"Venham cá trazer as telas das campanhas eleitorais. Já não são precisas e ajudam a tapar telhados"
Nuno Ferreira está há três dias a receber e organizar ajuda junto ao estádio municipal de Leiria e nota que está a faltar material para recuperar telhados de pessoas como António Jorge Lisboa, que lamenta um distrito "fustigado".
Não foi por falta de outdoors, os gigantes cartazes com caras de candidatos, que a segunda volta das Presidenciais teve de ser marcada para domingo. A primeira não serviu para encontrar um candidato com apoio maioritário entre os eleitores, mas agora o apoio de que se precisa é outro, e pode ser dado pelos candidatos.
"Apelo às pessoas que têm aquelas telas das campanhas eleitorais, dos outdoors. Ontem uma carrinha de uma câmara municipal, veio cá trazer todas as telas dos outdoors das campanhas eleitorais. Já não são precisas, mas ajudam imenso a tapar os telhados", explica Nuno Ferreira, que está "há mais de três dias" a ajudar a recuperar a região de Leiria.
Junto ao estádio municipal começou por ajudar na "parte da recolha de produtos alimentares", descarregando donativos. Passou para a "logística de materias de construção" no segundo dia e é aí que tem ajudado a receber telhas, carregar lotes e coordenar pessoas.
Um dos trabalhos específicos que tem feito é "aceitar os vários tipos de telhas" que ali chegam de diversas partes do país e são depois distribuídas em paletes. São dias "cansativos", mas sempre feitos "em espírito de missão". Diz que "o país precisa de nós e estamos cá para isso". E Leiria também precisa do país.
Nuno Ferreira conta que a região já "forneceu telhas para todo o país", já que tem uma "base de argila" e por isso havia ali "dezenas de fábricas" que cobriram os telhados nacionais.
"Com o andar dos tempos, as empresas faliram, reduziram o número" e desapareceram da região alguns tipos de telhas. Mas não do país. E como não desapareceram, há "muitas pessoas voluntárias, de vários pontos do país, que trouxeram telhas desde Mirandela, Vila Real, Viseu, Aveiro, Torres Vedras, ou Sintra", munidas das "telhas que tinham lá em casa". E quem foi atingido pela tempestade também se faz acompanhar das poucas telhas que lhe restaram para tentar encontrar material compatível.
Tem sido possível fazer o trabalho, garante Nuno, mas há "um problema": só está a ser possível entregar 30 telhas a cada pessoa, mas há telhados em que "dezenas ou centenas de telhas desapareceram". Ou seja, 30 telhas "não é muito".
E é aqui que entra o que sobrou da campanha eleitoral: as telas que sobraram servem para "tapar telhados". O apelo é que as que sobram sejam levadas a Leiria ou a locais de ajuda para serem uma "mais-valia" para quem delas precisa. "Faço o apelo a quem tem essas telas: já não vão ser necessárias, tragam-nas que as pessoas precisam. Nós não temos telhas."
"Não sei quem é que vai aguentar isto"
António Jorge Lisboa é uma das pessoas que tenta encontrar telhas "pela primeira vez". A casa onde vive na freguesia dos Milagres, em Leiria, foi "um bocado afetada" pela depressão Kristin, mas reconhece que "há aqueles que tiveram pior, infelizmente".
Está a tentar levar a situação "com calma" e com a perspetiva de que "a vida continua", mas queixa-se de alguma falta de apoio, a começar pelos políticos "que deviam estar em primeira mão" em situações como a que se vive na região.
"Não temos geradores, não temos nada. Ninguém diz onde é que se pode comprar e as pessoas nem têm capacidade de comprar. Quem pode, compra. Quem não pode, morre na praia. O pequenino, o mexilhão é o primeiro a morrer", lamenta, acusando a política de não se "interessar pela gente", mas sim pelos "votos no dia 8", data da segunda volta das Presidenciais.
Para ter energia em casa precisou de um gerador e defende que Portugal deve soltar-se da "teia" dos cabos de energia elétrica.
"É preciso passar a eletrificação pela terra, tudo o que é média e baixa tensão pela terra", à semelhança do que diz ter visto noutros países europeus onde trabalhou.
De volta à terra, mas no sentido de local de onde se é, António Jorge não tem dúvidas de que todo o distrito de Leiria foi "fustigado".
"É uma miséria, um desgaste, são milhões e milhões. Não sei quem é que vai aguentar isto, não sei", confessa.
Nove pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois três óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 69 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.

