O que aconteceu ao rock n' roll? Esteve em Vilar de Mouros!
E arrastou 60 mil pessoas ao longo dos três dias. Nesta noite, Iggy Pop reinou, os Bauhaus seguraram a coroa.
60 mil pessoas ao longo dos três dias no EDP Vilar de Mouros. A maior enchente foi para Iggy Pop.
Eram 23h30 quando o explosivo "padrinho do punk" subiu ao palco de Vilar de Mouros onde tinha estado em 2006. James Newell Osterberg Jr. não chegou de tronco nu, mas o casaco preto que vestia só o cobriu nos primeiros dois minutos. Nunca dura muito. A personificação da condição libertadora do rock n' roll estava entre nós. Vénia. Não é exagero. Iggy Pop é quase uma figura mitológica cujo maior charme é, ironicamente, o de ser uma figura absolutamente humana. Ao vivo é o homem que, além de muito provavelmente ter inventado o stage diving, untava a cara com óleo para colar purpurinas ou barrava-se em manteiga de amendoim antes de voar para os braços do público. É certo que agora os movimentos estão ajustados ao que o corpo de 75 anos o permite fazer, mas a garra continua jovial. A vontade de atacar o palco permanece igual: selvagem. Basta ligar os amplificadores Iggy Pop acontece.
O histórico, que andou a banhar-se no sul do país antes de rumar a norte, entrou em palco com a sobredosagem de energia habitual para arrastar a multidão para o tipo de rock que profetiza há meio século. Rock cru, suado, de proximidade - pele com pele. O homem chegou irrequieto, aos saltos, a andar de um lado para o outro, ao mesmo tempo que a banda - com sopros, guitarra, baixo, teclas e violino - tocava o início de Five Foot One, do disco "New Values" de 1979.
T.V. Eye e I Wanna Be Your Dog, com o carimbo dos Stooges, foram servidas a seguir. The Endless Sea - do disco New Values - Lust for Life e The Passenger - do álbum Lust For Life - arrebitaram ainda mais o público devoto que Iggy Pop tinha aos pés. Mr. James balança a anca, dá murros no ar, anda pelo chão, acena, ergue o microfone, contorce o corpo, sorri e manda beijinhos. Até nos falta o fôlego só de o acompanhar com o olhar mas recuperamo-lo logo a seguir para cantar com ele - the man.
"Sei que já sou um rapaz velho mas antes de morrer quero levar-vos para uma Death Trip", disse à multidão festivaleira antes de atacar o tema com o mesmo nome da fase Iggy and The Stooges.
Fun House e Mass Production soltaram-se a seguir do alinhamento. A mais recente Free, com a qual Iggy Pop confessa que quer ser livre - quem não? - fez a transição para Gimme Danger, outra relíquia dos Stooges. "Wow, isto assim faz com que a vida valha a pena", desabafou perante um público rendido ao seu rei (demasiado irrequieto para segurar a coroa) que logo depois se sentou para cantar I'm Sick of You - outra da fase Iggy and the Stooges. Down on the Street veio a seguir. Search and Destroy fechou o concerto, com outra vénia no final - mas não a nossa. Foi a vénia (demorada) de Iggy ao seu público. Iggy, o sobrevivente. Iggy, o imortal.
Esta não foi a primeira vez que o magnético e taciturno Peter Murphy esteve no palco de Vilar de Mouros. O denso e sombrio vocalista dos Bauhaus esteve no festival minhoto a solo, em 2005, e com David J, o baixista da banda, em 2018 - na altura para a celebração dos 40 anos da formação do grupo inglês. Em 2019, Daniel Ash (guitarra e saxofone) e Kevin Haskins (baterista) - os restantes elementos do core Bauhaus - juntaram-se para voltar aos palcos. Reunião que hoje meteu os seguidores do coletivo a caminho do Alto Minho. A terceira passagem de Murphy por Vilar de Mouros carrega por isso um simbolismo histórico extra. Veio com os Bauhaus - lendas do submundo gótico e uma marca indelével da fase pós-punk do início da década de 80.
O quarteto inglês subiu ao palco trinta minutos depois da uma da manhã e depois do alvoroço provocado pelo indomável Iggy Pop. O preto foi a cor dominante nas roupas dos quatro músicos, porém, elegantemente pontuada com brilho. Peter Murphy, que chegou a segurar o seu magistral ceptro que ocasionalmente apontava para o público, entrou com passadas demoradas, austeras. Peter Murphy, em boa forma tal como todos os outros, ora ergue os braços para o céu ora trespassa o público com teatralidade no olhar ora abre os braços e demora-se a olhar para cima.
Rosegarden Funeral of Sores, versão de John Cale (Velvet Underground) abriu o alinhamento que andou pelos cinco discos da banda de Northampton. Double Dare, In the Flat Field e A God in an Alcove - do primeiro disco In the Flat Field (1980) - ouviram-se a seguir.
A God in an Alcove, In Fear of Fear, Spy in the Cab, She's in Parties, Kick in the Eye, Bela Lugosi's Dead, Silent Hedges, The Passion of Lovers, Stigmata Martyr e Dark Entries foram as escolhidas até ao encore que teve Adrenalin e três versões: Sister Midnight (de Iggy Pop), Telegram Sam (T-Rex) e o culminar óbvio de uma noite de reis: Ziggy Stardust, de David Bowie.
Antes da "aparição" Iggy Pop foi o português Paulo Furtado quem dominou (e de que maneira!) o palco. O rock n' roll de The Legendary Tigerman sobreaqueceu o recinto minhoto, com passagem por temas Naked Blues, Black Hole, Walkin' Downtown, Motorcycle Boy, Dance Craze ou 21st Century Rock N' Roll.
Noite marcada também pelo concerto dos Blind Zero que subiram ao palco do Vilar de Mouros para apresentar, em estreia absoluta, temas do disco que vão editar em breve. "Courage and Doom", assim se chama o novo registo, tem lançamento previsto para este ano. Os algarvios The Mirandas foram os responsáveis pela abertura do palco.
