"As pessoas olham para o que está na Constituição e olham para a sua vida e veem que isto não dá certo"
O "melhor livro português do século XX" e um cachecol da primeira escolha na mala de António Filipe para Belém.
António Filipe tem 62 anos. É candidato à Presidência da República e, por isso, conta chegar a Belém que não é nem muito longe de onde nasceu, em Lisboa, nem muito longe do coração, ou não fosse adepto do Belenenses desde criança.
Membro do Partido Comunista Português desde os 12 anos, entra como membro da União dos Estudantes, segue como representante dos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e acaba no Parlamento. Jurista e professor universitário, tem uma longa e reconhecida carreira como deputado à Assembleia da República, onde foi vice-presidente de várias legislaturas. É conhecido nos corredores de São Bento também pelo sentido de humor.
O candidato apoiado pelo PCP foi desafiado – como todos os adversários - a escolher cinco coisas para levar para o Palácio de Belém se se tornar o novo Presidente da República. As categorias são: uma fotografia, um prato, um objeto, um livro e um álbum.
É pai de dois filhos e avô de um neto, enviuvou poucos dias antes de assumir um lugar na corrida a Belém. É sócio com lugar cativo na bancada central do Estádio do Restelo e membro do Conselho Geral do Belenenses. De vez em quando, vai à bola. É também reconhecido por saber fazer pontes e alerta para um país com “profundas desigualdades e injustiças”, mas também para "o estado de degradação da democracia nacional.
Foi “no verão passado” que soube que tinha de candidatar-se contra aquilo que chama de "consenso neoliberal”, algo com que não se identifica. "Creio que se justificava que aparecesse um candidato à esquerda dos candidatos que existiam, identificado com os valores da Constituição e do 25 de Abril”, que, diz, tem vindo a ser "muito deficitariamente cumprida”.
"Disse na altura que é uma candidatura que aparece porque não se identifica com nenhum dos candidatos que existiam. Aquilo a que me propus era, enfim, apresentar estes valores, achando que era o melhor candidato para o fazer.” É por isso, explica, que foi dizendo que “qualquer outra candidatura que pudesse vir a aparecer” não substituiria a sua própria iniciativa.
"Acho importante é que os portugueses confiem no Presidente da República que vão eleger, que elejam um Presidente da República confiável, que se apresente como aquilo que defende, pela forma como vê o cumprimento da Constituição.” Reúne o apoio do PCP e do PEV, mas não deixa de notar que a Presidência "é um órgão unipessoal” e, por isso, “ninguém deve vir para a Presidência da República querer pôr em prática um programa de partido. Não é isso que a Constituição pressupõe”.
A candidatura que lidera é também de combate à direita, mas não alinha na ideia de que só a esquerda esteja dividida. "A direita também está. Há vários candidatos da área da direita. Ninguém pode impedir ninguém de se candidatar. Quem tiver as 7500 assinaturas exigidas e mais de trinta e cinco anos de idade, tem legitimidade para se candidatar. Eu não contesto isto juridicamente. E politicamente, eu não contesto que qualquer cidadão considere que seria um bom Presidente da República.” Quer a sua candidatura a “valer por si” porque "é assim a democracia”.
Assume-se também como um candidato de Abril, valores com que se diz “muito feliz” para a “função fundamental do Presidente da República, como diz a Constituição, que é cumprir e fazer cumprir a Constituição" em “vários planos”.
"Um que é o plano de relacionamento dos órgãos de soberania, a separação de poderes”, outro que é a "componente económica e social, que é muito importante” e "distingue muito a Constituição portuguesa”. É por isso que a vê como "uma constituição de Abril”, já que "traduziu a vontade das pessoas quando se fez o 25 de Abril, e por isso consagrou direitos fundamentais, não apenas de liberdades públicas, que são essenciais, mas também direitos dos trabalhadores, direito à saúde, direito à educação, direito à segurança social”.
Vê no Presidente da República alguém que "não vai governar, mas deve ter como referência, no exercício dos seus poderes, aquilo que é a existência de políticas públicas conformes à Constituição. E deve usar não só a sua influência política - porque o Presidente da República é o órgão unipessoal com maior influência política em Portugal e porque é o único que é eleito diretamente pelo povo e precisa de maioria absoluta para ser eleito - mas tem de ter um papel político”.
