mais trabalho de gabinete ou mais trabalho de contato com as pessoas. Fui percebendo isso muito cedo: a importância da capacidade de vendas e a capacidade de convencer pessoas de uma forma que fosse congruente com a minha personalidade, mas ao mesmo tempo atraente para os outros. Tudo isso depois me foi servindo ao longo da vida.”

    A fotografia atual que ainda está no futuro

    "Quero que ela seja o mais atual possível: vai ser a fotografia dos meus quatro filhos e dos meus quatro netos. Penso que não nascerá mais nenhum até lá, pelo menos que eu tenha notícia.” 

    Se for eleito, a posse será em março, perto de dois meses depois da primeira volta ou mês e meio depois da eventual segunda. 

    A imagem que Cotrim escolhe levar na mala – profissional, sublinhe-se – para Belém vai ser uma “espécie de símbolo” da razão pela qual entrou na política. 

    "Estava fora da vida política, e muito mais da vida partidária, em 2019. Praticamente por uma coincidência, entrei nessa altura. A minha longa carreira política são, de facto, seis anos e pouco”, assume. Como assume também que tudo aconteceu por uma “quase epifania”. 

    Foi quando estava a “preparar entrevistas de trabalho” com o filho mais velho, que tinha pedido ajuda para "ver que tipo de postura devia ter”, embora seja "um rapaz bem preparado, e em muitos aspetos, mais bem preparado” que o pai.  

    Sabe que “não ia ter problemas nas entrevistas no sentido estrito”, mas reparou enquanto pai que as oportunidades às quais o filho se candidatara “eram pouco interessantes” a nível salarial, de autonomia das funções e de progressão na carreira. 

    Caiu uma espécie de ficha. “De repente fiz uma comparação com a minha entrada no mercado de trabalho no ano de 1985, em que parecia que tudo era possível e que o país fervilhava. Nós podíamos realmente quase imaginar que podíamos fazer o que quiséssemos, que havia coisas nas quais podíamos fazer a diferença.” 

    Sentiu-se “profundamente” chocado ao aperceber-se que, “no intervalo de trinta e poucos anos”, as oportunidades se tinham transformado "naquela coisa meio chata” a que o filho se candidatava. 

    “Senti-me responsável”, nota o pai, mas também empresário e agora candidato presidencial. Reconhecendo até que pode entrar no campo de um “complexo de Deus” ao assumir tal responsabilidade – mas esforçando-se por colocá-lo “à escala certa” -, Cotrim reconheceu-se numa "geração que tinha deixado que o país se deteriorasse ao ponto de deixar de oferecer aquelas oportunidades”. 

    "Aquilo bateu-me: ‘Foste tu, tu deixaste que isso acontecesse. No teu turno, na tua vez.’ E um dos motivos pelos quais isso tinha acontecido, à minha pequeníssima escala de - não sei quantos membros tem a minha geração, mas vamos dizer que são um milhão de pessoas - um milionésimo daquela parte, eu não tinha feito o suficiente.” 

    Um dos locais “onde se mudam efetivamente sociedades” e em que sentiu que não tinha “dado o corpo às balas” era a política. Até aí, tinha apenas achado “graça” a “escrever uns artigos, estar numas tertúlias”. Confessa até “é cómodo” fazer política dessa forma. Já fazê-la “defendendo ideias, aguentando com as críticas, tentando mudar as coisas, nunca tinha feito”. 

    No meio destas “autoflagelações” surge uma chamada de Carlos Guimarães Pinto, então líder da IL, para “tomar o pequeno-almoço” depois das Europeias de 2019. 

    Corria o mês de julho, as legislativas estavam marcadas para outubro do mesmo ano e Cotrim confessa que pensou que seria convidado para “integrar as listas algures no 15.º ou 20.º lugar em Lisboa.”  

    Respondeu que sim, “com certeza”, que contasse com o nome dele para ajudar. Do outro lado veio um importante esclarecimento: “Não estás a perceber, é para cabeça de lista.” 

