"As coisas que nos separam não são coisas sobre as quais não devemos falar. São coisas sobre as quais devemos aprender"

    Uma receita para unir o país e um livro contra o medo na mala de Catarina Martins para Belém.

    Catarina Martins tem 52 anos. Se viajasse do Porto, onde nasceu, para Belém demoraria pouco mais de três horas de carro. Um pouco mais se escolhesse o Alfa Pendular, e à volta de quatro horas se escolhesse um autocarro expresso. De avião, é coisa para demorar uma hora. Escolhesse o que escolhesse, tem a mala feita, mas não fechada: e por isso, aproveitamos para espreitar lá para dentro e perceber o que por lá anda. E por quê. 

    A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda foi desafiada – como todos os adversários - a escolher cinco objetos para levar para o Palácio de Belém se se tornar na nova Presidente da República. As categorias são: uma fotografia, um prato, um objeto, um livro e um álbum.

    A antiga coordenadora do BE promete sentar-nos à mesa em torno de um prato versátil, mostra um momento marcante da vida familiar e um álbum que tanto dá para miúdos como graúdos.

    Nasceu pouco mais de meio ano antes da Revolução do 25 de abril e deve o nome a Catarina Eufémia. Ainda criança viveu em São Tomé e em Cabo Verde, mas voltou a Portugal com nove anos. 

    Política e atriz, foi líder bloquista mais de dez anos e por estes dias é eurodeputada. Central nos acordos que permitiram a chamada Geringonça, tem estado na linha da frente em debates sobre direitos laborais, habitação ou igualdade de género.  

    Vê o Presidente da República como alguém com a “responsabilidade de manter o Estado de direito democrático” e de garantir que, haja ou não visões diferentes sobre a economia, ou a sociedade, se une um país em torno do respeito, direitos e liberdades: “Isso é que faz uma democracia.” 

    Nota em Portugal “um momento muito complicado em que as pessoas “sentem que lhes estão a tirar tapete de debaixo dos pés no acesso à saúde e no acesso à habitação”.  

    "Do que nós precisamos para as pessoas serem livres e serem iguais é que elas tenham acesso àquelas coisas básicas, não é Se eu estou doente, tenho a certeza que tenho acesso à saúde. Tenho um teto onde morar. O trabalho, o meu salário deve servir para as despesas fundamentais”, e Catarina Martins sente que "estas coisas não estão garantidas e, portanto, isso é um problema”. 

    Avançou também porque, diz, "há quem queira piorar Portugal e há quem nos queira convencer que nós podemos ter uma vida horrível, mas se pisarmos o pescoço do vizinho do lado, vamos sentir-nos melhor continuando a ter um salário que nos serve para pagar as contas. Isso é horrível, é autoritarismo, é o ódio e isso tem de ser combatido”.  

    Garante que houve esforços à esquerda para encontrar uma candidatura agregadora "que foi trabalhada por pessoas do Bloco de Esquerda, do Livre e do Partido Socialista”. Sampaio da Nóvoa era hipótese, mas “não quis ser candidato e tem todo o direito a não querer ser candidato”. 

    Admite que ser mulher “influencia” tanto quem é como a forma como é vista, mas porque a sociedade é “feita de homens e mulheres”, a pergunta que deixa é porque é que, se o ano em que estamos é 2025, “nunca tivemos uma mulher Presidente da República”.  

    "Se calhar está na altura de ultrapassar” isso, comenta, sem se deixar definir "apenas como mulher”. 

    "Defino-me como tudo aquilo que eu sou, a minha forma de olhar o mundo. Acho até que o facto de eu ser uma pessoa de esquerda, ou seja, que traz essa forma de olhar a vida, que acha que a dignidade de quem trabalha, a dignidade do trabalho, o acesso a serviços públicos, tem de estar no centro do que é a nossa democracia, para que toda a gente tenha condições iguais e toda a gente seja respeitada, é muito importante no momento em que temos um governo tão à direita e até a fazer acordos com a extrema-direita. E, portanto, acho que até para o funcionamento do Estado, ter uma Presidente da República mulher, diria que era um bom passo de civilização, mas é mais do que isso também uma necessidade de equilíbrio do nosso próprio Estado.” Catarina Martins está apresentada, falta saber o que escolheu levar na mala. 

    A fotografia do “privilégio” que é ser mãe

    “Na fotografia não se vê que está muita gente à volta para ter a certeza que este colo corre bem com a recém-nascida.” É um aviso de mãe, mas também de quem sabe que a imagem pública pode ser esmiuçada. 

    A imagem “muito bonita” que Catarina Martins escolhe levar para Belém é a do dia em que a filha mais velha conheceu a mais nova. Têm as duas um "ar muito sereno”. 

    "Eu gosto muito de ser mãe e um dos privilégios de ser mãe, de ter duas filhas, é que uma das coisas mais bonitas é nós vermos a amizade a crescer entre elas e a cumplicidade a crescer entre elas”, confessa. “É dos maiores privilégios da minha vida, mesmo quando pode ser desesperante, porque podem ser cúmplices contra nós em algumas alturas da vida. Mas ver o amor entre elas a crescer, esse privilégio que eu tenho tido, é das coisas mais bonitas da minha vida”. Por isso, as filhas “estariam sempre presentes” em Belém.