Assume-se candidato “contra a direita”, mas com a ressalva de que "não foram só os partidos considerados como partidos de direita que levaram à prática políticas de direita, acho que houve governos do PS que também o fizeram”, e contra o “estado de coisas com este rotativismo no exercício do poder que nos tem deixado mais ou menos na mesma”.
"As pessoas olham para o que está na Constituição e olham para a sua vida e veem que isto não dá certo. Porque as pessoas não têm direito à habitação, porque as pessoas têm dificuldades no acesso à assistência nacional de saúde, porque os jovens às tantas pensam que o melhor para a sua vida é emigrar porque cá não consegue que haja um emprego compatível com os estudos que têm, com a sua formação.” E por ver tudo isto, quer alguém na Presidência da República que “não se identifique com isto e que faça aquilo que estiver dentro dos seus poderes, que são obviamente limitados, mas são relevantes, para que haja uma alteração na política nacional”.
A madrepérola de Arafat a caminho do checkpoint
A imagem escolhida por António Filipe para levar na mala para Belém é “claramente intencional”. Não tem o original, mas “ficou num telemóvel”. A reprodução que guarda “não está em bom estado”, a história da imagem sim.
"Esta fotografia foi tirada com Yasser Arafat." Corriam os primeiros anos do século XXI quando António Filipe foi recebido, na Palestina, pelo então Presidente da Autoridade Palestiniana.
"Ele tinha recebido o Nobel da Paz, juntamente com o primeiro-ministro de Israel da altura, Yitzhak Rabin, que nesta altura já tinha sido assassinado.” Arafat, conta o candidato, "estava sob cerco”.
António Filipe entrou em Ramallah, na sede da Autoridade Palestiniana na Cisjordânia, “com dificuldades” e depois de atravessar "muitos checkpoints”. Foi recebido "muito gentilmente” por Arafat para “manifestar, em representação do PCP, solidariedade”.
O edifício em que o líder palestiniano se encontrava "já estava cercado pelo exército israelita, mas ainda foi possível entrar. Estavam do lado de fora, apenas com os tanques de guerra. Uns dias depois de lá ter estado foi mesmo invadido. Havia fotografias oficiais disto que desapareceram, esta ficou num telemóvel e eu fiquei com esta foto. Depois foi publicada cá na imprensa e por isso é que esta reprodução foi feita a partir dessa foto. Eu perdi o original”.
Desafiado a recordar a conversa com Arafat, sabe que “agradeceu muito a ida” de António Filipe, "achou que era um ato de coragem”. E o agora candidato a Belém não saiu de mãos a abanar: “Ofereceu-me para eu trazer para Portugal um presépio em madrepérola, muito bonito, que me deu uma carga de trabalhos trazer.”
A história adensa-se. "O regresso foi difícil porque, entretanto, tinha havido uma noite com muita violência e as autoridades israelitas fecharam a passagem. Eu tinha de sair da Palestina e entrar mesmo em Israel para apanhar o avião até Telavive. Tinha amigos, camaradas, aliás, de Israel, que me ajudaram a chegar lá, mas depois não puderam ajudar a sair. Ou seja, eu fiz uma coisa um bocado, enfim, arriscada. Aquilo estava fechado e havia um taxista que me levou até um determinado ponto e disse: ‘Eu até aqui te levo. Daqui não passo.’ E então disse-me o que é que eu havia de fazer, que era eu abrir o casaco, mostrar que não levava nada, porque tinha um checkpoint armado lá à frente. Eu fui andando muito devagarinho com a minha mala, com o meu trolley e com o presépio de madrepérola que não abandonar. Depois, mandaram parar. E eu parei. Depois, mandaram avançar devagarinho, eu avancei devagarinho. Um soldado israelita perguntou o que eu lá tinha ido fazer, e... Pronto, lá consegui passar.”
A história acabou bem, apesar do período de “muita violência” e de uma situação que hoje “não está melhor, como sabemos”.
“Naquela altura, era muito, era muito difícil. Vivia-se uma situação muito complicada. Foi aquilo que se chamou a segunda Intifada, uma coisa que marcou muito a minha vida política, as peripécias que rodearam isto e o facto de me ter encontrado com, de facto, o que era uma personagem histórica”, recorda.
