"Quero dar tudo ao presente para que possamos ter um país de futuro do qual nos orgulhamos e onde vale a pena viver"
Um pedregulho e o "melhor álbum português do século XXI" na mala de Jorge Pinto para Belém.
Jorge Pinto tem 38 anos. É o mais novo dos candidatos à Presidência da República e está a fazer a mala na esperança de mudar-se para Belém. De Amarante, onde nasceu, ao palácio são quase 400 quilómetros e quatro horas de caminho, quase cinco se escolher ir de camioneta ou de comboio, tendo em conta as viagens de ligação. O avião Porto-Lisboa é sempre uma opção, mas se fosse a pé - e este candidato gosta de andar – demoraria mais de 80 horas. Quanto andaria por dia fica à discrição do próprio.
Orgulhoso de ter nascido amarantino, já viveu na Lituânia e na Índia. Formado em Engenharia do Ambiente e doutorado em Filosofia Social e Política, quer colocar na campanha temas que o movem, como a ecologia ou os direitos humanos. É ativista desde muito cedo, tanto que aos 12 anos estava num autocarro para Madrid onde iria reivindicar a causa timorense. Não se vê como filho de um deus menor e garante que está na campanha como todos os outros candidatos.
O candidato apoiado pelo Livre foi desafiado – como todos os adversários - a escolher cinco coisas para levar para o Palácio de Belém se se tornar o novo Presidente da República. As categorias são: uma fotografia, um prato, um objeto, um livro e um álbum.
Para isso, propõe-se a servir um prato de bacalhau à moda do pai e da avó, traz a fotografia de um obstáculo e vai sacar d’A Naifa.
Candidata-se a Belém para fazer “menos do mesmo”, que é como quem diz, “diferente do que tem sido o modo de fazer política em Portugal”. Admite que “funcionou durante algumas décadas” e garante ter "muito orgulho” no que o país conseguiu construir "ao longo de cinquenta anos, depois de uma longuíssima ditadura”.
Mas nota um "certo cansaço”, que diz ser visível "pelo crescimento e pelo apoio a projetos políticos anti-republicanos". Para responder a isso, propõe "ser uma pessoa muito mais presente, mais terra a terra, que fala diretamente para as pessoas e sobretudo, que fala das questões que as inquietam, que fala das verdadeiras preocupações do dia a dia e que fala com esperança e com otimismo”. Avisa mesmo que no dia em que os políticos deixarem de ter estes valores e de acreditar "que podem deixar o país num sítio melhor do que aquele que encontraram, então se calhar já não deveriam estar na política”. É por continuar a levantar-se todos os dias a acreditar que pode "fazer de Portugal um lugar melhor para viver” que se candidata à Presidência.
Mas não só. Sentiu que nem o próprio, nem “muita gente” se revia “em nenhuma outra candidatura” e quis apresentar um projeto de esquerda "democrática” que é, em paralelo, “regionalista”, mas “que acredita também no projeto europeu”, que é "ecologista e que percebe o desafio que é - se calhar o maior desafio da nossa era - a adaptação às alterações climáticas, onde Portugal está na linha da frente na Europa dos países que mais vão sofrer com as alterações climáticas”.
Garante que sabe “bem o que gostaria de fazer” logo a partir do primeiro dia no Palácio de Belém, mas não vê estas certezas nem conjunto de visões nos outros candidatos.
"Trata-se aqui também de um conflito de visões para o país e para o futuro do nosso país. E eu sou muito ambicioso em relação àquilo que quero para Portugal. Eu adoro Portugal, eu amo Portugal e não me contento com mais do mesmo. Portanto, também aqui eu quero menos do mesmo. Eu quero ter um país onde não tenhamos medo de ambicionar ser líderes mundiais em algumas coisas. Eu quero um país que, dentro do projeto europeu, indica e guia o próprio projeto europeu nas direções para o qual ele deve seguir. Infelizmente, temos tido governantes, políticos que se contentam com mais do mesmo, que se contentam a seguir políticas e a gerir e a fazer política para o país para o curto prazo.” E é nesta crítica que vê um “luxo” do lado do Presidente da República: pensar o país “um bocadinho a mais médio e longo prazo”. É esse tipo de Presidente que se compromete a ser, um que "vai para lá do simples ciclo eleitoral e pensa também o país no futuro e o pensa com ambição e otimismo”.
A decisão de avançar foi tão difícil quanto “repentina”, confessa, mas tomada em consciência. "Acreditava e defendia que deveria haver uma candidatura, até fora dos partidos políticos, que agregasse as forças progressistas para que pudesse, desde a primeira volta, haver uma candidatura única. Isso não aconteceu”. E foi nesse ponto, perante o campo político já montado, que a “consciência” falou mais alto.
