Florence Welch no MEO Kalorama: "deram-me tanto esta noite. Obrigada"

    A cantora inglesa, que voltou hoje aos palcos depois de um problema de saúde, celebrou a vida com os milhares que tinha aos pés no Parque da Bela Vista.

    Foi o segundo dia da edição número dois do MEO Kalorama, festival que está montado no Parque da Bela Vista, em Lisboa, e ali vai ficar até sábado, 2 de setembro. A edição de 2023 ainda está em andamento, mas a organização já anunciou as datas para 2024. A 3ª edição do festival lisboeta está marcada para os dias 29, 30 e 31 de agosto. Já pode anotar na agenda.

    Em andamento está também a máquina Florence + The Machine, que recentemente teve de parar devido a um problema de saúde de Florence Welch. O concerto desta noite foi o primeiro após a cirurgia a que a britânica foi submetida e que lhe salvou a vida, como disse a própria quando deu conta do seu estado de saúde nas redes sociais. Francamente grata por ainda estar cá, Florence Welch celebrou a vida no concerto que esta sexta-feira encheu as colinas do Parque da Bela Vista e os corações dos milhares que saíram do recinto empoeirados, é certo, mas sobretudo empoderados de bons sentimentos. 

    Florence Welch é uma espécie de estrela guia. É uma maestrina de emoções e coreógrafa da libertação da alma. Mulher suave nos gestos mas feroz nas convicções que moldam a arte que transpõe para o palco, seja no canto ou na dança. O palco é o chão usa para dançar mas também é "altar" do culto florenciano que acolhe os fãs de braços abertos para logo depois os convidar para uma dança purgatória e os alumiar para um final feliz. 

    A máquina instrumental acompanha-a de forma irrepreensível, mas o espetáculo cresce nas mãos da inglesa, que hoje chamou a amiga Ethel Cain (que atuou no palco San Miguel) para uma angelical versão acústica de Morning Elvis, canção de Dance Fever, o álbum mais recente que dá nome à digressão. Já durante a tarde - e para surpresa de muitos - tinha sido Florence Welch a visitar o palco onde estava a atuar a cantautora norte-americana. A artista britânica reproduziu o momento, com orgulho e carinho, na conta de Instagram.


    A intensidade tribal de Heaven Is Here abriu o concerto da noite. Ovação na entrada em palco da cantora inglesa que, hoje com um vestido esvoaçante preto, ergueu os braços ao céu no momento do reencontro com o público, com quem ia cruzando o olhar, de forma contemplativa e honestamente agradecida, ao longo da hora e meia que esteve em cima do palco. 

    King, outra do último álbum, soltou-se a seguir e a antecipar a mais antiga Ship to Wreck, que propulsionou os primeiros saltos da cantora e dos milhares que ocupavam o recinto. Free - uma autêntica prece de libertação - cumpriu o seu próprio desígnio e meteu toda a gente a dançar, em comunhão e liberdade, para rejubilo da mulher, de figura esguia e de presença magnética, que hoje precisou que os fãs a envolvessem num fraterno "abraço de grupo".

    O Parque da Bela Vista escutou depois Hunger, que a inglesa começou a cantar debaixo de um suave fio de luz, e Dream Evil Girl. Foi também nessa altura que Florence Welch desceu para as filas da frente para estender as mãos aos que ali estavam e para abraçá-los, debruçando-se depois sobre a maré de gente e erguendo-se logo a seguir para dar espaço à voz que segurou nas alturas em vários momentos. 

    "Muito obrigada. É muito bom voltar a estar convosco", disse com ternura na voz. "Estou frágil mas aqui sinto-me em segurança e segura. Obrigada pela vossa energia. Hoje só queria que alguém me pudesse dar a mão durante todo o espectáculo", confidenciou antes de chamar ao palco Ethel Cain. "Tenho cá uma grande amiga. Vai cantar a próxima comigo". A versão partilhada de Morning Elvis, com as duas cantoras de mãos dadas, terá sido, por ventura, um dos momentos mais bonitos e arrepiantes da edição deste ano do festival.   


    "Estou viva!", exclamou Florence Welch logo depois. "Foi por pouco", disse-nos, com gratidão no olhar e a mão encostada ao peito. "Estou muito grata por estar aqui", acrescentou antes de espalhar êxtase com You Got the Love e seguir caminho com Choreomania e com o acelerado Kiss With a Fist que a meteu a sapatear, de forma frenética, desafiando de imediato o público para lhe seguir o exemplo. E é claro que o público desatou a sapatear também. "Estão a divertir-se? Ninguém vem a um festival para ficar quieto", disse ainda durante a canção de Lungs - o disco de estreia de 2009. 

    Dog Days Are Over ofereceu um momento de saudável conexão humana e sem telemóveis a atrapalhar os afetos. Florence Welch, que pediu a todos para guardarem a tecnologia no bolso, pediu depois aos que ali estavam para que expressassem amor pelos que tinham ao lado. A seguir, veio o salto da purga. "Exorcizem a tristeza, algo ou alguém que perderam. Deitem tudo cá para fora", disse a cantora que, depois de orquestrar o salto que milhares deram ao mesmo tempo, percebeu que tinha provocado "uma tempestade de pó", como salientou isso mesmo no final do tema, com um riso infantil. "Obrigada. Senti tudo. Senti a vossa energia com poder de cura".

    Já mais perto do final, o pó do recinto fundiu-se com o pó cósmico da balada Cosmic Love. "Se têm uma luz, ergam-na agora", pediu a britânica que transformou as colinas do parque numa constelação improvisada, enquanto rodopiava como se fosse a bailarina de uma caixa de música vintage. Uma bailarina viva, solta e emocionada. 

    My Love e Restraint ficaram para o fim, antes do encore e de mais uma declaração de afeto de Florence Welch ao público do MEO Kalorama. "Estava tão nervosa com este espetáculo e vocês fizeram com que fosse maravilhoso. Não podia ter pedido um público mais quente", confidenciou.

    A relíquia Never Let Me Go, resgatada recentemente para brilhar ao vivo e cujo refrão ficou entregue às vozes do público, veio antes da purga maior - o esperançoso Shake It Out e de Rabbit Heart (Raise It Up) que ficou guardada para o fim.

    "Deram-me tanto esta noite. Obrigada. Muito obrigada. Tomem conta uns dos outros", disse Florence Welch por último, despedindo-se com uma vénia convicta perante os milhares que esta noite lhe estenderam a mão.