    Já adultas, reagiram com “um certo ar de tem de ser” ou de “não há grande solução” à notícia, lá em casa, de que a mãe é candidata à Presidência. E, garante Catarina Martins, “nunca” se candidatou a nada “sem ter apoio lá em casa”. 

    “Também fazem o seu próprio processo político, que é autónomo do meu e que não é necessariamente sempre convergente. E agora têm sido muito solidárias porque percebem como os meus dias são bastante complicados e, quando podem, estão comigo. Sei lá, tenho o jantar feito, às vezes.” 

    Já publicamente “não têm nenhum envolvimento e nunca quisemos que isso acontecesse”. São autónomas, “a exposição pública é da mãe, a responsabilidade é da mãe e o respeito pela autonomia delas e pela autonomia das pessoas que está à minha volta, para mim sempre foi muito importante. Mas têm opinião, claro. Dizem-me o que acharam dos debates, dizem-me o que acharam das entrevistas, eu gosto de as ouvir”. 

    E são duras com a mãe, reconhece. “E ainda bem.” 

    Mas onde cabe o resto do país na fotografia das filhas que acabam de conhecer-se? "Talvez em alguma coisa que tivesse a ver com uma mudança de condições concretas da vida das pessoas.”  

    Um prato de bacalhau que "une o país" 

    “Gosto de cozinhar quando tenho tempo.” Catarina Martins não se esconde dos tachos e  panelas, mas confessa que não é propriamente fã daquele ramerrame de “fazer todos os dias, à pressa”, qualquer coisa. “É terrível. Quando é obrigação, acho que ninguém gosta. 

    Fora isso, há coisas que, garante, faz “bastante bem”. A primeira - “belíssimas sopas” - é assumidamente “muito chata”, mas há mais no cardápio da candidata a Belém: filetes de cavala – porque compra o peixe “diretamente aos pescadores” -, prato que é “difícil de fazer” e acompanha com arroz e tomate. 

    Mas e se tivesse de servir o país, não apenas política, mas também gastronomicamente? Faria "bacalhau com grão.” 

    Defende o prato por ser "bom” e porque "dá para todas as alturas”, já que “tanto pode ser um prato quente no inverno, todo cozido, quentinho (...), como pode ser uma salada no verão”. 

    O grão é estrela porque Catarina Martins é fã de leguminosas. E já que é para servir todos os portugueses, a candidata até admite fazê-lo evoluir para um “bacalhau com todos”. 

    O que a leva a relembrar “uma das refeições bonitas” que fez na vida, a convite de alguém que tinha conhecido “naquele dia”. 

    "Estava a fazer um trabalho sobre os incêndios e fui falar com uma família a quem tinham ardido coisas, para saber como é que estavam. Eles tinham agora uma casa mais pequenina, tinham reconstruído e fizeram muita questão que eu fosse almoçar lá a casa. Eu se calhar escolhi bacalhau com grão - não tinha pensado nisso antes de me perguntarem, mas agora, por causa disto, uni - também porque eles tinham bacalhau com grão e tinham cozido as coisas separadamente. E eu lembro-me que uma das pessoas que estava comigo era vegetariana e como as coisas tinham sido cozinhadas separadamente, ela comeu grão com ovo e batata e não comeu bacalhau e teve a refeição. Eu comi de tudo, porque eu também como peixe. E, de repente, estávamos ali pessoas que nunca se tinham conhecido, diferentes, com histórias de vida muito diferentes, a ter uma das refeições mais bonitas, com uma das conversas que mais me tocou na minha vida, a comer bacalhau com grão. Portanto, sim, acho que o bacalhau com grão une o país.” 

    O anel que foi alfinete e não se esconde de uma bicada 

    “Fiz batota.” A confissão vem logo à cabeça da explicação para o objeto que escolheu levar para Belém. É um anel que também um dia foi cabeça... de alfinete. 

    É pelo menos assim que “reza a lenda” na família de Catarina Martins. O anel era da avó materna e, conta, "começou por ser a cabeça de um alfinete de gravata do meu tio bisavô, que era músico, e que foi ele que educou a minha avó”. 

    A avó, dona original do anel, nascera em Trás-os-Montes numa família “com muitas dificuldades” e a vida acabou por levá-la para o Porto acompanhada pelos tios: "Estudou música, foi professora de música toda a vida e transformou o que tinha sido o alfinete de gravata que o meu tio usava nos concertos num anel que eu me lembro dela usar sempre.” 

    Catarina Martins teve a “felicidade” de conviver com a avó durante "muitos anos”, que é como quem diz "de crescer com ela, de ser adulta com ela” e de partilhar "longas conversas”.  

    Confessa que cresceu com um “certo privilégio” por ser “neta mais velha” desse lado da família, o que lhe permitiu manter uma relação “especial ao longo de muito tempo” com uma avó "muito interessante e muito interessada”, que viu o mundo mudar "sem deixar de ser ela". 