"Não havendo essa candidatura, não havendo quem represente esta visão da esquerda, do meio da esquerda, esta visão que acredita no país, que é ambiciosa", sentiu-se empurrado e "entre uma quinta-feira e um domingo” tomou a decisão.
“Na verdade”, falou com “pouquíssimas pessoas” por saber que "com quantas mais pessoas falasse, em particular da família”, mais lhe diriam para não avançar. "Foi uma reflexão de meses, em relação àquilo que eu achava que era essencial num candidato ou numa candidata. Tendo percebido que esse perfil não tinha quem o ocupasse, a minha consciência obrigou-me a ser eu a tentar ocupar esse perfil.”
Às pedras no caminho também se tiram fotografias
A imagem de Jorge Pinto é pouco clara à primeira vista. Nela vê-se o candidato com óbvia cara de esforço junto a outras duas pessoas. ”Pediram-me não só uma fotografia, mas uma fotografia que retratasse possivelmente uma viagem, uma parte da minha vida importante.”
Jorge Pinto viveu fora do país “uma boa parte” da vida adulta. Começou por sair para fazer Erasmus e daí surgiu a hipótese de fazer a tese de mestrado "na Índia, numa parte lindíssima no Sul, até bastante longe dos centros urbanos”.
“Curiosamente” - porque enquanto se grava esta entrevista chove copiosamente lá fora – a tese é sobre "gestão da água da chuva”.
"Aproveitando o facto de estar na Índia e poder viajar lá, fui a uma serra perto do local onde vivia, num daqueles comboios que muitas vezes vemos nas fotografias nas redes sociais. Lindíssimos, que andam muito devagar, a cerca de dez quilómetros por hora. Um período de chuva intensa fez com que houvesse desmoronamento de terra e, a certa altura, o comboio para e está um pedregulho gigantesco, de várias centenas de quilos, no meio da linha.” O que fez então o agora candidato perante isto? Saiu do comboio “com outras pessoas” para tentar tirar o pedregulho da linha. No comboio "alguém tira essa fotografia - daí a má qualidade, porque eu não consegui encontrar o original - pede-me o contacto e envia-a. Guardei com muito amor”.
Mas há mais para contar desta imagem, já que as três pessoas – Jorge Pinto e dois locais - estão claramente em esforço. Era “uma pedra muito, muito grande”, que obrigou a um esforço repartido por várias pessoas que seguiam no mesmo comboio: "Iam saindo a tentar tirar essa pedra, conseguimos, e lá chegamos ao nosso destino.”
Há metáfora nesta história? Há, e é para "muitas coisas: que devagarinho se chega longe, que o trabalho coletivo às vezes é essencial para retirar obstáculos do nosso caminho e sobretudo que, quando há muita vontade e quando há essa colaboração, conseguimos chegar, mesmo que demoremos um bocadinho mais ao nosso objetivo”.
Se esta é a fotografia que vai para Belém, que fotografia quer Jorge Pinto trazer de lá, daqui a cinco ou dez anos? Gostava que nela se visse um Presidente "presente, que está junto dos portugueses e das portuguesas, onde quer que eles estejam - na diáspora, nas ilhas, no interior - e que está não forçosamente com câmaras”.
Aliás, é neste ponto que admite alguma ironia, já que entende que "essa presença, essa proximidade não precisa de ser feita sempre com a comunicação social atrás. Essa presença e essa proximidade que um Presidente da República tem de assegurar pode ser feita - e deve até ser feita - sem essas câmaras e sem essas máquinas fotográficas, até para permitir que haja um diálogo mais alargado, mais franco entre o Presidente e os portugueses”. É outro dos compromissos que diz assumir, o de ser um "Presidente presente”, mas sem ser "sempre motivo de partilha nas redes sociais ou partilha na comunicação social”.
Quer ser "um bocadinho mais discreto do que Marcelo Rebelo de Sousa”, a quem ainda assim reconhece a capacidade de ter sido “um Presidente que soube estar próximo dos portugueses em momentos críticos”.
À mesa em Murgido com a avó de 99 anos
Presente e próxima é também como Jorge Pinto gosta de ter a avó, hoje com 99 anos, à mesa em Murgido, a aldeia que é casa em Amarante. E nessa mesma casa, o prato que quer levar para Belém “sempre se chamou bacalhau à Murgido”.
