Agatha Christie, a eterna Rainha do Crime
A escritora britânica morreu há meio século.
Apesar de ter morrido há cinquenta anos, Agatha Christie continua a ser uma presença assídua.
Rogério Puga, professor da Universidade Nova de Lisboa e investigador na área de literatura e arte, recorda a "Rainha do Crime" - como ficou conhecida - pela versatilidade. Na escrita não se limitou aos 66 livros políciais, - foi contista, dramaturga, poetisa - assinou mais de dezasseis peças de teatro e seis romances publicados sobre o pseudónimo de Mary Westmacott. Por outro lado, continua a escrita de Christie continua a ser adaptada às telas, com filmes e séries, "O Crime do Expresso do Oriente já vai para a quarta adaptação fílmica. Sem falar em séries. Está agora a sair também na Netflix 'Os Sete Relógios' baseado no romance 'O Mistério dos Sete Relógios', de 1926." Tornou-se num ícone pop, conhecida do grande público, mesmo por aqueles que não leem.
"Toda a gente conhece o Hercule Poirot e a Miss Marple, os dois detetives mais famosos criados por Agatha Christie".
A autora "marcou a história do romance policial para sempre e a influência dela será intemporal" e alcançou o estatuto de pioneira no género durante o século XX. Apesar de os best sellers policiais continuarem a sugerir, muitos com influência na Rainha do Crime, "Agatha Christie será irrepetível".
Uma influência que continua presente, quer em readaptações quer em novas criações literárias de crime e policiais. Enquanto uma "mestre do suspense" criava "grandes reviravoltas" e "finais inesperados". As personagens de Agatha Christie fazem com que quase se consiga "entrar dentro do cérebro do Hercule Poirot, um detetive muito intelectualizado, muitas vezes comparado a Sherlock Holmes ou da astuta idosa Miss Marple, que não procura dicas, não faz grande investigação, utiliza só o conhecimento que tem da natureza humana para resolver os seus crimes".
Tornou-se "um nome incontornável no que diz respeito a romances policiais e ainda hoje é uma influência para inúmeros escritores". Surge com características únicas. Há uma diversidade de espaços, uma escavação arqueológica ou uma aldeia idílica inglesa e contextos onde o crime tem lugar. Nunca perde a englishness, ou seja, a influência da cultura e da perspetiva inglesa: "a comida, os hábitos, os comportamentos, a arquitetura e a paisagem natural são todos elementos que a autora soube conjugar de uma forma muito original para a altura".
Surpreendia-se que para os leitores a vítima fosse menos relevante do que o culpado: "dizia que é a inocência que importa e não a culpa, espantando-se por quererem descobrir quem é que cometeu o crime e a vítima ser esquecida e relegada para um segundo plano". A capacidade de gerir o suspense "seduz os leitores" até ao fim, como em 'O Expresso do Oriente' onde no comboio em andamento "cheio de personagens excêntricas" e só no final é descoberto quem é o assassino.
"Agatha Christie, muito associada à imagem da escritora com a máquina de escrever, é não só um ícone cultural, mas também uma indústria cultural que ainda rende muito dinheiro."
A Rainha do Crime detém o recorde do Guiness da autora mais vendida a nível mundial (2.000.000.000 de livros), só atrás de William Shakespear (4.000.000.000 de cópias), com as obras traduzidas para 103 línguas. A autora tem também o recorde da peça que está há mais tempo em cena no Mundo com "A Ratoeira", que está em exibição em Londres há 70 anos. A peça completou mais de 30.000 apresentações em 2025: começou a ser apresentada em West End, no Ambassador's Theatre, a 25 de novembro de 1952 e continua a ser apresentada no St. Martin's Theatre desde 1974.
A própria autora trazia o suspense para a sua vida e usava-o como uma ferramenta. Em dezembro de 1926, desapareceu com o carro após a morte da mãe e de uma discussão com o marido, que lhe pediu o divórcio nesse dia. Tinha acabado de lançar 'O Assassinato de Roger Ackroyd'. Torna-se notícia nacional o veículo em que saiu de casa é encontrado abandonado: a polícia começa a fazer buscas com aviões e milhares de voluntários juntam-se para ajudar procurá-la. Agatha Christie foi encontrada passados onze dias num hotel em Harrogate, Yorkshire, registada com um pseudonimo e a alegar sofrer de amnésia. Um mistério que nunca foi totalmente explicado e deixou dúvidas da possibilidade de uma "armadilha publicitária".
Rogério Puga reconhece à autora a "consciência de que não basta escrever e ser boa no que faz, tem que construir uma persona pública que cative o leitor." Entre o crime e o mistério, fez com que a arte e a realidade se cruzassem constantemente.