    A influência dessa avó vive até hoje na candidata a Belém. Com ela aprendeu a "nunca fugir das dificuldades” nem das conversas difíceis e a “perceber que podemos sempre pensar onde é que está a coisa boa e trabalhar a partir dela”. Também a “ter sempre planos e resolver as coisas bem, isso é muito importante”. 

    Com a avó e a família "em que se discutia muito a política” e a discordância era comum – algo de que a avó “gostava” -, aprendeu a respeitar "as visões de toda a gente, na política como na religião”, mas de uma forma específica. “Não se fazia dizendo: ‘Não se discute.’” Fazia-se antes “discutindo com enorme cordialidade, respeito e amor. E isso é uma coisa muito importante, que às vezes as pessoas acham que quando nós temos divergências ou não concordamos, então disso não se fala.” 

    Lá em casa “falava-se de tudo” e é esse espírito que com “certeza absoluta” quer levar para Belém. Porque “as coisas que nos separam não são coisas sobre as quais não devemos falar. São coisas sobre as quais devemos aprender como falar para nos respeitarmos uns aos outros quando estamos a fazer. E assim vamos chegar a algum lado.” 

    Uma biografia para não ter medo

    Não faltará a Catarina Martins material para ler se for a próxima residente oficial do Palácio de Belém, mas como candidata que gosta “bastante” de ler, também vai levar qualquer coisa escolhida pela própria. 

    "Já li e acho que é um bom livro de reler” é a primeira pista que dá. Fala de “Quem tem medo de Frankenstein”, uma biografia de Mary Shelley escrita por Clara Queiroz. 

    "Clara Queiroz é uma geneticista portuguesa. Saiu de Portugal durante o Estado Novo, foi para o Reino Unido, fez uma carreira extraordinária na Ciência e, já depois de reformada, começa uma outra carreira, digamos, a estudar a História da Ciência e a estudar percursos de mulheres que ela acha particularmente extraordinárias.” Desse trabalho saíram duas biografias que Catarina Martins diz adorar, uma delas a que leva para Belém.  

    É um livro “muito bonito, porque o Frankenstein foi escrito numa altura em que o mundo estava a sofrer uma revolução extraordinária, em que tudo mudou, porque apareceu a eletricidade” e "mudou a arte, mudou a forma como as pessoas pensavam, mudou a relação entre as pessoas, mudou tudo”. 

    Mary Shelley é, além da autora de “Frankenstein”, também "filha da primeira mulher que escreveu o manifesto feminista”, o que lhe confere "uma história de emancipação, para o seu tempo, extraordinária”.  

    “Agora que nós estamos a viver também um tempo em que está tudo a mudar à nossa volta, estamos em plena revolução tecnológica que está a mudar tanto, acho que ler 'Quem Tem Medo de Frankenstein’ é também uma metáfora destes tempos, muito, muito poderosa. Também esperançosa, porque o medo era grande, mas também era grande a esperança. Portanto, o que nós fazemos com o desconhecido, com o novo em que vivemos, se somos capazes ou não de o transformar numa parte boa de nós, ou se estamos a criar um monstro, é uma reflexão que é muito interessante.”  

    Um disco que voa porque o simples é difícil

    E o que pode ajudar a preencher o por vezes ensurdecedor silêncio dos corredores políticos? Catarina Martins tem "muitas bandas sonoras”, mas leva na mala para Belém o “Disco Voador”, dos Clã. 

    "Fabuloso para a infância”, tem letras de Regina Guimarães - “uma grande poeta deste país” - e, para a candidata à Presidência, "não há nada mais sério do que fazer coisas boas para crianças”.  

    Disco Voador é “feito para crianças”, mas é também uma prova de que "às vezes o que nós achamos que é mais simples é o mais difícil de fazer bem feito”, tanto que "é ouvido por pessoas de todas as idades sem nenhum problema”. 

    O álbum “tem tudo, tudo”. Reconhece que passou "muitas horas da vida a ouvi-lo", fosse com miúdos ou graúdos.

    Desafiada a escolher a que outro candidato o ofereceria, escolhe Cotrim Figueiredo: "Acho que ele teria sentido de humor para apreciar bastante este disco.” 

    Assim, está feita a mala. Leva uma fotografia das filhas de Catarina Martins, bacalhau com grão, o anel da avó que já foi o alfinete de gravata do avô, o livro “Quem tem medo de Frankenstein?”, de Clara Queiroz, e o “Disco Voador”, dos Clã.

    Na mala para Belém é um podcast da m80 conduzido por Teresa Mota e Nuno Castilho de Matos, com sonoplastia de Paulo Castanheiro e produção de Margarida Gonçalves. Pode ser ouvido em todas as plataformas de podcast e no site da rádio.

    Para este podcast a m80 convidou os candidatos de acordo com dois critérios: os que estão mais destacados nas sondagens e os que têm apoio de partidos com representação parlamentar. Esta conversa foi gravada em dezembro de 2025, antes do arranque da campanha eleitoral.