O prato é receita da avó, agora na posse do pai que a faz "apenas uma vez por ano, nos Reis”. Acontece que, como viveu fora do país largos anos, vinha a casa por altura do Natal e "na maior parte das vezes, durante os Reis, ainda estava em Amarante”, pelo que podia degustá-lo.
"O meu pai continua a convidar a minha avó, que com 99 anos ainda vem à nossa mesa sempre que pode.” Mas afinal, que prato é este? "Eu acredito que possa ter outros nomes noutras partes no país: uma grande travessa - porque nós somos vários - com lascas de bacalhau bastante grandes, com batata cozida cortada às rodelas grossas, cenoura, couve e ovo - também cozido e cortado às rodelas -, e que vai ao forno com muito molho bechamel. Depois come-se isso diretamente do forno.” É um "bom prato de inverno”, naturalmente associado "sempre primeiro” à avó, depois ao pai e “sobretudo a este período dos Reis, logo ali no pico do inverno, no início do mês de janeiro”.
Acredita que, visto em Belém, o prato poderia unir o país porque "o bacalhau é das poucas coisas que atualmente une os portugueses da esquerda à direita”. E desta vez até tem brinde, não só porque as presidenciais são no inverno e "exigem muita energia dos candidatos”, mas também porque o dia 18 de janeiro é também o do aniversário do pai de Jorge Pinto, atual guardião da receita.
Dar ao chinelo? Não, à sapatilha!
Comido o bacalhau à Murgido, há que digerir. E porque não fazê-lo com uma caminhada? É que o objeto escolhido por Jorge Pinto para levar para Belém está pensado para isso: umas sapatilhas - não ténis, porque falamos de um amarantino - confortáveis.
O candidato apoiado pelo Livre é admirador confesso de andar a pé. Aliás, de andar “mesmo muito a pé”. Nota até, com alguma curiosidade, que o ser humano, “enquanto espécie, fez-se precisamente porque começou a andar a pé e sobre duas pernas apenas, a percorrer grandes distâncias, a estar mais erguido, a ver mais longe e a querer andar. E isto está intimamente associado à curiosidade do ser humano. E nós passamos deste traço da nossa espécie, de andar a pé, a uma fase das nossas vidas onde o fazemos muito pouco. Quando algum de nós diz que vai andar vinte minutos a pé - nem vou mais longe -, a pessoa olha para nós e diz: ‘Vais a pé?’ Já nem digo trinta, quarenta, cinquenta, uma hora, como eu faço, até bem mais do que isso.”
É de tal forma um tema que o “apaixona” que escreveu recentemente "um livro precisamente sobre andar a pé, um ensaio sobre andar a pé”.
Por tudo isto, anda “sempre com calçado confortável, sempre”. Até na campanha, garante, podemos vê-lo "de fato, eventualmente até de fato e gravata”, mas nos pés vão estar "sempre umas sapatilhas confortáveis ou, no limite, até umas botas de caminhada se estiver a chover muito e precisar de ter os pés secos”.
E se quer ser um Presidente realmente presente – como diz querer – sabe que "tem de ser capaz de percorrer muitas distâncias, de ir onde até os próprios automóveis não chegam para estar junto de todos os portugueses”.
Aproveitava ainda para dar um par de sapatilhas confortáveis aos "candidatos presidenciais que parecem detestar Portugal, que falam de Portugal sem praticamente o conhecerem, que não andam na rua, que não apanham transportes públicos, que só conseguem falar com os portugueses com quatro ou cinco seguranças no meio e que falam sempre com ódio ao país”.
Jorge Pinto diz amar Portugal e rejeita até as mensagens de adversários que defendem ser necessário “imaginar” ou “reinventar” o país. "Aquilo que é preciso é descobrir o Portugal que já temos, este Portugal de empatia, este Portugal de entreajuda, este Portugal do amor já existe. Portanto, se calhar, oferecia um bom par de sapatilhas aos candidatos que sempre que falam do país é com aversão e até com certo ódio, para que pudessem então andar mais a pé e ir ao encontro do Portugal que já existe e do qual eu amo profundamente”.
O Estrangeiro, os outros, todos e o privilégio
Palmilhado que está, então, o caminho de Jorge Pinto, sentemo-nos a ler. Pode, ou não, haver dias mais propícios a isso em Belém, mas não é isso que impede este candidato de eleger uma obra para levar na mala.
“Foi um enorme desafio”, mas soube “logo” que teria de escolher algo de Albert Camus, o "escritor e se calhar pensador de eleição”. E o livro que escolheu “nem sequer” é o preferido do autor, mas sim o que deixou maior marca: "O Estrangeiro”.