    Seis anos depois, o agora candidato a Belém confessa que deve ter mudado de cor, embora não o saiba porque “não há vídeos desse pequeno-almoço”.  

    Foi depois falar com a família a pensar se – e aqui pisca o olho a quem siga “a escola de Jung” - “a sincronicidade é uma coisa” porque, enquanto pensava como se envolver na política, “aparece” aquele telefonema. 

    “Isto não é uma coisa que possa ser totalmente coincidente. Enfim, eu também não sou um Jung típico. Acredito nos arquétipos dele, mas não pratico propriamente, não terminei a minha vida com isso.” Foi assim, conta, com um interlúdio patrocinado por Carl Gustav Jung, que entrou na política. 

    E se tudo começou na preparação de uma entrevista de emprego do filho, não estará agora Cotrim a preparar-se para uma entrevista de emprego com o país? "Nunca tinha pensado nisso. Se calhar num certo sentido, sim. Acho que estou a ser avaliado sempre, sim.” 

    O que o leva a recordar que na vida profissional contratou “muita gente” e, no início, enganou-se "muitas vezes”. 

    “Olhava para o currículo, fazia as entrevistas clássicas e depois as pessoas - às vezes pela positiva também, mas muitas vezes por negativa - surpreendiam. Não era aquilo que eu tinha visto ou previsto, entrevisto na entrevista.” A questão que lhe surgia era a de que "o processo não está bem” porque não podia ter "uma taxa de erro tão significativa”.  

    Daí, percebeu que "as entrevistas não se devem fazer com base naquilo que são as técnicas normais - porque nós sabíamos e esta notícia é conhecida, mais de dois terços das pessoas que saem ou que estão insatisfeitas no emprego é por causa do chefe ou da cultura empresarial”. O que importa de facto, defende, é "o encaixe das duas, do perfil da pessoa com o perfil da empresa” e daí se pode prever a “satisfação, que de um, que de outro”. E como é que isso se transporta para esta entrevista de emprego com o país? Como é que encaixa neste cargo? 

    O candidato a esta vaga declara-se próprio para a "função presidencial, especialmente naquela parte que não tem a ver com tanto formalismo ou tanto legalismo”. Justifica-se: "A prestação de diplomas, os vetos, as promulgações, os envios para o Tribunal Constitucional são poderes importantíssimos do Presidente, tal como a dissolução da Assembleia. Coisas importantíssimas do Presidente. A representação externa e a participação na política externa do país, comandante supremo das Forças Armadas é hiper importante.” Mas onde sente encaixar mesmo bem é na "função de referente, de inspirador, de mobilizador das vontades portuguesas”, um fato que diz que tem sido “pouco usado”, mas no qual garante sentir-se “bem porque, na prática e olhando para trás”, é o que tem feito “em boa parte da vida profissional: mudar coisas mobilizando as pessoas”. 

    Posto isto, se for eleito e quando sair do cargo de Presidente da República daqui a cinco ou dez anos, o Portugal que gostava de ver não apareceria numa fotografia, mas sim “numa reprodução de um qualquer dado ou gráfico que indicasse que a emigração jovem qualificada tinha reduzido substancialmente, que o nível de bem-estar material e mental das pessoas tinha subido substancialmente, que Portugal tinha subido nalguns dos rankings do bem-estar, material ou não” .

    Adote uma feijoada

    Poucas são as conversas entre portugueses em que não se fala de comida. Esta não é exceção, até porque faz parte da premissa escolher um prato para levar até Belém. 

    Cotrim de Figueiredo não se furta, até porque é um confesso “bom garfo”. Normalmente, explica, até tem dificuldade em escolher, mas desta vez a resposta surgiu “muito rapidamente: feijoada”. Mas não é uma qualquer. 

     "Gosto muito. Também gosto muito de outros pratos típicos, mas este gosto particularmente” e a explicação é simples: o candidato também gosta de cozinhar e, ao longo dos anos, criou uma versão própria. 

