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Gonçalo Palma
10 julho 2024, 02:52
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Air: noite de lua cheia em Cascais

Air: noite de lua cheia em Cascais
Gonçalo Palma
10 julho 2024, 02:52
Álbum "Moon Safari" foi tocado na íntegra no dia de abertura do festival Cool Jazz.

A noite de hoje foi uma viagem musical de Air bus de uma frota espacial imaginária de 1998, o ano do álbum que se celebra, “Moon Safari”. O 25º aniversário do disco que marcou o final dos anos 90 é a efeméride, mas na verdade “Moon Safari” já tem mais de 26 anos – mas isso agora pouco importa.

No recinto do festival Ageas Cool Jazz – o Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais – a missão lunar é cumprida pelos dois astronautas musicais de sempre, Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel (os membros fundadores dos Air), acompanhados por um terceiro membro na bateria.

A primeira etapa de “Moon Safari” é a faixa de abertura ‘La femme d'argent’, um instrumental em voo planante que faz a circum-navegação pela lua, com vista para a azul Terra. Nicolas Godin é o comandante do baixo, Jean-Benoît Dunckel é o homem do módulo lunar dos sintetizadores, que trata como um laboratório de experimentação. O tema é uma electrónica suave com o tal french touch, um perfume de suavidade àquela electrónica tão desapressada.

À segunda música, vem a sacudidela de ‘Sexy Boy’, talvez o tema mais popular dos Air, com Jean-Benoît Dunckel em vocalização distorcida e hermafrodita, a parecer uma mulher-robot a cantar. Os fatos dos três músicos são brancos, as luzes estão azuladas, falta só o vermelho para completar as cores da bandeira francesa, mas esse vermelho foi todo espanhol horas antes, no relvado, no Europeu de futebol.

Na canção ‘All I Need’, Jean-Benoît Dunckel já não tem arcaboiço para uma voz feminina demasiado carnal para ser robotizável, numa soul caída do futuro como um meteorito.  A tal voz feminina, de Beth Hirsch, sume-se em Cascais num sample fantasmagórico e efémero que deixa o puzzle dos versos por fazer.

Depois, ‘Kelly Watch The Stars’… enquanto nós vemos um céu cinzento. Para vermos as estrelas temos mesmo que fechar os olhos e sentir o céu estrelado nos nossos ouvidos. O céu está encoberto, a lua ainda nem sequer chegou ao quarto crescente e no entanto é noite de lua cheia no palco dos Air. ‘Kelly Watch The Stars’ é uma das canções bandeira do álbum que marcou o final dos anos 90, “Moon Safari”.

Chegamos a ‘Talisman’, o ecrã flameja com as cores do sol e as figuras dos três músicos tornam-se silhuetas escuras de um palco lindíssimo, numa beleza só superada pela tal eletrónica planante e suave.

Chega-se à música nº 6, Remember, e o cumprimento ordeiro das faixas torna-se previsível ao ouvido que está habituado ao álbum “Moon Safari”. Talvez falte mais surpresa e desordem, mas a experiência tridimensional do álbum não está má de todo.

You Make It Easy é um dueto entre a voz sob o efeito de vocoder de Nicolas Godin e os falsetes de Jean-Benoît Dunckel, quando no ecrã atrás, a constelação de luzes adquire uma atmosfera natalícia. ‘Ce matin-là’ é mais um instrumental a caminho da iazzoesfera, com Dunckel a substituir o trompete por efeitos especiais de sintetizadores.

Nessa viagem ao lado soturno e profundo da lua do segundo lado de “Moon Safari”, as luzes cintilam mais na escuridão, tal como os sons teclados. Tudo cintila. O céu continua estrelado no palco dos Air, ou será antes um zoom microscópico a uma bola de espelhos? Talvez seja isso, um zoom microscópico a uma bola de espelhos. Le voyage de Pénélope – também suave e planante - assinala o fim do álbum e, na verdade, a primeira parte do espetáculo.

Se pensavam que a segunda parte do espetáculo era só o resto de algo muito bom, enganaram-se. O melhor estava para vir: uma viagem igualmente espacial, mas mais dispersa pela restante discografia dos Air. Em Radian, as cores garridas do sol fervem no ecrã, com Nicolas Godin na guitarra acústica e os Air outra vez a esvoaçar, mais a usufruir da panorâmica do que a ter pressa em chegar a algum lado. 

A forma da canção acorda da hibernação em Venus, e prolonga-se noutro calmante perfumado, Cherry Blossom Girl. Depois, o público rejubila quando reconhece a música do filme de Sofia Coppola, Virgin Suicides. A Jean-Benoît Dunckel fica só a faltar a cabeleira loira para completar a imitação carnavalesca de Richard Clayderman, com um número de piano ao estilo do seu compatriota e com indumentária de galã de roupas brancas. Mas a viagem é mais etérea e celeste para as irmãs suicidas do filme de Sofia Coppola.

Don't Be Light é o momento de rock & roll da noite, com o baterista a galopar, depois de tanta suave marcha, e com Godin a fazer-se de solista da guitarra elétrica. Mas aquele fundo cinematográfico mantém-se e os Air mantêm o aprumo das camisas brancas, como quem vai para a missa do crisma.

O encore acontece já depois de uma debandada que desfalcou a plateia sentada. Não sabem o que perderam. Alone in Kyoto faz-nos descobrir que o Jardim do Éden tem xilofones e os Air são também uma fábula, no momento mais bonito do concerto. Até poderia ser o final perfeito, mas os Air quiseram ir para lá da hora e meia, com Electronic Performers, quando Godin se torna um monstro robótico no vocoder, enquanto um edifício de luzes faiscava descontroladamente. 

Este espetáculo é a maturidade visual e megalómana que os Air não poderiam ter há mais de vinte anos quando lançaram os álbuns que alimentaram o alinhamento: “Moon Safari”, “The Virgin Suicides”, “10 000 Hz Legend” e “Talkie Walkie”. Não se celebrou apenas “Moon Safari”, homenageou-se esses anos dourados entre 1998 e 2004.