"Há gente subsídio-dependente na direção do Chega"
Autor de "Por Dentro do Chega" vê no partido sinais dos "vícios todos que diz que supostamente combate".
O jornalista Miguel Carvalho, autor de uma investigação que levou quase seis anos sobre as origens e a evolução do Chega até se tornar na segunda maior força política do país, vê, na direção do partido, um dos comportamentos em que este assenta a mensagem política: a dependência de subsídios.
Em entrevista a esta rádio, o autor de "Por Dentro do Chega" afirma que "há gente subsídio-dependente na direção do Chega" e que chegou ao partido num ponto em que "não tinham onde cair morta há muito pouco tempo, nem profissionalmente, nem pessoalmente, nem politicamente".
Essa atração, defende, nasce da "falta de filtro" do partido e da dificuldade que este tem "em atrair pessoas que têm respeito por si próprias".
"Há gente subsídio-dependente na direção do Chega. Isto é preciso dizê-lo com toda a clareza. Tinham as suas vidas viradas do avesso até aparecer o Chega", explica Miguel Carvalho, referindo que o partido permitiu, nestas situações, "um emprego e um sustento" a partidários que "estarão lá e serão sempre os mais fanatizados até ao dia em que lhes toque a eles".
O partido liderado por André Ventura acaba, assim, por ter "os vícios todos que diz que supostamente combate", ao mesmo tempo que se tornou "menos livre do que era no início, porque as vozes críticas foram sendo afastadas".
Uma velha luta
O líder do Chega tem feito da "luta contra a subsídio-dependência" uma das bandeiras políticas com que se apresenta ao país, com destaque para o Rendimento Social de Inserção. Em 2022, defendia que "a verdade é que anda uma grande parte do país a viver à conta" de subsídios e que faltava "fiscalização" dos recebimentos.
Reconheceu depois em declarações ao Público que não tinha dados sobre o número de casos de subsídio-dependência que dizia existirem no país, culpando a falta de fiscalização.
Ainda assim, não tem deixado cair o tema e na Convenção do Chega em janeiro do ano passado afirmava mesmo que, se o partido vencesse as eleições, a "fiscalização à subsidiodependência" seria uma prioridade: "Todos os anos, milhões dos nossos impostos para muitos que não querem fazer nada, em Portugal", dizia.
Em agosto deste ano, numa entrevista à CNN Portugal, garantiu que a situação continuava ao ser questionado sobre uma notícia do JN que dava conta da diminuição do número de beneficiários do RSI.
À época, Ventura respondeu que a notícia espelhava apenas um valor "atribuído, em percentagem, mais baixo do que nos últimos anos", mas não "que há menos beneficiários líquidos, nem que os problemas que temos com essa subsídio-dependência’ acabaram".
A publicação de verificação de factos Polígrafo aponta que a notícia do JN espelha exatamente que “o universo de beneficiários do RSI é cada vez mais pequeno", com o subsídio a chegar então a "pouco mais de 172 mil pessoas" e com um valor médio de 155,96 euros.
Entre janeiro de 2024 e 2025, o número de beneficiários caíra em 6077 e, em relação a 2010, eram quase menos 355 mil pessoas.