Se isto foi há mais de 20 anos, o que conta António Filipe trazer de Belém, numa fotografia, daqui a cinco ou dez? “Talvez ficasse com alguma fotografia da tomada de posse ou de algum visitante ilustre que tivesse passado por Belém nesse período. Teria muito gosto. Naturalmente, hei de ficar com essa fotografia. Ou uma passagem de testemunho do atual Presidente da República, com quem tenho uma relação de grande cordialidade, foi meu professor na faculdade.”
É apenas uma das várias ligações de António Filipe a atuais e antigas figuras da política portuguesa, já que além de ter sido aluno de Marcelo Rebelo de Sousa, "na mesma turma estava o antigo primeiro-ministro e atualmente presidente do Conselho Europeu, António Costa”. Quanto a atuais candidatos a Belém, é “amigo de António José Seguro há 40 anos” e, ao longo “destes anos todos”, fez questão de relacionar-se com "pessoas por quem, mesmo de outros partidos” tem "grande estima pessoal”.
Uma variante e um convite para almoçar
Foi também à mesa que estreitou laços e, para isso, há que comer ou cozinhar. E António Filipe faz um prato "que é muito apreciado” por familiares e amigos.
“É uma variante do bacalhau à Gomes de Sá. Diria que é um bacalhau à Gomes de Sá, mas não totalmente pela receita tradicional.” Não tem propriamente segredo. Aliás, o candidato garante mesmo que "não há nenhum”.
Tome notas. "Faz-se o bacalhau cozido com batatas e ovos cozidos, com muita cebola frita e muito azeite. Faz-se, desfia-se bem o bacalhau e depois leva-se ao forno para ficar bem quente. Azeitonas e salsa e aquilo normalmente sai-me bem e é muito apreciado pelo meu pessoal.”
Está feito, falta servir. Quem é que António Filipe chamaria para a mesa? “Não teria nenhuma dificuldade em convidar a Catarina Martins, o Jorge Pinto, o António José Seguro, também. Já almoçamos juntos muitas vezes, eu e o António José Seguro, há muitos anos, ultimamente não”, ou não se conhecessem "desde muito jovens” quando um estava na Juventude Comunista Portuguesa e o outro na Juventude Socialista. Ainda estiveram juntos na “criação do Conselho Nacional de Juventude, nos anos 80, e depois disso somos deputados, enfim. Tivemos um trabalho conjunto interessante numa reforma do Parlamento aqui há uns anos atrás, portanto já tive a oportunidade de conviver muito com ele e podíamos almoçar mais vezes”. Fica o convite feito maioritariamente à esquerda.
E os restantes candidatos? "Conheço bem o doutor Marques Mendes. Depois, enfim, conheço mais recentemente os outros candidatos à direita. Em relação ao candidato Henrique Gouveia e Melo, fui membro da Comissão de Defesa durante vários anos. Lembro-me que ele foi apresentado numa visita que fiz à Marinha. Ele na altura ainda não era propriamente chefe de Estado-maior. Nem sei se já era almirante, mas pronto, foi-me apresentado como um ilustre submarinista. Depois disso só o voltei a encontrar casualmente, numa altura em que já sabia que ele ia ser candidato, cruzei-me com ele e cumprimentamo-nos. Depois agora no recente debate televisivo, pessoalmente conhecemo-nos muito mal.”
O cachecol do que sempre foi a “primeira opção”
O objeto de António Filipe está nas mãos desde que entrou na sala para a entrevista. É o cachecol do Belenenses, clube de que é sócio e ao qual se ligou ainda criança.
"Fui pela mão do meu pai ao estádio do Restelo começar a ver os jogos. A minha família paterna é da Ajuda, não é propriamente do Restelo. E o meu pai nem gostava muito do Restelo, era um nostálgico do campo das Salésias, que era o estádio que o Belenenses tinha no tempo dele, quando ele era mais jovem. Mas depois lá ia ao Restelo”, recorda, confessando que hoje gosta "muito de ir ao Restelo” e o acha "muito bonito, mesmo que o jogo não seja grande coisa”.
“A vista é ótima” e, para melhorar, “o Belenenses está em primeiro lugar” da Série B da Liga 3. Confessa que há particularidades em ser “adepto, e neste caso sócio, de um clube que já foi grande e agora não é, ou que pelo menos está numa divisão mais recuada por vicissitudes que são mais ou menos conhecidas”.