“É um livro curtinho, lê-se rapidamente e é, no fundo, um ensaio sobre o absurdo. Camus tem ciclos: fez o primeiro ciclo sobre o absurdo, depois o ciclo sobre a revolta e estava a trabalhar no ciclo sobre o amor quando teve um acidente de carro que foi fatal. E, no fundo, aquilo que O Estrangeiro me disse numa fase muito importante da minha vida, mais ou menos quando fui para a Índia, precisamente ali com 20 ou 21 anos, é que as coisas até podem parecer absurdas, até podem, no limite, ser absurdas. Mas apesar de tudo isso, é preciso agir para viver. É preciso que nós reconheçamos que o absurdo tenha espaço na nossa vida, tenha espaço na nossa sociedade, mas que apesar disso, não podemos abdicar de lutar e de querer fazer a nossa vida.”
A mensagem do livro marcou-se "profundamente” - foi um "grande abrir de olhos” - e é possivelmente a razão pela qual, a acabar o curso de Engenharia, Jorge Pinto tenha decidido doutorar-se em Filosofia.
"Percebi que há um espaço de pensamento que vai muito para lá daquilo que é o pensamento do dia a dia. Às vezes, é importante parar ou até andar, mas a pensar nestas questões. E esse livro moldou muito a minha maneira de pensar a vida que, repito, é um bocadinho: o absurdo pode existir, mas não deixemos que ele nos consuma, não deixemos que ele se torne o centro das nossas vidas, sejamos capazes de agir”. Reencontrou-se com o livro ao preparar esta entrevista, mas foi noutro, de um outro ciclo de Camus, que encontrou uma citação para partilhar: “A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente."
Caiu bem ao candidato, que tem “Presente” como lema de campanha: "Pareceu-me fabuloso. Realmente, está aqui uma frase que poderia perfeitamente ser o slogan de campanha daquilo que eu quero, eu quero dar tudo ao presente para que possamos ter um país de futuro do qual nos orgulhamos e onde vale a pena viver.”
Falta agora transportar “O Estrangeiro” até ao mundo político e, em específico, até Belém. Jorge Pinto identifica algum “absurdo” no tempo que o país vive ao ouvir "coisas que há dois ou três anos, nem vou mais longe, dois ou três anos eram impensáveis”.
Vê esse “absurdo” nos debates televisivos em que se fala "sobre o papel da mulher na sociedade, sobre se a mulher deve trabalhar ou deve estar em casa”.
"Nós temos agora o privilégio, como eu estou a ter agora aqui, de falar para centenas de milhares de pessoas. Vou ter o privilégio de estar em debates, a falar para se calhar milhões de portugueses e parece que há outros candidatos que levam isto como se fosse um passatempo. Nós temos o privilégio de uma vida que é o de falar aos nossos concidadãos diretamente e dizer-lhes aquilo que nós queremos para o país, aquela que é a nossa visão, como é que nós achamos que podemos melhorar as suas vidas. Isto é um privilégio único e é importante que nós tenhamos noção disso, do luxo que é estar aqui a falar diretamente para os portugueses.”
É com a "ideia de respeito pelo coletivo e pela sociedade” que Jorge Pinto diz apresentar-se na campanha, mas também com os ensinamentos “parecidos” de Albert Camus e de outros pensadores: "Nós nunca somos um indivíduo sozinho. Nós nunca somos ninguém sozinhos. Nós somos sempre o reflexo do coletivo, daquilo que nos formou, da nossa família, das nossas vivências, dos nossos amigos. E eu levo esta missão de ser candidato a Presidente da República de uma maneira muito, muito, muito séria. Eu sei que é privilégio estar neste local e neste lugar onde eu estou agora. E eu quero usar esse privilégio para trazer aos portugueses ideias que melhorem as suas vidas e não para fazer, olhe uma vez mais, mais do mesmo.”
O discurso não se fecha nos eleitores, embora lhes agradeça a oportunidade de mostrar o que propõe para o país. Jorge Pinto quer também os outros candidatos tenham "noção da importância, até histórica” de ter os portugueses “atentos” ao que é dito.
"Se calhar, em vez de lhes oferecer ódio, em vez de lhes oferecer agressão, realçar aquilo que já fazemos de bom, realçar aquilo que nós conseguimos construir, porque o nosso país foi construído por todas e por todos ao longo de cinquenta anos. De termos, apesar dos problemas que é evidente que temos, conseguido construir um país onde se vive muito melhor do que o que se vivia há não muito tempo. E pegar nessa esperança, pegar nesse otimismo, pegar até nessa desilusão que muitos portugueses sentem, mas usá-la para construir um país onde vale a pena viver, dizer presente ao chamamento que o país faz por nós, porque eu acredito muito em Portugal, acredito mesmo muito, e se quis regressar ao país, que é o meu país depois de vários anos no estrangeiro, é precisamente porque acredito que Portugal pode ser um país onde vale a pena viver.”