    "Uma feijoada que ainda não batizei, mas se tiverem um bom nome, batizem.” O desafio está feiro. 

    É, na suspeita opinião de Cotrim de Figueiredo, “particularmente boa” e o pai, que morreu recentemente, "adorava” o prato. Tanto que, especialmente no inverno, perguntava sempre “quando é que é a próxima”. 

    "Portanto, marca-me do ponto de vista gustativo, mas também do ponto de vista afetivo, essa feijoada.” E o que tem, afinal, de especial? “Tem como característica principal ter muito menos carne que o habitual, muito menos gordura que o habitual e muito mais legumes que o habitual”. Continua a ser, garante, "absolutamente deliciosa e tem os enchidos todos, atenção”. 

    É um prato, como “qualquer tachada”, que “unifica”, até porque “é uma mistura”. Ainda assim, a gastronomia tradicional não se livra de uma facada deste candidato a Belém, que “às vezes” lhe aponta o facto de "depender demasiado da tachada e de demasiado tempo ao lume”. 

    Digerida a crítica, volte-se à feijoada. Aliás, voltar à feijoada faz sentido porque, explica, "é muito melhor no dia seguinte, como qualquer pessoa sabe. Os sucos que lá ficaram dentro, os sabores, soltam-se particularmente bem depois de umas horas no frigorífico e de um reaquecimento.” (Nota dos autores: não gravar entrevistas sobre comida à hora de almoço, sob risco de deixar os próprios e o entrevistado a salivar).

    O objeto na mala que não cabe numa mala e alguns levam a mal

    Posto o tema da feijoada em pratos limpos, segue-se o difícil exercício de colocar na mala de Cotrim de Figueiredo algo que nunca lá poderia caber. 

     "É uma coisa que me permitiria, no palácio, manter uma relação talvez com aquela pessoa que eu gosto mais de ser, vamos pôr assim: a minha mota.” E sim, para lamento deste candidato, sabe que "os serviços secretos não deixariam usar e toda a gente arrancaria os cabelos. Até por isso dá um certo gozo”. 

    No fundo, escolhe a mota por saber que "no meio de uma deliberação difícil” pode pegar nela "e ir apanhar ar na cara... Através da viseira do capacete. Atenção, não é andar sem capacete. É uma sensação muito boa e eu muitas vezes faço isso para espairecer”. 

    Confessa que hoje anda “muito menos” do que gostaria, “por motivos práticos”, mas ajuda-o a manter-se “ligado à terra”. Permitiria também que chegasse aos pontos centrais do poder em Portugal mais rápido, argumento que não colhe junto de quem de direito. 

    "Eu tento explicar a essas pessoas, mas dizem: ‘Pá, não, ou não parece bem, ou é perigoso’ ou ‘depois onde é que vão as outros cinco pessoas? Com quatro sidecars não funciona, ninguém mais anda de mota.’ Mas eu levava, porque isso me mantém ligado àquilo que eu, que eu acho que gosto mais de ser”. 

    Sendo assim, já que Cotrim insiste na mota, há que levar alguém à pendura. Só que os penduras, nota, têm um problema: "A tendência para se agarrar muito” que é agravada pela necessidade de "saber andar à pendura”. 

    Ora, desafiado a escolher um dos outros candidatos a Belém para levar à pendura, deixa claro que não vai ser possível. Sem querer ser "antipático para ninguém”, mas não esquecendo que um dos motivos que o levou a candidatar-se “é achar muito pouco entusiasmante o leque de candidatos e, para ser mais direto, chatos”, transforma a volta de mota num fim de semana de carro e a resposta que “talvez surpreenda” é: Catarina Martins. 

    Por duas razões: uma é o parlamento nacional, outra o Europeu. A história começa durante os “quatro anos e picos” em que foram deputados da nação ao mesmo tempo. 