"Não ser nem do Benfica, nem do Sporting, nem do FC Porto permite-me olhar para este fenómeno desportivo mais na desportiva. Ou seja, eu não sofro muito. Quer dizer, sofro muito durante o jogo. Vivo muito durante o jogo, mas assim que o jogo acaba, acabou. Vira uma página. Ganhámos, ótimo. Mas se perdemos, pá, paciência. Isto é só um jogo”, e a seguir há bacalhau.
Sente que consegue "compartilhar as alegrias e as tristezas dos outros”, olha para o fenómeno com "uma certa neutralidade em relação aos clubes que apaixonam mais gente”. Ainda assim, não se livra de ser apanhado em fogo cruzado: "Os meus amigos benfiquistas dizem que eu sou um portista disfarçado, os meus amigos sportinguistas que sou um benfiquista disfarçado.”
E também já se habitou à tradicional pergunta sobre qual é o outro clube além do Belenenses. Garante que não há mais nenhum: “O Belenenses é um clube de primeira opção. É assim. Eu quando começava a ir ver os jogos, lembro-me do Belenenses ficar em segundo no campeonato nacional. Lembro-me do Bayern de Munique jogar no Restelo. Portanto é um clube de primeira opção, estar cá mais abaixo não faz mal”.
A palavra de ordem no Restelo, por estes dias, é "A nossa paixão não tem divisão" e António Filipe não discorda. Também não é algo que o preocupe demasiado, “é apenas um jogo”.
“Uma vez li uma notícia engraçada de um grande jornalista desportivo, o Carlos Pinhão, que a propósito de futebol dizia: ‘Tudo acaba com o banho.’ A seguir ao jogo toma-se um banho e pensa-se no próximo. Mas gosto muito de ver os jogos de futebol e gosto de ir ao Restelo.” Só não vai tanto quanto gostaria.
Quando era mais novo “ia mais vezes” mas a vida política “ocupa muito os fins de semana e, portanto, não é fácil arranjar um fim de semana para poder ir”. Quando pode, vai, e quando vai, vai "com imenso gosto”. E garante que vai “todos os anos”, mas prefere "ir aos primeiros jogos, aqueles que não comprometem muito”. Os jogos decisivos são uma “coisa tramada”.
“O melhor livro português do século XX”
E de que livros se faz António Filipe, além dos que o próprio faz? Autor de várias obras, em Belém há de ter muito que ler entre documentos oficiais e institucionais, mas não abdica de “arranjar sempre” forma de ler por prazer.
“Eu nunca, nunca adormeço antes de ler um bocadinho. Eu leio sempre um bocadinho, quanto mais não seja para pensar noutra coisa”, confessa, e gosta "muito daquilo que se escreve, da literatura portuguesa. Gosto muito e procuro sempre acompanhar, sobretudo as novas obras que vão saindo, uma série de escritores que tenho como referência”.
Leva para Belém aquele que considera ser "o melhor livro português do século XX: Memorial do Convento”. Escolhe-o porque foi com ele que descobriu "a obra de José Saramago”.
"Ele também foi jornalista e escreveu as Crónicas, era um nome já conhecido, mas quando sai o Memorial do Convento, li esse livro. Foi um ano, aliás, extraordinário na literatura portuguesa, porque no mesmo ano sai A Balada da Praia dos Cães, de Cardoso Pires.” Mas voltemos a Saramago.
“Achei o Memorial do Convento um livro absolutamente fabuloso. E foi dos poucos livros que eu li mais do que uma vez. De ficção portuguesa, acho que os dois livros que eu li duas vezes foram ‘Os Maias’ e o ‘Memorial do Convento’. E aconteceram duas coisas: enquanto que eu quando li Os Maias, gostei mais da primeira vez que li, no Memorial do Convento, a segunda vez que li, passados muitos anos depois de ter lido a primeira vez - que o livro é dos anos 1980 - fiquei fascinado. Gosto de dizer que aquele livro é absolutamente magistral” e, reforça, "a melhor obra do século XX português”.
Para António Filipe é uma "história maravilhosa” do "povo que constrói o palácio” ladeada pela “história de amor entre o Baltasar e a Blimunda”. E “aquela invenção da Blimunda, que tinha poderes e via as pessoas por dentro... Depois aquela ligação com a passarola. O livro é fabuloso”.