E porque é que vale a pena viver? Porque, garante este candidato, apesar de "muitas vezes os vários indicadores serem melhores do que aqueles que temos em Portugal”, parece não haver "nada que seja fundamentalmente diferente”. A água “não tem outro sabor”, as leis da Física e da Química também "diferentes não são”.
“Às vezes, o que falta é uma certa visão de país corajosa para mudar as coisas e ter também a ambição de pensar para lá do simples ciclo eleitoral, que é algo que, infelizmente, os nossos políticos não-não querem fazer ou não sabem fazer, mas onde um Presidente da República também pode dizer presente, porque um Presidente da República, apesar de tudo, está menos condicionado pelos ciclos políticos e pode também ele pôr em cima da mesa uma discussão muito mais estrutural e estruturante do país que nós queremos.”
A cantiga é uma lâmina
Falta música ao Palácio de Belém de Jorge Pinto. Mas não por muito tempo, porque o desafio também é o de escolher um álbum. E vem aí um objeto cortante.
"Melómano” confesso e casado com uma "violoncelista clássica”, lá em casa "há sempre muita música a tocar”. Sobretudo "álbuns completos”, coisa de que é “adepto” por nunca ter aderido "aos singles ou best offs”.
“Gosto sempre de ouvir um álbum do início ao fim porque ele retrata o momento que o próprio artista estava a viver enquanto estava a escrever, a produzir, ou o que quer que seja. E são todos diferentes entre si. Portanto, mesmo as canções do mesmo artista de um álbum para o outro são diferentes porque a sua própria vida foi diferente”, justifica.
A escolha que faz para Belém é - afirmação forte - "talvez o melhor álbum de música portuguesa do século XXI”. O projeto musical que o idealizou “já não existe: é A Naifa”.
"Juntou, na verdade, músicos que já vinham de outros projetos: dos Sitiados - que foi talvez a minha banda preferida nos anos 90, o Aguardela e a Sandra Baptista, juntou Mitó Mendes na voz e depois o Luís Varatojo, que agora com os Luta Livre continua este trabalho de reinvenção da música portuguesa. A Naifa fez precisamente isso.”
Descobriu “Canções Subterrâneas”, lançado em 2004, porque lhe foi “quase imposto”. Estava no primeiro ano na Faculdade de Engenharia do Porto, num tempo em que "ainda se copiavam CDs - isto hoje já parece uma coisa muito do antigamente - mas copiavam-se CDs”.
"Sentei-me na sala de computadores para trabalhar e vi que estava um CD no compartimento dos CDs. Abri a caixa, vi que estava escrito só "A Naifa", um álbum copiado. Dei play e aquilo foi uma revelação. Disse: ‘Uau, o que é que está aqui a acontecer?’ Então comprei o álbum original.”
E nem só de música vive este amor à primeira escuta. É que, no álbum, “dá-se a feliz coincidência também de a capa ser um pormenor de uma pintura do Amadeo de Souza-Cardoso", pintor amarantino e, portanto, conterrâneo de Jorge Pinto sobre o qual uns anos mais tarde o agora candidato viria a escrever "uma banda desenhada”. O álbum é, “na verdade, um reflexo do país porque todas as canções, todos os textos, são poemas de poetas da vida portuguesa das últimas décadas”, entre eles Adília Lopes, Eduardo Pitta, Rui Lage ou José Luís Peixoto.
"Estavam ali a ser cantados numa reinvenção que não era pop, não era fado, mas transpirava Portugal de uma maneira diferente, moderna, nova e inventiva. Aquele álbum, para mim, foi uma coisa fabulosa. Tornei-me super fã d’A Naifa, tenho todos os álbuns e continuo a achar, até agora, em 2025, quando já correu um quarto de século: é para mim o melhor álbum, século XXI português.” Que é como quem diz, pode ter selo presidencial.
Na mala para Belém é um podcast da m80 conduzido por Teresa Mota e Nuno Castilho de Matos, com sonoplastia de Paulo Castanheiro e produção de Margarida Gonçalves. Pode ser ouvido em todas as plataformas de podcast e no site da rádio.
Para este podcast a m80 convidou os candidatos de acordo com dois critérios: os que estão mais destacados nas sondagens e os que têm apoio de partidos com representação parlamentar. Esta conversa foi gravada em dezembro de 2025, antes do arranque da campanha eleitoral.