    "Inicialmente nem devolvia os bons dias, que era uma coisa que me fazia a maior das impressões.” Tudo começou a mudar em 2023, numa Comissão de Revisão Constitucional que era uma comissão eventual e “reuniu durante três ou quatro meses”. 

     “A Catarina Martins representava o Bloco de Esquerda nessa comissão, eu representava a IL. E não sei como, porque também nunca explicou muito bem, no meio dessa comissão, ela ganhou, vou chamar-lhe respeito - ou pelo menos consideração - e passou certamente a devolver os bons dias. Criamos outro tipo de relação” que se mantém no Parlamento Europeu, onde são atualmente eurodeputados, "e até provavelmente se aprofundou”. 

    A antiga líder bloquista é "uma pessoa interessante”, garante, "talvez por ser menos dogmática e fechada do que a generalidade das pessoas daquela área política”, o que pode ter contribuído para maior "sucesso enquanto líder do Bloco de Esquerda do que outros tiveram eleitoralmente".

    Cotrim lê sobre... como Cotrim se tornou Cotrim?

    “Uma das vítimas que me custa mais desta minha vida é o tempo para ler.” Está dada a resposta a qualquer questão sobre o gosto pela leitura. E se vencer as Presidenciais, não faltará a Cotrim o que ler, embora não com “tanta graça” quanto a que gostaria, sendo que a pilha de livros “aumenta assustadoramente todos os anos”. 

    Mais: "Fazer uma pergunta sobre livros favoritos, ou filmes favoritos, ou músicas favoritas a alguém com 64 anos é das coisas mais injustas e difíceis que podem fazer. Porque para o bem e para o mal - eu diria para o bem - tenho vivido, lido e ouvido muita, muita, muita coisa boa e fica sempre alguma coisa de fora.” 

    Perante este dilema, o que faz este candidato a Belém? Procurará consensos alargados, devolverá a pergunta para retificação, pedirá a leitura atenta de uma entidade que se dedique a estes temas? A resposta é: nenhuma das anteriores. 

    O que faz é um exercício que garante não ser "narcísico”, mas sim de "puro investimento comercial: o livro que vou levar é o meu.” 

    “Nunca” pensou escrevê-lo, e até “custou um bocadinho” por ter uma “componente autobiográfica grande” e ter, portanto, de falar do próprio. 

    “Aliás, o livro começa exatamente assim, a descrever um episódio que, por motivos, tem até alguma graça visto agora à distância.” Aconteceu quando, na “segunda ou terceira sessão” de terapia, o terapeuta lhe disse: "Homem, abra-se, fale, diga mais sobre a sua vida." A resposta que deu ao terapeuta foi a de que a vida que levou até ali "não tem grande interesse”. 

    Só que a narrativa repetiu-se, mais tarde, com Carlos Vaz Marques, quando este o desafiou a editar o livro desta história. “Quando ele me desafiou para isto, disse-lhe: ‘Ó Carlos, a minha vida não tem interesse nenhum. As opiniões políticas ainda vá que vão vá, agora, a minha vida não tem interesse.’” 

    A resposta de Vaz Marques surpreendeu e convenceu Cotrim: "Eu sou editor. Sei muito bem o que é que tem interesse e não tem. O interesse não depende do interessante, depende do interessado. E dos interessados percebo eu." 

    Olhando para trás, "e pela forma como o livro foi recebido e está a vender”, o candidato viu-se obrigado a reconhecer que "tem muito interesse”. 

    O subtítulo “Os percursos de um político acidental” é da autoria do próprio, mas não o título “Porque Sou Liberal”. A opção pessoal era “Porque Sou o Que Sou”, já que "a parte política é apenas o reflexo das outras coisas todas que uma pessoa foi aprendendo e acreditando durante a vida”. Vê também na obra um “exercício de abertura”, já que está a “pedir o voto, a confiança, às pessoas” e, por isso, tem de reciprocar essa confiança, mostrando que "podem saber da minha vida, sem fazer disso armas de arremesso injustas ou apreciações apressadas. E, sobretudo, podem ver se eu sou congruente". 