Confessa até que aconteceu “uma coisa fantástica, que é acabar de ler um capítulo e pensar assim: ‘Épa, eu agora gostava de aplaudir.'" E confirma que gosta de levar partes do livro para a Presidência.
"É uma história de amor, de solidariedade, também de ostentação do poder”, uma obra com "valores positivos e negativos”, até porque há quem acabe “queimado pela Inquisição”. Há nele uma “sociedade portuguesa, com todas as contradições que tem. Espelha o que foi a vida do país num determinado período. Mas o valor do amor e da solidariedade, e o protagonismo que o povo tem na evolução de toda a nossa história, sim, acho que é uma grande referência”. Tudo isto, claro, aliado à “enorme qualidade da literatura portuguesa, que nunca é demais salientar”.
O eterno Coliseu de Zeca Afonso com um toque new wave
Belém não tem os carrilhões, sinos, nem órgãos de tubos de Mafra, mas também há de dar música e António Filipe sabe que álbum quer levar na mala. E é uma versão ao vivo: "Foi o último espetáculo do José Afonso no Coliseu.”
Di-lo sentado num dos estúdios das "instalações mais históricas da rádio portuguesa”, na Sampaio e Pina, de onde foram difundidas as mensagens que ajudaram a fazer o 25 de Abril.
A ligação com José Afonso é mais do que “Grândola” usada nessa noite. É a escolha de António Filipe porque o espetáculo “memorável” no Coliseu foi “o último”.
"Todos sabíamos que era o último porque ele estava com um estado de saúde já muitíssimo debilitado. E esse álbum é muito emocionante”, recorda, apesar de reconhecer que “é uma coisa deficiente, com poucas câmaras, uma transmissão televisiva muito rudimentar para os nossos dias, mas que ficou registada e também em disco”.
Há “dois momentos míticos muito fascinantes” que este candidato a Belém destaca, e são os dois extremos do espetáculo: o final, quando José Afonso convida os espetadores a subir ao palco para “Grândola, Vila Morena”, mas "sobretudo quando o espetáculo começa, em que ele canta aquela canção de Coimbra: ‘Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar’. Isto foi uma coisa que gelou completamente, emocionou toda a gente”.
A música de António Filipe vai, no entanto, mais longe e a que mais aprecia é "um pouco o espelho” da geração a que pertence. Gosta de fado e “daquilo que se vai fazendo em Portugal”, com "novos valores muito bons”, mas ainda tem referências "de quando era mais jovem, do Sérgio Godinho, do Vitorino, Fausto, José Mário Branco, também depois Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, aqueles cantores que marcaram a minha geração”.
E também gosta, confessa, "daquilo que passa aqui mais na M80”, uma rádio que não tem idade e é para toda a gente ouvir, mas que diz muito à geração a que pertence.
"Apanhei uma fase em que havia uma certa guerra cultural, eu estava a terminar o secundário e a entrar para faculdade. Houve uma altura em que havia uma moda que foi a moda da disco. Os Bee Gees e tal, o Saturday Night Fever, esse tipo de coisa. Havia uma certa guerra cultural e eu não me identificava com essa ala, porque, entretanto, surgiu uma coisa que era a new wave, onde estavam os Police, do Sting, e o Bob Geldof, que tinha uma banda que era os Boomtown Rats, depois aparece os Madness e tudo. E eu era desta ala, identificava-me muito mais com a new wave do que propriamente com a disco”. Nada que impeça que hoje, ao ouvir Bee Gees, sinta “uma certa nostalgia, porque de facto - e os Supertramp – marcaram” a geração a que pertence.
"Quando passo também pelo M80, às vezes, aquilo ouve-se muito bem. O tempo acaba também com estas rivalidades estéticas, em termos musicais.”
E assim ouvir-se-á Zeca Afonso, mas também new wave, em Belém. A mala está feita.
Na mala para Belém é um podcast da m80 conduzido por Teresa Mota e Nuno Castilho de Matos, com sonoplastia de Paulo Castanheiro e produção de Margarida Gonçalves. Pode ser ouvido em todas as plataformas de podcast e no site da rádio.
Para este podcast a m80 convidou os candidatos de acordo com dois critérios: os que estão mais destacados nas sondagens e os que têm apoio de partidos com representação parlamentar. Esta conversa foi gravada em dezembro de 2025, antes do arranque da campanha eleitoral.

