Slow J no Cooljazz: a arte de nos mostrar quem somos 

    Casa praticamente cheia para receber o rapper de Setúbal. Antes atuou Silly. O Ageas Cooljazz decorre até 31 de julho, em Cascais.

    Mais uma noite de celebração da música portuguesa no Hipódromo Manuel Possolo, o que é hábito acontecer no festival de Cascais.  

    Foi também a noite da estreia de Slow J e de Silly no festival que ocupa aquele espaço ao longo do mês de julho. Pelo Cooljazz ainda vão passar os Tindersticks e Ganso (26 de julho) e Masego e Amaura (31 de julho), entre outros

    Slow J entrou no palco por volta das 22h30 para aquecer o espaço numa noite particularmente fresca. Por essa altura, a relva e uma das bancadas laterais do espaço estavam praticamente todas ocupadas. As palmas e a aclamação à chegada do músico de Setúbal emitiram a primeira onda de calor no recinto. 

    No Cooljazz, João Batista Coelho honrou o percurso artístico de dez anos, mas foi, sobretudo, "Afro Fado" - o aclamado disco que editou em 2023 - que ocupou, naturalmente, mais espaço no alinhamento. O registo, que bateu um recorde no Spotify logo no dia em que foi lançado e que foi apresentado em dois concertos esgotados na ampla MEO Arena, esteve representado por onze temas. Preciosidades mais antigas ou temas em que colaborou compuseram o resto da setlist pensada para Cascais. 

    Slow J é o tipo de criador que consegue expandir-se para o mainstream sem que tenha de fazer desvios na integridade artística que o edificou na música portuguesa. Mesmo a trepar tops ou a lotar as maiores salas portuguesas, o músico mantém a espinha dorsal na intenção de criar e a honestidade nas mensagens que traz ao peito. É um explorador minucioso de sons e usa o ofício para unificar culturas irmãs, por exemplo. Tem profundidade nas reflexões, sejam estas sobre si ou sobre o que o rodeia - e faz-nos pensar.  

    Sonha alto e recomenda a todos que o façam. Pede que sonhem sem entraves ou pudor.  "É muito importante acreditarmos nos nossos sonhos. Sigam o vosso coração. Acreditem nos sonhos dos vossos amigos. Apoiem os sonhos de quem está ao vosso lado", disse ontem ao público de Cascais. Quando fala de "Afro Fado", por exemplo, Slow J sonha. Em entrevistas recentes, confidenciou que o disco é (entre outras coisas) o lugar onde "imagina um país do futuro onde a cor da pele não é uma questão". Um país sem muros, conectado organicamente entre si e orgulhoso da riqueza das fusões culturais que o foram tecendo ao longo dos tempos. 

    O concerto começou com um pulo a 2017 e ao álbum de estreia "The Art of Slowing Down". 'Intro' e 'Casa' são as primeiras a saltar do alinhamento. A solenidade mais tradicional da guitarra portuguesa flui com as texturas mais quentes de África, que, por sua vez, cruzam-se com os sons das esquinas mais urbanas. 

    "Esse é o meu fado, esse é o meu semba", canta o músico - filho de mãe portuguesa e pai angolano - que mistura na música a identidade que lhe bate no coração. 

    "Estão acordados?", pergunta, às tantas, enquanto ginga e sorri. Em 'Where U @' - a primeira de "Afro Fado" - contempla, com demora, o mar de gente. 

    Créditos das imagens: Sarahawk/Cortesia Ageas Cooljazz

    "Cascais, já deu para perceber que hoje estamos em família", diz ao público antes de entregar a voz a 'FAM' (tema que partilha com Papillon e que incluiu no álbum "You Are Forgiven"). A canção acaba com as proezas de Luís Delgado no posto da bateria - um dos solos da noite. O espaço que dá aos músicos parece ser vital para Slow J. Enaltece-os sempre que pode, cruza cumplicidades com cada um em vários momentos e orquestra os aplausos para todos.

    Regresso a "Afro Fado" com 'Cabeça', 'Pirâmide', 'Fogo', 'CorDaPele' e 'Ultimamente'. "Cascais, antes de continuar quero agradecer-vos outra vez. Temos a melhor profissão do mundo e é isto é o que faz com que valha a pena", confidenciou entre canções.  

    Cascais ainda escutou 'Às Vezes', 'Teu Eternamente', 'Sem ti', 'Nada a Esconder', 'Reza', 'Fome' ou 'Water' - esta última de Richie Campbell que a partilhou com Slow J e com Lhast. 

    Houve ainda passagens por 'Estrada' (que juntou Slow J a Mizzy Miles e a ProfJam) ou '3,14' (que o músico dividiu com Gson e Sam The Kid) e um cuidado especial ao falar de 'Terra'. "Não há canção mais bonita para ouvir-vos a cantar. É muito especial quando cantam esta canção", contou a quem ali estava. 

    'Também Sonhar' - com a voz etérea e eterna de Sara Tavares a ecoar pelo recinto - ou 'Sereia' ficaram guardadas para o encore que ontem à noite teve uma surpresa. "Vamos tentar uma coisa. Isto é arriscadíssimo!", avisou o artista setubalense antes de convocar a cumplicidade da banda para 'Champions League' - tema ainda fresco que partilha com Mizzy Miles e Gson. "Desta vez, fomos bem sucedidos", confessou após o "salto" mais arriscado.  

    Em cima dos acordes iniciais de 'Tata', Slow J voltou a gabar a banda. Com o entusiasmo no pico, pediu novamente aplausos a Rui Poço (guitarra portuguesa), Jorge Almeida (guitarra), Luís Delgado (bateria), Diogo Seis (baixo) e Hugo Lobo (teclas). "Isto é uma família. É uma honra poder tocar com músicos destes", sublinhou alto o suficiente para chegar a todos os cantos do recinto. O single de "Afro Fado" - o último tema da noite - juntou as vozes de todos. Antes de sair, Slow J voltou a agradecer à multidão.