    Questionado sobre se é ou não um guião para funções presidenciais, garante que “não pretende ser”. Foi antes um exercício de honestidade que o levou até a aperceber-se de que "precisava de agradecer e de ser mais elogioso” a pessoas que o ajudaram.  

    “Por exemplo, o papel da minha avó, que foi importantíssimo e eu tinha essa noção quando comecei a escrever. Apercebi-me que era dez vezes superior - dez vezes talvez é exagero -, foi muito mais central na minha vida do que eu tinha dado conta.” Comenta que essa é “uma das vantagens de começar a escrever, de pôr no papel as coisas”, já que essas mesmas coisas "encaixam ou, quando não encaixam, vai-se à procura da razão e encontra-se um motivo que de repente dá uma luz diferente à coisa”. 

    No livro não faltam também os “episódios mais negativos” como "os complexos que tinha aos onze ou doze anos” ou as “dificuldades de inserção social”, evitando entrar na "autocomiseração”. 

    No fundo, explica, é uma forma de perceber como é que chegou à pessoa que é hoje, com a idade que tem, mas é também uma prova de que não está na política "por interesse próprio”.  

    "Eu nem gosto de ser fotografado, imagine. Eu era um fotógrafo, um amador bastante interessado, digamos. Gosto muito, muito de fotografia - outra vítima desta minha vida - e os amigos diziam: ‘Pá, tu gostas de tirar fotografias é para estar do lado de trás da objetiva e não do lado da frente.’ E é verdade, eu nem consigo tirar fotografias para os cartazes, depois não consigo olhar. Não gosto da exposição - não gosto e acho que, na realidade, só os muito narcísicos é que gostam. Esta coisa de uma pessoa ter a vida devassada, ter a fama, falarem-lhe na rua a propósito e despropósito não é uma coisa agradável.” 

    O que não o impede de aceitar as “regras” deste jogo que decidiu jogar, já que diz não ter entrado nele para depois as contestar: “Já sabia que isso seria assim. Mas isto para dizer que, fora essas adaptações, nalguns casos difíceis, eu sou aquela pessoa que está ali, não sou mais nem menos.” 

    Sobre o estilo ou comentários sobre ser um “político diferente porque não hesita em falar das coisas que são más notícias ou que não ganham votos", garante que “não é por nenhuma vontade de ser nu e cru”. É antes, explica, "por achar mesmo que as pessoas só conseguem enfrentar e, sobretudo, ganhar os desafios e ultrapassar os problemas se os encararem”. Que é como quem diz que "não vale a pena estar a disfarçar”.  

    Vê na Segurança Social um desses temas, assumindo que é “difícil” falar sobre ela sem ser "carregado” a seguir. "É um tema tramado, até do ponto de vista técnico, e não ganha muitos votos, especialmente em Portugal, um país envelhecido, falar da necessidade de mexer na Segurança Social.” 

    Só que não se sente “bem” a fazer "parte de uma comunidade, independentemente das responsabilidades políticas, em que os jovens que estão a entrar no mercado de trabalho hoje vão ter metade do percentual da reforma que as pessoas que se estão a reformar”. 

    Vão descontar a mesma coisa, vão pagar mais pela habitação, pela saúde, pela educação, vão ter mais dificuldades, vão ter mais problemas de satisfação e de saúde mental, vão ter umas vidas mais desgraçadas - desgraçadas talvez seja exagero, mas mais difíceis certamente do que as da última geração - e chegam ao fim e vão receber metade. Faz sentido para alguém viver uma coisa destas sem tentar mexer? Isto aflige-me e espero não ser o único, é o que eu posso dizer. “ 

    É aqui que Cotrim de Figueiredo volta às bases não só desta candidatura, mas da carreira política, até porque vê o tema como uma “quase questão de boas maneiras”. E leva-nos... à casa de banho. 

    "É como costumo dizer, se toda a gente deixasse a casa de banho pública no mesmo estado em que a encontrou, ela chegava ao fim do dia impecável. Eu tento deixar sempre um bocadinho melhor do que a encontrei, limpo o que os outros deixaram e os pingos de água e arrumo... Se todos fizéssemos isso e deixássemos um país um bocadinho melhor do que o que o encontramos... E ele não está um bocadinho melhor”, lamenta, sem deixa de reconhecer que o mesmo acontece “noutros países europeus”. 

    Defende que estes e outros problemas têm "muito a ver com a falta de coragem dos políticos de tomar decisões difíceis, porque acham que a próxima eleição é mais importante que a próxima geração. Eu não acho”.

    Um álbum ao vivo para quem dá o lugar a outros

    Viremos o disco. Para um dos Genesis. Duplo. E ao vivo. Cotrim de Figueiredo confessa que, para “programas um bocadinho mais sérios” tende a levar “música um bocadinho menos séria” em nome do contraste. Ora, para esta “conversa mais informal”, traz “música mais séria” da “banda favorita” - expressão que assume ser difícil “dizer assim” -, os Genesis. 

    “Acompanharam-me durante a minha adolescência princípio da vida adulta”, explica, e por isso escolheu um "álbum gravado ao vivo, duplo, e que tem trezentas razões pelas quais deve ser interessante”, sugerindo aos ouvintes “mais jovens” que o recuperem como, aliás, se tem visto online. 

    “Há agora uma mania de fazer no YouTube uns vídeos sobre as reações da primeira vez que as pessoas ouvem determinadas músicas, É muito divertido, especialmente para quem conhece a música e aquelas pessoas mais jovens que estão a ouvir pela primeira vez. E há muitos desses vídeos com músicas dos Genesis, alguns deles desta versão ao vivo.” E que versão ao vivo é esta? É de “Seconds Out”, de 1977. 

    Para Cotrim é "talvez dos álbuns ao vivo mais bem gravados ainda hoje”, fruto do trabalho do “mágico da captação de som David Hentschel”, que usou “um dos primeiríssimos estúdios móveis de 24 pistas, que na altura era uma loucura, ninguém via”. 

    As faixas são “quase todas” gravadas em Paris, com duas exceções (Leicester e Glasgow), e o nome é “um trocadilho, porque é uma expressão de boxe”. 

    "Os ajudantes dos boxeurs chamam-se segundos, seconds. E quando está a recomeçar o combate para mais round, o árbitro ou o announcer diz: ‘Os segundos saiam do ringue.’ Seconds out. E como é o segundo álbum ao vivo, é na fase de transição da banda que começou a ter muito sucesso e naquela altura começou a encher estádios e grandes pavilhões, coisa que até aí não tinha feito. É extraordinariamente bem gravado.” 

    Os Genesis estavam, então, na "transição entre a fase  [Peter] Gabriel e a fase [Phil] Collins”, esta é também "a última vez que Steve Hackett é gravado a tocar” com a banda e é também “a primeira vez com o grande e subestimado Chester Thompson na bateria”, rendendo Bill Mumford.  

    “O Chester Thompson era um baterista extraordinário e como o Phil Collins tinha de descer muitas vezes à boca de cena para cantar e para a parte mais de frontman, o Chester Thompson ficava a assegurar a parte rítmica de toda a banda e fazia-o brilhantemente. Fica a dica.” E fica a mala feita.

    Na mala para Belém é um podcast da m80 conduzido por Teresa Mota e Nuno Castilho de Matos, com sonoplastia de Paulo Castanheiro e produção de Margarida Gonçalves. Pode ser ouvido em todas as plataformas de podcast e no site da rádio.

    Para este podcast a m80 convidou os candidatos de acordo com dois critérios: os que estão mais destacados nas sondagens e os que têm apoio de partidos com representação parlamentar. Esta conversa foi gravada em dezembro de 2025, antes do arranque da campanha eleitoral.